Tributo a Edson Gomes Lins

Autor:   Clodoval de Barros Pereira

AACB FOTO DE EDSON DIANTE DA CAPELA

Edson Lins diante da Capela que mandou construir para Padroeira do engenho, Nossa Senhora de Fátima.

PP7GU, PP7GU, Edson Gomes Lins, Engenho Ouro Preto, Alagoas, aqui chamando PP7ABB, Clodoval de Barros Pereira, aquele que você apadrinhou para o ingresso na rede de Rádio Amadores do Brasil.

Nenhuma resposta…  Ora, ora, o que teria acontecido ? Ele sempre está K A P.

Será que Aquele que orquestra todos os sons achou que 70 anos no ar já era suficiente e resolveu silenciar os microfones dos 40 rádios de PP7GU ? Ah, não me darei por vencido, continuarei insistindo.

PP7GU, Edson Lins, aqui chamando Clodoval, PP7ABB, América Brasil Brasil.

Seus inúmeros colegas espalhados pelo Brasil e pelo mundo continuam chamando sem obter retorno. Muitos dos adeptos do rádio amadorismo, do aeromodelismo e do ferreomodelismo desconhecem a ausência de PP7GU e seu consequente silêncio.

Seus filhos Ricardo que reside no engenho onde planta canas e cria gado e Cláudia que cultiva flores tropicais e tiveram a sorte de uma vivência mas próxima a ele devem saber do que o que poderá ter ocorrido.

Mas isso não impede que conversemos fora do ar, uma vez que os entes queridos não morrem, tanto é que lhe sinto aqui junto aos seus familiares e amigos escutando o que lhe falo e sabendo que o vejo em minha imaginação. E sabe, também, que nada será capaz de anuviar a imagem da pessoa que amamos, muito menos fazer esquecer o que vive dentro de nós, porque, mesmo que venhamos a perecer, outros continuarão a cultuar a memória de quem a vida imortalizou.

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Sua filha Cláudia Nobre Lins tendo ao fundo o antigo prédio do engenho Ouro Preto

Você bem sabe que quando a saudade me batia ao peito, eu pegava a estrada e chegava aí para colocarmos nossa conversa em dia. E sempre que chegava a Ouro Preto botava abaixo em sua casa e você, sua mulher Olga Nobre Lins e seus filhos me recebiam com a mais prazerosa das alegrias. Essa receptividade produzia um astral que refazia minhas energias, era como se eu chegasse picado de cobra e mordesse a casca do pau Teú, como fazem os Tejos quando mordidos por serpentes venenosas.

Também pudera! Aqui nasceu você, Luzinho, Enildo e Zezito aos quais também, sempre devotei minha amizade. Zezito, eu e meus irmãos Clodomir, Edvalson e Jurandir nos tornamos moleques da bagaceira do engenho juntamente com Tejo, Amaro Firmino, Nego Chicau, Tonho Preto, Severino dos Ramos Lins e tantos outros que ficaria cansativo citar seus nomes.

Com o correr dos anos, quando você ficou a frente do Engenho e se tornou o senhor destas paragens, chamou meu pai para retornar a terra onde ele se criou e me convocou para fazer parte dos seus colaboradores, como conto na crônica ERA ASSIM QUE EU VIVIA. Nessa época eu tinha treze anos de idade, porém, se assim não tivesse acontecido eu não teria aprendido nem conquistado sua confiança para que você me abrisse caminho aos créditos nos Bancos e ao trabalho nas usinas de açúcar.

Nunca falamos sobre isso, mas sua ajuda me fez chegar a comerciante, fazendeiro, criador de gado, plantador de canas… Depois gerente de usina. Sim, gerente de usinas, porque você convencia os usineiros que eu sabia administrar, que eu dominava uma porção de coisas. Eu nunca acreditei que soubesse nada, mais você acreditava e eu, de forma despretensiosa, esforçava-me para que os patrões se manifestassem de forma satisfatória em relação a sua indicação.

Meu amigo, você sempre gostou de ajudar as pessoas, tanto é que jamais deixou de acolher em sua casa e empregar em sua modesta usina de açúcar, mel e aguardente, os parentes, os amigos necessitados ou decaídos…

Sempre foi assim, se não tivesse o que fazer, você inventava; se o dinheiro tivesse escasso, arranjava um meio, tirava do pouco existente. Se um parente ou um amigo batia à sua porta, você repartia a água e o pão como fazia Aquele que palmilhava os ásperos caminhos da Galiléa. Nunca lhe vi dando as costas, nem se fazendo de desentendido diante de quem chegava exausto, precisando de um arrego, um pouso, um lugar para viver.

Havia quem não aprovasse aquele seu jeito de viver, contudo, assim não pensam seus colaboradores mais próximos como Antonio, Cicinho, Zé Preto, Marlene, Beijú e muitos dos que engrossam as fileiras daqueles que fariam tudo  para continuarem ao seu lado na labuta diária.

Em Ouro Preto nasceram muitos dos nossos, alguns partiram à procura doutros mundos, inclusive eu fiz algumas revoadas, mas retornava ao convívio desse paraíso maravilhoso, habitado por pessoas queridas, não só parentes como você, mas descendentes das famílias Firmino, Chicau, Miro, Nô e de tantas outras trazidas para trabalhar, no ano de 1914, pelo seu avô Salu a quem sempre reconheci como um dos homens mais inteligentes, honestos e empreendedores que conheci.

E você seguiu as pegadas dele, do senhor a quem eu, menino, chamava de pai Salu e depois de tio Salu por ser ele irmão de minha avó paterna. Olha Edson, não fosse a acidental enfermidade que se interpôs em seu caminho, tenho certeza, habitando uma das encostas ao pé do vale desse paraíso verde, você suplantaria o século de sua existência criando gado, plantando canas, fazendo açúcar, mel e a centenária aguardente Ouro Preto que ainda hoje saboreio como uma das melhores que já tomei.

E você sabe disso, e em seu nome irei levar ao meu amigo Pedro Cabral, renomado professor de Arquitetura, pintor e poeta de alta qualidade, um dos garrafões de aguardente que há três anos peguei aqui para ele, porém o meu jeito de caipira tímido e reservado, fruto desses mundos, retardou até hoje a entrega do precioso líquido.

Tenho outro garrafão que vou pedir ao Pedro Cabral para oferecer a um menino que conheci em Palmares. O menino é filho de “seu” Almeida, aquele que era Gerente do Banco do Brasil. Você mesmo lembrou que o pai dele era um funcionário exemplar e que nos atendia imbuído do saber e do respeito que o seu porte impunha.

Esse menino se chama Sávio Almeida, hoje é um respeitável professor universitário, filósofo e sociólogo, sei lá, sei que é um homem muito inteligente. Eu lhe disse que o vi em fotografias, publicadas em jornais, saboreando “uma branquinha.” Mas o que eu ia dizer mesmo era que gosto do que ele escreve…

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Ricardo com Edson numa das duas casas de rádios e aeromodelismos no engenho.

Houve silêncio e enquanto ele se fez, tomamos o costumeiro cafezinho, você acendeu seu inseparável cachimbo e eu olhei o relógio e constatei que a hora da partida se fazia necessária.

Em Recife, já pensando em retornar ao engenho, recebi um telefonema mandado por sua filha, a Juíza Valéria Lins Calheiros, avisando que você havia aprofundado o sono e só voltaria ao engenho para se entregar ao repouso eterno.

Talvez, por isso, hoje, falei de coisas que você bem sabe, eu jamais ousaria. Presumo ter sido o somatório do choque da notícia, da certeza da ausência e da frustração motivada pela perda, que me fizeram retomar nossas conversas. Lembra-se das elogiosas referências que você fez ao respeitável Juiz, o primo Antonio Luna o que eu aprovei com entusiasmo.

Falo do Tonho porque estou rememorando o emocionado discurso que ele pronunciou durante suas exéquias realizadas em Ouro Preto. Em sua fala, ele proclamou a amizade que tinha por você de forma tão veemente como se tivesse escutado o que falamos sobre ele. Isso mesmo, escutei-o repetir várias vezes que perdera um grande amigo.

E eu que nasci nessas paragens, que andei sob as sombras das frondosas árvores destas matas, mergulhei nos riachos, montei cavalos, e convivi com homens bons e amazonas bonitas e meigas, o que dizer?

A voz embarga, os olhos marejam e não consigo enxergar com nitidez os campos que eram tão meus. E você sabe mais que eu, as terras não têm alma, são as pessoas que dão alma às terras. E você, Edson, sempre doou seu corpo e sua alma ao engenho Ouro Preto.

Tanto é que você pediu que voltassem seu corpo para o sono eterno no solo que tanto amou e que durante 92 anos viveu e pisou sobre ele. Não tenho dúvida do seu empenho quanto a orientando dos seus filhos Ricardo no plantio de canas e Cláudia Nobre Lins no cultivo das flores tropicais enquanto os demais se organizam para ocupar a parte a que fazem jus e se empenharem na tarefa de restabelecer a alma de Ouro Preto.

Convicto do esforço dos filhos do amigo/irmão não posso esconder o  desejo de que tudo vai andar como sempre andou.

É natural a sensação que nos invade quando perdemos um ente querido, a primeira coisa que nos vem é que o mundo ficou menor e o ninho onde pousávamos nunca mais será o mesmo.

Reina a dor e o silêncio, até as palavras que ouvíamos não emudecem totalmente porque continuam ecoando em nossas recordações.

A mim fica o lamento doloroso da perda do derradeiro amigo.

Maceió, 05 de junho de 2016

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