Autor: Clodoval de Barros Pereira
Sobre os meus ombros nus
conduzo um fardo pesado
com destroços de esperança
e sonhos despedaçados.
Por ser agreste o caminho
sinto o corpo cansado,
as pernas bastante torpes
e os pés estropiados.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Sobre os meus ombros nus
conduzo um fardo pesado
com destroços de esperança
e sonhos despedaçados.
Por ser agreste o caminho
sinto o corpo cansado,
as pernas bastante torpes
e os pés estropiados.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Ao cair da tarde,
era sempre ao cair da tarde,
que encerrávamos os trabalhos,
os pesados trabalhos do canavial.
Tempo de plantio,
de roço, encoivaração
e de queima de coivaras.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
As pessoas que nascem no campo e crescem sentindo o cheiro da terra, das plantas e dos animais dificilmente se acostumam levar a vida na solidão das cidades tumultuosas. Esse foi um dos problemas que meu pai teve que enfrentar ao deixar o campo e partir para morar em Palmares, cidade que ele simpatizava mas não se adaptou, teve que retornar aos seus velhos pastos, às terras do vale do Jacuípe, no Estado das Alagoas.
Resoluto, juntou a filharada e, dessa vez, retornou ao engenho Ouro Preto de propriedade do seu tio Salustiano de Barros Lins. Aquele era o mundo que ele conhecia e gostava e que nós também conhecíamos e gostávamos, porém, precisávamos nos readaptar para, mais uma vez, enfrentá-lo. Nada estranho, apenas um exercício a mais em terreno acidentado, onde as encostas e os pequenos baixios nos retemperam para a luta ao contrário das planícies, que nós, oriundos das terras acidentadas, achamos enfadonhas e desanimadoras.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Nas terras da Amazônia
onde Deus fez seu jardim
estão trocando a floresta
por plantação de capim.
E nas terras devastadas
onde o solo é arenoso,
avança lento o deserto,
faz pena, é doloroso.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Aos que a mim foram ligados por laços de sangue, ideologia ou amizade e chegaram primeiro que eu ao outro lado do túnel, afirmo que me deixaram menor porque levaram consigo pedaços da minha vida e da minha alma, e aos que continuam caminhando ao meu lado, a exemplo do meu tio Mário de Barros Pereira, que há 95 anos caminha com a mesma destreza dos primeiros passos, o meu eterno companheirismo.
Noutras ocasiões falei dos meus pés estropiados amassando relvas na tentativa de abrir uma vereda que me levasse a um lugar onde fosse possível permutar a minha força de trabalho por um salário que desse para comprar o alimento necessário ao desenvolvimento do meu corpo e que contribuísse para salvar o meu cérebro do processo de embotamento causado pelo processo que o Médico Josué de Castro, em seu livro Biografia da Fome, chamou de autofagia ou fome oculta.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Numa madrugada fria,
nas barrancas dum riacho,
eu deslizei para a vida.
E em águas marulhantes,
aromadas de coiranas,
tomei meu primeiro banho.
Muitos setembros passaram
mas meu corpo ainda exala
o cheiro daquelas flores.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Ninguém ignora que no Serviço Público poucas vagas sobram para os filhos da gente espoliada, a não ser de Gari, para varrer ruas, recolher lixos ou outras funções menos atraentes. Os cargos ou empregos mais vantajosos são criados para a parentela desses mandões. O que sobra, ou melhor, o que eles rejeitam, são destinados à ‘cabroeira’ de quem emana, por ignorância ou subserviência, o poder que esses oportunistas exercem.
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Primeiro ouvi de meu pai, depois de velhos moradores do engenho, que me tornei habitante deste Planeta às duas horas de uma madrugada fria que declinava para um domingo ensolarado. E não faz mal lembrar que naquele rincão as pessoas não se ligavam a datas ou horas de fatos acontecidos, porém, não sei por que alguém deu uma olhadela no calendário e constatou que ele marcava 14 de setembro na bucólica sede do engenho Pacheco, um velho bangüê de fogo morto.