Ruminando Lembranças

Autor:  Clodoval de Barros Pereira

01

Os irmãos Alexandrino e José de Barros Pereira, – (meu pai, o de camisa branca.)

Misteriosamente meus ouvidos passam a escutar vozes de homens, cantos de mulheres e gorjeios de pássaros misturados a um murmurinho igual ao que eu ouvia na fazenda de meu pai em Joaquim Gomes, no Estado das Alagoas. E esse murmurinho se associa aos sons produzidos pelo farfalhar das palhas dos coqueiros existentes nas proximidades da casa.

Também escuto um marulhar que não consigo decifrar se é proveniente da chuvarada ou do riacho que desce serpenteando mata abaixo até se misturar às águas do pequeno lago existente ao lado da casa onde morou o meu tio Alexandrino. Se não, pode ser da bica que meu pai mandara colocar para servir de vazante a modesta represa formado por um pequeno veio d’água.

Esse pequeno curso líquido forma um volume como se fosse um riozinho ao se misturar com os seis que também nascem em Petrópolis. E quando da época invernosa, nos dias que a chuva se desprende forte, ninguém passa para casa de Jurandir, pra de seu José Correia nem para a de seu Tino.

O riacho se robustece e chega a transbordar pelo paredão doutro açude existente mais embaixo e inunda a estrada, o cercado e parte do canavial. Não passa nada! Gente, gado, cavalo ou burro só passam se for a nado. Somente a ausência das chuvas baixa suas águas.

Ao deixar as terras de Zeca Barros, passa pelas fazendas Gibraltar e Bom Destino para desaguar no Camaragibe, no final da rua que atravessa Joaquim Gomes. Inquieto, toma o rumo das usinas Santa Amália, Camaragibe e segue vale abaixo até as cidades de Matriz, e Passo, todas de Camaragibe para, depois delas, mergulhar no Atlântico.

E o burburinho continua trazendo aos meus ouvidos o mesmo gotejar vindo do telhado, os mesmos mugidos, relinchos, latidos e vozes com sotaques alagoanos, coisas que eu costumava escutar na casa do meu pai de onde a vida fluía feliz, apesar das dificuldades.

Ouço-o conversando com o pessoal da fazenda sobre a contribuição da chuva no crescimento das canas, das pastagens e dos roçados pertencentes aos trabalhadores. E não deixa de frisar que sem inverno não teria com pagar ao Banco do Brasil o mísero financiamento adquirido com muito sacrifício para tratar do canavial.

Lembro que a gente comia “o pão que o diabo amassou” nas mãos do Banco do Brasil porque ele sempre descriminou os pequenos agricultores. Talvez esse rigor motivasse seus funcionários serem tão rigorosos conosco, o que não acontecia em relação aos usineiros.

Seu José Correia, o homem que lida diretamente com os trabalhadores de Petrópolis não contêm sua alegria com o tempo chuvoso. Ele conversa com meu pai sobre os efeitos da chuva, contam causos e gargalham; aliás, a alegria também se estende aos trabalhadores que desejam ver seus roçados viçosos e produtivos.

E as gargalhadas do meu pai misturam-se ao gotejar das águas do telhado animando os passarinhos que disparam em cantoria nas gaiolas penduradas nos caibros do terraço, enquanto eu, estendido numa rede meditava sobre a vida dos que passam os dias vergados ao cabo da enxada em troca dum salário que mal dava para comer.

Também pudera! Um quilo de cana de açúcar sempre foi e continua sendo, até os dias atuais, mais barato que um quilo de merda. Merda de boi, de cavalo de galinha, de gente. Todo tipo de merda usada para adubar as hortas e os jardins das fartas mansões da gente que se proclama abençoada.

Ciente de que essa miséria é fruto do Sistema Capitalista, sempre que posso, faço-lhes ver que essa injustiça não é oriunda dos desígnios de Deus. E passo a eles o que aprendi com Friedrich Engels em A origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado e muitos já se inclinam a admitem que as injustiças sociais são obras da crueldade capitalista.

Sem esse entardecer chuvoso não estenderia meu corpo na rede do alpendre, nem ficaria a ruminar coisas passadas. Também se não fosse esse ruminar não teria caído no enlevo que me arrastou aos primórdios da juventude, fazendo com que chegasse até a Rua d’A Notícia, número 947, em Palmares.

Esse o endereço do casal Antônio Leão de Almeida e Amélia Marroquim de Almeida, para onde fui levado pelo meu padrinho, o revolucionário Brivaldo Leão de Almeida, participante do levante comunista desencadeado no quartel da Praia Vermelha, no Rio.

Nesse endereço revejo Vilebaldo Leão de Almeida, Léa Marroquim de Almeida, seu marido Luís Gonzaga da Silva e sua filha Amelinha. Depois de abraçá-los parto ao encontro dos ex-colegas da Escola Técnica de Comércio dos Palmares e dos meus antigos professores.

Sentia-me alegre por reencontrar os que tanto me ajudaram, mas tinha que ir à procura dos companheiros de lutas políticas com quem conspirava contra o perverso sistema político-econômico que persiste na exploração do povo trabalhador.

II

02

Locomotiva com vagões de passageiros

Sinto-me confuso, a sonolência não permite que me situe. Ora penso que estou em Petrópolis, ora que isso é resultante de uma mente conturbada. Inclusive, não gostaria de retornar àquela fazenda para não exumar as coisas que o passado sepultou.

Partindo desse princípio chego a admitir a retomada os caminhos que trilhei na juventude, quando troquei Palmares por Recife. Sinto como se fosse uma reconstituição da minha existência dado as imagens que me invadem a mente, forçando-me a ruminar essas lembranças.

Não é à toa que me vejo em Palmares diante de Luís e sua mulher Léa Marroquim de Almeida, criaturas divinas que muito fizeram para minorar as minhas agruras ajudando-me a lutar pela sobrevivência, oferecendo-me pão e teto sem pensar em reembolso.

Mas a esperança me diz que um dia transporei vales e montanhas para retribuir um pouco do muito que recebi das pessoas amorosas e solidárias. Sei que ainda não realizei esse desejo, mas já fiz uso do cinzel que fez sangrar as paredes do meu coração gravando seus nomes abaixo da legenda que fala das minhas refregas nas batalhas que participei em favor dos injustiçados.

Por onde quer que eu passe não esqueço os amigos nem os familiares. Ainda tenho que abraçar os manos, Nivaldo, Zito e Zita e a prima Marili de Barros Lins. E não posso deixar de procurar Dilma, Ivone Simões e os irmãos, meus amigos de infância, Risaldo e Rodolfo Raposo e outros que gastaria dezenas linhas se tivesse que nominá-los.

E ainda tenho que ir à casa acolhedora da família de João Capistrano, pois já fui informado que seu filho, o meu amigo Hamilton Capistrano espera-me para darmos uma voltinha pelo “mundo do pecado”

“que lá é bom e tem tudo o que se quer”.

E fomos rever os cabarés! Demoramos um pouco na “Pensão Riso da Noite” e saímos para a “Monte Carlo”, onde ficamos porque encontrarmos os poetas Fenelon Barreto, João Costa e Ezequias Pessoa voltados para José Ramos da Fonseca que declamava de sua lavra, o soneto ADEUS, dedicado a Litinha que escutava atenta a homenagem que lhe prestava o jovem poeta. Eis a primeira quadra que ainda não esqueci:

“Apesar de viveres prostituída

E não ser o teu mundo o dos conversos,

Foste sempre a razão da minha vida,

Dos meus dias de glórias já dispersos.”

Nem contava que o primo José Eugilton Holanda de Vasconcelos chegaria acompanhado de “João Barba Preta”, “João Barba Azul” e “Zé Carioca”. Souberam da nossa presença no Alto do Lenhador e vieram avisar que uma feijoada borbulhava no caldeirão do “Bar Riso da Noite”, de seu Amaro Quirino.

Partimos para saboreá-la regada com cerveja e aguardente Rainha Pernambucana. Comíamos e bebíamos escutando o saudoso Quarenta cantando sambas, tangos e boleros. O gemer das cordas do violão juntavam-se aos açoites do seu canto que lembravam o da graúna, pássaro que tinha na plumagem a negritude de sua pele ou a cor daquela noite. E a sua voz bonita ecoava pelo salão, ganhava as ruas, os prostíbulos vizinhos e nos instigava a levar o copo à boca, especialmente quando ele cantava o tango que reproduzo um trecho a seguir:

“Mas se passa pela rua algum amigo

em cuja porta a desgraça não bateu,

peço que entre nesse bar e beba comigo,

hoje quem paga sou eu!”.

Estava tão embevecido naquele aconchego que só olhei o relógio quando os pardais começaram a chilrear, anunciando o amanhecer. Ao fazer ver aos companheiros que chegava à hora da partida, alguns relutaram alegando que sobre a mesa ainda restavam garrafas a serem abertas e seria uma desfeita deixá-las retornar ao armazenamento. E outra! Quarenta não largaria o pinho sem cantar o tango Hoje quem paga sou eu.

03

Os fétidos barracos onde a desgraça impera sobre os esquecidos de Deus.

Infelizmente, aproximava-se à hora do trem das seis e eu precisava deixar os amigos e o chão hospitaleiro da “Atenas Pernambucana”, assim cognominada por ser berço de Poetas e Escritores de Pernambuco. E ali se encontravam José Ramos da Fonseca e o Professor Fenelon Barreto, reconhecidos como integrantes da plêiade que engrandecia as letras da nossa “Atenas”.

Não resisti aos apelos e começamos a esvaziar as últimas garrafas, só então começaria as despedidas. Conforme o combinado, abracei os amigos e beijei carinhosamente Julinha, Litinha e Terezinha para em seguida tomar o caminho que levava à Estação Ferroviária da Great Western, onde eu havia embarcado anos atrás para Recife desejoso de trabalhar e fazer um curso que me possibilitasse lutar com mais afinco pela leva de explorados e oprimidos, aquela que eu me sentia parte integrante.

Ao entrar no vagão, o trem apitou avisando que recebera ordem de partida. Não demorou suas rodas começaram a ranger nos trilhos em direção à próxima parada, e assim, sucessivamente, até chegar à cidade que eu havia escolhido para viver.

Assim que o comboio empreendeu velocidade, passei a escutar o matraquear de suas rodas nas emendas dos trilhos. Eram uns troc, troc ritmados que davam até para ninar o sono da noite que passei em claro, mas, a apreensão em enfrentar a metrópole desconhecida afugentava a possibilidade de um cochilo.

Resisti ao que insinuava a maciez da poltrona, levantei a cabeça e olhei à esquerda para poder contemplar aquele mundo que passava pela minha janela. Ele não me era estranho, o poeta Manuel Bandeira já havia mostrado em um dos seus Poemas sobre suas viagens de trem que:

“Passa ponte, passa poste,

passa pasto, passa boi, passa boiada,

passa galho de ingazeira debruçada no riacho.”

E passa mesmo… Passaram cidades, engenhos de açúcar, canaviais, carros de bois e trabalhadores com suas enxadas ao ombro… Passou tanta coisa, mais tanta, que quando dei por mim a locomotiva serpenteava os manguezais repletos de palafitas, onde morava a gente mais desvalida da grande cidade onde eu iria desembarcar.

Não me assustei muito com aquela miséria porque já havia lido, em GEOGRAFIA DA FOME, o que o Médico e sociólogo pernambucano, Josué de Castro escrevera sobre o abandono imposto àquelas famílias relegadas a podridão da lama dos manguezais.

Neste livro, o grande sociólogo descreve O ciclo do caranguejo, como ele se processa a partir daqueles míseros casebres empoleirados, que chamam de palafitas. É de cima deles que as pessoas evacuam os dejetos que serão comidos pelos caranguejos que também habitam aqueles manguezais. Ao crescerem e engordarem, esses crustáceos serão capturados e comidos por quem lhe alimentou com seus dejetos, e assim sucessivamente…

La comparando a miséria daquele povo à vivida pela gente da minha terra, quando o trem se aproximou da Estação Central de Recife. Quantos sonhos, quantas incertezas eu levava comigo! Assim que o carregador pegou a minha bolsa para conduzi-la ao taxi, as saudades juntaram-se as visões dos charcos fedorentos levando meu peito a inflar como se todas as dores do mundo tivessem se juntado às minhas para explodi-lo.

Ao descer do veículo na Rua Nogueira de Melo, em Afogados, meu tio Alexandrino de Barros Pereira estendeu-me as duas mãos. Ou melhor, todas as mãos daquela casa se estenderam para mim. Mas o meu despreparo era tamanho que eu mesmo não sabia como iriam proceder para ajudar um caipira numa cidade tão grande e tão desumana. Não fossem eles, dava para plagiar o Nazareno quando do seu trajeto ao calvário:

Olhei em roda e não houve quem me acudisse;

busquei, e não houve quem me ajudasse.”

Barreiras intransponíveis levantavam-se ao longo do meu caminho, algemas invisíveis prendiam-me as mãos. Diante de mim um mundo cão, explorador, cheio de traição e maldade, minava as minhas energias e conspiravam contra os sonhos que continuo desejando realizar.

Mesmo assim eu não dava trégua às vicissitudes; durante o dia trabalhava no comércio em um emprego que o meu tio arranjara para que eu pudesse ao menos comprar os livros e pagar o colégio que passaria a frequentava à noite. Mas, como havia previsto, foi em vão, o trabalho era estafante e o cansaço não permitia nem um olhar aos livros.

A fadiga dificultava-me a concentração e não permitia que os ensinamentos fossem absorvidos. Desligava-me do assunto em pauta e o meu pensamento fugia, ganhava às praças, quando dava por mim, estava com os comunistas que lutando em favor dos desvalidos.

04

As luxuosas moradias onde residem os protegidos da sorte.

E não eram somente os que tiveram que trocar as palhoças dos engenhos pelas fétidas palafitas que se espraiavam pelos charcos da periferia de Recife que me constrangia. Tinham as jovens ingênuas, induzidas por cafetinas que destroçavam seus sentimentos amorosos para favorecer os que comercializavam o lenocínio. Esse nefasto meio de vida degrada o corpo, a beleza e o caráter da mulher, o que ela tem de mais puro e belo.

A mente conturbada fazia-me esquecer de fechar a portinhola que dá acesso à memória, deixando que os desafortunados invadissem o meu consciente para transtornar ainda mais a minha vida e aumentar a indignação que me possuía. E não tinha como escapar porque as coisas que combato tornam-se constantes e, assim sendo, não tenho como esquece-las.

Se ia à Guararapes tomar um chope com Alexandrino de Barros Filho no Bar Bavoy, esses desvalidos me acompanhavam como até hoje me acompanham. E por fala do Savoy, o inesquecível Carlos Pena Filho, um dos seus assíduos frequentadores, escreveu um poema que agora me veio à mente a sextilha abaixo:

“Nas mesas do bar Savoy,

o refrão tem sido assim:

São trinta copos de chope,

são trinta homens sentados,

trezentos desejos presos

trinta mil sonhos frustrados.”

Não eram poucos, eram trinta mil sonhos frustrados… Eu mesmo nem sei, impossível saber quantos copos de chope já tomei. Agora, devo ter mais de trezentos desejos presos e sonhos frustrados muito mais de “trinta mil, tanto é que tomávamos chopes e mais chopes e eu mesmo não conseguia libertar os meus sonhos nem meus desejos, eram evidentes em minha alma e em meu coração.

III

Sinto que a chuva começa amiudar, o gotejar quase não se faz ouvir deixando que as vozes, os berros e os rugidos do vento no telhado se tornem mais audíveis. Mas o vento continua provocando o farfalhar acalentador da folhagem dos coqueiros para que eu retorne à “Capital Heróica”. E o vento que corre o Mundo, vem correndo para me ajuda chegar à Pracinha do Diário onde devo aplaudir um homem “feito de ferro e de flor”.

Sem o farfalhar daquelas palmeiras eu não teria chegado a tempo de mergulhar na multidão que se acotovelava em volta ao líder para com ela gritar o seu nome no instante que ele pedia ao povo, como pedia Dom Helder Câmara, que lutássemos por um mundo sem escravos e sem senhores, o que, em síntese, seria um mundo sem explorados e sem exploradores.

Ao ouvir a palavra escravos, a voz de Marta, irmã da advogada Mércia, chega aos meus ouvidos dizendo que Castro Alves encontra-se no Teatro Princesa Isabel. Juntei-me a ela para trocarmos a Pracinha pelo Teatro e ainda chegamos a tempo de participar dos aplausos ao poeta quando ele deu mais ênfase a esses versos:

“Senhores! Basta a desgraça

De não ter pátria nem lar,

De ter honra e ser vendida

De ter alma e nunca amar!”

Era ele sim, o poeta dos escravos, declamando do mesmo palco que, há quase dois séculos, por tantas vezes, se insurgira contra a escravidão. Sua voz corria a plateia, juntava-se aos aplausos de sua amada Eugênia Câmara e ia ecoar pelas Senzalas e pelos Quilombos, as sementes da África que começavam a geminar pelo Brasil.

Mesmo atônito diante de tanta beleza, cruzei a Ponte Princesa Isabel e tomei a direção do Parque Treze de Maio para rever o “Velho Casarão” da Faculdade de Direito. Eu não queria evocar somente a história que ele incorporava desde sua criação, desejava suscitar as imagens dos que haviam passado pela secular Instituição de Ensino.

05

Nessas miseráveis palafitas vivem os desvalidos da “Cruel Cidade”.

Ao começar galgar seus degraus, invoquei figuras como Castro Alves, Demócrito de Souza Filho, Alexandrino de Barros Filho e outros filhos do sofrido povo nordestino, dando ênfase à memória dos que dedicaram suas vidas à luta em favor da liberdade.

Foi naquela instituição que Castro Alves, Alexandrino e Demócrito se refinaram na arte do combate aos opressores da gente espoliada. Castro Alves combateu com a Poesia; Alexandrino, com a Lei e Demócrito com o Verbo que arrebatava multidões.

Demócrito pagou com a vida, os sicários conseguiram silenciar sua voz na “Tribuna da Pracinha”. Tombou varado pelas balas de jagunços assalariados por trastes acostumados a sustentar os filhos com o dinheiro roubado dos cofres Públicos.

Castro Alves não resistiu à tuberculose oriunda das noites insones e Alexandrino de Barros Filho padeceu nas masmorras da ditadura implantada pelos militares. Mesmo enfrentando prisão, tortura e morte, nunca deixaram de fustigar os inimigos da Pátria e do povo.

Ao retornar do Parque Treze de Maio, despedi-me de Marta e ainda refletindo sobre esses lutadores dei de frente, na Praça Joaquim Nabuco, com meus tios Alexandrino e Mário de Barros Pereira que se dirigiam à Estação Central. Juntos, chegamos a ela onde Alexandrino, o pai, convidou-me a ‘molhar a palavra’ com uma “branquinha” enquanto esperávamos a chegada do comboio que mais parecia um amontoado de ferro velho. Já havíamos decidido pela terceira dose quando ouvimos um berro acompanhado dum ranger de ferros.

Era ele que se aproximava. Embarcamos, saltamos em Ipiranga e caminhamos até a casa de número 65, da Rua Nogueira de Melo. A emoção desse retorno só não foi maior porque a minha tia Alaíde Cavalcanti de Barros não se fazia presente.

Balbuciei, silenciosamente, o seu nome, mas ela não respondeu, já não vivia entre nós, dormia o sono que acalento com a minha eterna gratidão. A casa era a mesma que entrei ao deixar Palmares onde ela com o meu tio, o seu marido, uníssonos, saudaram-me:

– Entre, a casa é sua!

Entrei e juntei-me a eles e seus filhos, — os filhos que ele chamava de “minhas três bolas de ouro” — para desfrutar da harmonia e do aconchego daquele lar.

Almério estudava veterinária, Alexandrino advogava e Alcy, hoje coronel, era o major Cavalcante, a quem continuo admirando por não ter maculado o verde de sua farda com o sangue que os carrascos da ditadura derramaram dos meus companheiros de ideais.

IV

Ainda sorrio quando lembro o meu tio Alexandrino tentando encorajar-me, mencionado fatos que se referia a ele e a mim, como nós quatro.

– Nós quatro?! – Perguntava eu.

– Sim, nós quatro! Homens como você e eu não se conta por um, conta-se por dois. Portanto, dois mais dois, quatro! Nós quatro, sim!

Era o bastante para cairmos na gargalhada, apesar da minha convicção de que homens da sua estirpe e do seu saber não se contam por dois, conta-se por dez, tanto é que jamais tentei medir meu ínfimo saber com a enorme dimensão dos seus conhecimentos.

O meu tio é reconhecido por onde passa como homem talentoso e sábio. O seu currículo é recheado das mais expressivas qualificações adquiridas nos duros bancos da “universidade da vida”, onde sempre pelejou com bravura e tenacidade invejáveis.

Sabendo do meu gosto pela poesia recorria a ela para tentar amainar a revolta que alimentava o meu desejo de lutar em favor dos filhos dos mocambos e das palafitas que largavam seus fétidos cômodos para vagarem pela minha imaginação.

V

O êxtase que me conduziu a este retorno imaginário, além de reaviar em minha memória criaturas solidárias à causa dos oprimidos, serviu para ofuscar figuras idênticas às que o Médico e Memorialista Pedro Nava comparou a invólucros de mijo e merda.

06

Na beira mar, um dos bairros onde residem os bens sucedidos na vida

Percebo que o vento parou de rugir, que os trovões silenciaram e as palmeiras deixaram de farfalhar… Essa calmaria fez com que eu escutasse quando Alexandrino Filho solicitou ao garçom a quarta rodada de chope, mas na hora que brindamos para levá-lo à boca, meu pai balançou o punho da rede:

– Levanta, tem café quente!

– Mas, logo agora que estávamos no Bar Savoy!

– No Bar Savoy?! Que história é essa?!

– Sim, no Bar Savoy! Alexandrino Filho e eu.

Ainda escutei a voz de Carlos Pena declamando

“Recife, cruel cidade, águia sangrenta, leão”.

VI

Que coisa estranha, não encontro explicação, uma vez que não estava em Petrópolis, nem sonhando, nem acordado. Em êxtase?! Não sei. O que posso assegurar é que depois de um sobressalto, olhei a tela do computador e dei com esse amontoado de letras que me causou estranheza por não ter acionado nenhuma de suas teclas.

E são tão notórias as minhas limitações no enfrentamento da vida, especialmente no que concerne ao manuseio das letras, que prefiro não elucubrar sobre as possibilidades de alguma entidade ter penetrado em meu cérebro à procura de desvendar coisas adormecidas em minha memória.

Somente agora os primeiros raios de sol começam a dissipar o que resta da escuridão, dando-me oportunidade de enxergar com mais nitidez a Capelinha de Nossa Senhora de Fátima, projetada por Oscar Niemayer a pedido de dona Sara Kubitschek. E entre o edifício onde moramos e a igrejinha, vejo e escuto, através da vidraça da janela, um sabiá gorjeando numa das galhas do flamboyant que se posta aqui em minha frente.

Não tenho a mínima idéia de como tudo isso se fez. Permaneço na SQS 108, na sala do Ap. 301, do bloco E, em Brasília e essa permanência deixa claro que não estive em Petrópolis, não passei por Palmares e muito menos Recife.

Arregalei os olhos, procurei em minha volta, ninguém. Os poetas haviam sustado seus versos e o murmurinho que eu achava ser de Petrópolis não mais se fazia ouvir, somente o sabiá cantava no flamboyant, provavelmente saudando o amanhecer na cidade que Juscelino chamou de Capital da Esperança.

Nenhuma gargalhada do meu pai nem de “seu” Correia. Nada de vozes de Luis Sebastião, Zé Pequeno, Cícero Leite ou Zé Leite, muito menos os aboios do mano Jurandir tangendo as vacas para o curral sempre que ia trancar os bezerros.

Nada de mugido, balido ou cantar de galo. Marulhos e farfalhos nem pensar, somente um zunido de um silêncio quase sepulcral.

Tudo sumira, calara, emudecera… Somente na tela do computador esse amontoado de letras formando vocábulos, frases e períodos.

Preciso chegar a uma conclusão até porque isso não é comum a um indivíduo de tão pouca fé como eu.

Tento concentrar-me para meditar sobre o ocorrido, mas o telefone tilinta quebrando o silêncio existente na sala. Atendo a ligação que vem de Recife. É o meu irmão Clodomir avisando que o nosso tio Alexandrino acabara de falecer. Invade-me um sentimento de tristeza e revolta.

Um misto de frustração e pesar.

É mais um pedaço que se desprende de nós.

Ficamos menores. O Recife também.

Dina, a guerrilheira

 

Autor:  Clodoval de Barros Pereira

 

1                                                                         Dina

A jovem encontrava-se doente, faminta e desidratada, mas seus pés estropiados insistiam a passos curtos sobre a folhagem úmida da floresta. A guerrilheira precisava encontrar os companheiros dispersos após enfrentamento com militares guiados por pistoleiros assalariados para matar.

Há dias, semanas talvez, Dina caminhava na solidão da mata, procurando um detalhe em cada folha, em cada graveto, em pedaço de chão. Ela queria descobrir algum rastro, sinal ou até mesmo vestígios, que ao menos indicasse o rumo tomado por seus irmãos de combate espalhados naquele mundão. Mas nada lhe chamava atenção, nada lhe alentava o ânimo.

E a mata começava a empardecer antes que a noite derramasse seu negrume pelas frestas de suas árvores. Não fossem os clarões vindos dos raios seguidos de ensurdecedores trovões, a combatente não teria como enxergar, ao menos, uma loca aonde viesse arriar o corpo exausto.

Apesar de quase familiarizada com o clima da região, fora surpreendida por esse temporal que podia aliviar sua sede, nunca o estômago desprovido de alimentos necessários à vida.

E o aguaceiro despencava acompanhado de ventos fortes sacolejando as altas copas das árvores. Na primeira poça que se formou, ela bebeu, encheu o cantil e retornou a procura de um local onde pudesse se resguardar do grosso gotejar para atenuar o frio que, além de lhe causar tremores, provocava o ininterrupto martelar de dentes.

Os pés descalços, a vestimenta molhada e esfarrapada, concorriam para lhe aumentar o frio e a febre acarretados pela malária contraída por picadas do mosquito transmissor do mal que lhe atormentava.

Nenhum medicamento, nenhuma companhia, nada que pudesse aliviar o sofrimento que passava naquele ermo tenebroso, inegavelmente assustador. Preocupava-lhe as armas. Se o mormaço úmido as enferrujava, a chuva iria contribuir para corroê-las ainda mais.

E ali estava Dinalva Conceição Oliveira, conhecida por ‘Dina’, filha de Viriato Augusto de Oliveira e Elza Conceição Bastos, nascida em 16 de maio de 1945 no sertão baiano, no município de Castro Alves. Naquela terra também nascera o poeta que, como ela, entregou-se à luta contra os escravagistas.

A adorável menina, apesar de pertencer a uma família humilde, formara-se em Geologia na Universidade Federal da Bahia no ano de 1968. Estudara tratados sobre clima, terra, rochas, formação do nosso Planeta e até conhecia o medicamento capaz de aliviar a febre e o frio que tanto lhe atormentava, mas não dispunha de meios para ir à sua procura.

Em 1969, no ano de sua formatura casara com o colega de turma Antônio Carlos Monteiro Teixeira (que também foi morto), e partiram para o Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa passou a trabalhar no Ministério das Minas e Energia e a participar dos trabalhos sociais nas favelas, mas ao descobrirem sua participação na luta política contra a ditadura, começaram às perseguições.

Não tendo como escapar, largou o trabalho para se embrenhar com o marido e alguns companheiros naquelas matas com o intuito de fugir dos que vinham prendendo, torturando e matando quem ousasse lhes contestar.

Era maio de 1970 quando o casal se juntou aos integrantes do PCdoB e partiram para a região do Araguaia onde iriam organizar uma guerrilha para iniciar a luta contra a ditadura militar. Na região onde se sediaram, passaram a conviver com a população local, desenvolvendo trabalhos sociais e políticos com o intuito de integrar camponeses ao grupo.

Assim que a ditadura descobriu o paradeiro dos jovens ligados ao Partido Comunista do Brasil, milhares de homens das Forças Armadas partiram munidos de carros de combate, lanchas, aviões e helicópteros para dominá-los.

Não imaginavam que a fúria insana da ditadura seria surpreendida pela reação armada dos jovens que estavam decididos a enfrentar qualquer ataque.

Essas Forças eram constituídas de milhares de combatentes destinados a emboscar, matar e decapitar menos que uma centena de jovens que se tornaram guerrilheiros para enfrentar os carrascos da ditadura que vinham escorraçando a Democracia, a Liberdade e a vida do povo brasileiro.

Esses jovens não foram bem sucedidos, os que não morreram em combates ou emboscadas, depois de rendidos e presos, a exemplo de Dina, que dias depois seria assassinada e decapitada, prática corriqueira adotada contra os que compunham as Forças Guerrilheiras do Araguaia.

Hoje, lembrando-me deles, resolvi escrever essas modestas linhas com o objetivo homenagear os homens e as mulheres que combateram na selva Araguaia, especialmente a guerrilheira Dina que fazia tremer de medo os seus perseguidores. Contam que alguns militares, especialmente os recrutas, quando escalados para entrar na mata, choravam de medo ao pensar num confronto com a jovem combatente.

Diversos escritores relatam sua bravura e os moradores da região ainda não esqueceram a lutadora solidária, cuja tenacidade paira no imaginário de quem a conheceu ou dela tomou conhecimento.

2                                                               Dina aos 15 anos.

Militares inimigos chegavam a afirmar que Dina era tão valente que atemorizava os soldados com sua audácia e teve um que chegou a confessar:

(…) “minha tropa foi cercada pelo grupo de Dina, se ela tivesse um poder de fogo igual ao meu, eu não estaria aqui para contar nada.”

Tanto é que seu nome continua ressoando nos rincões de São Geraldo, Xambioá, nas margens do Araguaia e nas palhoças espalhadas pelas matas.

Recentemente, assisti um documentário em que uma moradora da região contava que a última vez que a viu, ela estava sozinha e assava em um fogo improvisado no chão, uma cobra que matara para comer, único alimento disponível para saciar a fome que devorava seu estômago.

Lembrou à senhora que seus pertences constavam de um Rifle Winchester, 44; um Revolver 38 e a surrada mochila que conduzia às costas com suas munições. Encontrava-se quase nua, trajava uma tanga esfarrapada e uma blusa com um rasgão que lhe deixava um seio à mostra.

Fazia meses que não menstruava, a falta de líquido e de alimento lhe deixava desidratada, pálida e desnutrida. E há muito não comia açúcar nem sal e nem dispunha de sangue necessário para atender as necessidades fisiológicas do seu organismo.

As pessoas que andaram pelas povoações que ela viveu falaram que continua querida por sua colaboração com a população camponesa, atuando como professora e parteira. Ainda hoje é lembrada por quem viveu a época da guerrilha. Muitas vezes, ela se deslocava sozinha nas madrugadas, de barco pelo rio Araguaia, para ajudar pobres mulheres em trabalho de parto.

Seu nome era conhecido e temido entre os convocados para participar das operações de combate à guerrilha. Isso porque em seus enfrentamentos com tropas inimigas sempre conseguia escapar ilesa dos cercos. Foi essa habilidade que fez surgir a lendária crença espalhada entre o povo da mata e os recrutas que, mesmo ferida, não era alcançada porque se transformava em borboleta e fugia sem que ninguém percebesse.

A verdade é que Dina, além de sua convicção ideológica, tinha bom preparo físico, atirava bem e era uma mulher decidida, altiva e de forte personalidade. Deve ter sido a soma resultante dessas qualidades que motivou sua escolha pelo Partido para o sub-comando do Destacamento “C” comandado pelo valente, temido e também lendário Oswaldão.

Com a morte do comandante negro fora indicada para ficar a frente do Destacamento já desfalcado com a morte de alguns dos seus componentes.

 Estava com aos 29 anos quando foi rendida e levada para o profundo fosso cavado a céu aberto na base militar de Xambioá, em Tocantins, onde aprisionavam quem discordasse da ditadura instaurada. Saia somente quando retirada para as seções de interrogatório onde era impiedosamente torturada por não prestar qualquer informação, ao serviço de inteligência do exército, que viesse a comprometer a vida ou a liberdade dos seus companheiros.

Penso que ela não sabia avaliar o que seria mais cruel, se a prisão naquele fosso ou as macabras seções de torturas. Também pudera, viver naquele profundo buraco sobre os próprios dejetos, expostos à chuva, ao sol e ao sereno, onde eram atirados os alimentos exigidos pela sobrevivência, inclusive a água que descia em baldes presos a cordas.

Foi o então capitão de codinome Curió que ordenara fosse içada para ser conduzida a uma mata próxima, onde seria executada a tiros desferidos por um sargento do exército de codinome “Ivan”. Conforme documentos pesquisados, o sargento “Ivan” era um ex-seminarista que fora infiltrado na área da guerrilha, disfarçado de camponês, em julho de 1974.

Enquanto subia para cabine do helicóptero, a jovem prisioneira deve ter percebido que iriam reconduzi-la à mata para ser executada como muitos dos seus companheiros que lutavam contra tamanhas atrocidades.

Assim que a aeronave pousou numa clareira aberta na floresta, arrastaram-lhe para o chão e um dos sicários determinou que a jovem guerrilheira caminhasse alguns metros e permanecesse de costas. Certa de que teria chegado o instante de sua morte, a revolucionária perguntou:

‒ “Vou morrer agora?”

‒ “Vai, agora você vai ter que ir”, respondeu “Ivan.”

‒ “Quero morrer de frente”, pediu a jovem.

‒ “Então vira pra cá”, ordenou o carrasco.

“Ela disse que queria morrer de frente, mirando o meu olhar,” disse o frio e covarde assassino. Nessa mesma conversa o tirano também falou da expressão de ódio espelhada no semblante da mulher valente ao encará-lo no momento que iniciara os disparos dirigidos ao seu rosto e ao seu peito.

Após o massacre, foi degolada para que sua cabeça fosse levada a Xambioá como troféu de guerra, ficando seu corpo para servir de pasto aos abutres e demais animais existentes na selva.

O perverso subiu na aeronave esmurrando o peito respingado do sangue da moça que acabara de matar porque ela se destinara a defender uma vida menos sofrida para a gente espoliada e oprimida.

Esses títeres ainda não aprendem que não morrem aqueles que sacrificam suas vidas para minorar as necessidades da gente faminta e injustiçada de qualquer que seja o país.

Dina e seus companheiros jamais serão esquecidos, suas lutas e seus calvários foram esculpidos no Pedestal da História e nos corações dos que não nasceram para a servidão, a exemplo do meu.

Já os tiranos não terão esse reconhecimento, seus nomes serão vilipendiados e execrados pela posteridade de tal forma que ficarão na História como carrascos por suas atrocidades praticadas contra a humanidade.

E que suas almas, se é que os perversos as têm, sejam lançadas às profundezas do inferno para se perpetuarem sobre a lama fétida do esquecimento, lugar para onde são destinadas todas as podridões.

Maceió, 20 de março de 2016