Month: novembro 2017
Uma crônica nordestina
Autor: Clodoval de Barros Pereira

Mário de Barros Pereira aos 100 anos de idade
Chegou às minhas mãos uma bela crônica escrita pelo meu tio Mário de Barros Pereira, intitulada A NATUREZA E O HOMEM. Ela foi postada nos Correios da bela praia de Manaíra, situada no litoral da capital paraibana, lugar que ele escolheu para viver depois que residiu em vários estados brasileiros. Tio Mário era visto como um homem de muita disposição para trabalhar; gostava de ler, era um excelente comunicador e por ser leal e solidário sabia construir amigos e conservá-los como poucos. Aliás, essa característica era extensiva a todos os seus irmãos.
Por ele ser poeta e cronista de bom quilate, escreve com maestria do sofrimento do homem que vive no nordeste, especialmente nas terras secas dos sertões, da luta travada contra as intempéries e da tristeza que o acompanha quando, empurrado pela estiagem ou pelo senhor dos engenhos é obrigado a partir à procura doutros mundos para tentar sobreviver.
Ah como eu gostaria de ter escrito a crônica A NATUREZA E O HOMEM ! Ela trata de um tema que será sempre atual. Fala, inclusive, dos governantes que deixam de levar água e justiça aonde não existem. O que ele aborda faz com que a sua crônica torne-se histórica e viva tanto quanto os juazeiros que oferecem suas ramagens para quem foge das terras escaldantes à procura de uma sombra para descansar a fadiga de uma longa caminhada.
Tenho provado do sofrimento que aflige o nosso irmão nordestino. Também deixei Alagoas e caminhei por esse imenso Brasil a procura de um lugar onde pudesse ganhar o pão menos sofrido. E olhe que eu venho da zona da mata, da região de solo fértil e molhado, onde, conforme Pero Vaz de Caminha, “se plantando tudo dá”, mas os “coronéis” se fizeram donos das terras e dos frutos paridos até pelas árvores silvestres.

Foto tirada em João Pessoa. Ele com o sobrinho Pablo Almeida de Barros Pereira.
Os “coronéis” se arvoram donos de tudo! E há quem diga que são mais cruéis que uma estiagem prolongada, eles estendem seus mandos por todas as instâncias e se proclamam senhores absolutos da vida e da morte.
A crônica escrita por meu tio fala da seca que devasta as plantações, mata o gado e esvazia os açudes enquanto os “coronéis” saqueiam o Erário e armam jagunços para emboscar quem discorda que estendam suas garras em todos os escalões através dos seus consanguíneos ou apaniguados.
Portanto, não é de estranhar o quanto tio Mário sentiu quando viveu sem aspirar o cheiro de sua terra, a visão dos seus campos e o calor humano de sua gente. Ele sabe o quanto dói deixar os familiares e a gente de têmpera igual a nossa suportando a fome e a sede, sem se render nem se entregar, a não ser por amor.
Eu mesmo quando tive que deixar a terra amada, parti pensando em um dia voltar para ajudar arrancar àquela venda que os “coronéis” colocaram na estatueta que simboliza a Justiça, para que ela não pudesse ver as quantias surrupiadas dos cofres públicos e as crueldades praticadas contra o povo.
A NATUREZA E O HOMEM demonstram que tio Mário é cronista talentoso e está preparado para escrever sobre a nossa terra, a qual ele conhece como ninguém. E, desde já, confesso que suas crônicas estão à minha cabeceira, ao lado das obras do Velho Graça, do Zé Américo, do Zé Lins do Rego e doutros mestres da literatura brasileira, especialmente da nordestina.
Aliás, literalmente, é com eles que tenho convivido ultimamente… Muitos dos amigos que se diziam meus irmãos afastaram-se assim que a estiagem bebeu a última gota d’água existente em meu pote.
Eram muitos esses “amigos”. Uns continuam como eu, “roendo o pão que o diabo amassou”, outros fazendo de eleitores despolitizados escadas para alcançarem as maçanetas dos cofres das Prefeituras e do Governo, muitos deles chegaram aos Tribunais, ao Parlamento, Secretarias e Ministérios.
Vejo-os nas páginas dos jornais e nas telas das televisões. Ficaram ricos, compraram terras, aproximaram-se dos “coronéis” que combatiam e se distanciaram do povo. Andam bem vestidos, sorridentes e com os bolsos recheados de cédulas surrupiadas dos cofres públicos, graças ao voto ludibriado de uma parcela de eleitores que ainda não aprendeu distinguir os que trabalham a serviço do bem dos que se dedicam ao mal.
II
Jamais pensei que usaria o texto acima, escrito há quase uma década, para homenagear o meu tio Mário de Barros Pereira e levar ao conhecimento dos seus inúmeros familiares e amigos, especialmente os de Alagoas e Pernambuco que ele partiu depois de 103 anos vividos cercado de muito amor e admiração daqueles que tiveram a felicidade de usufruir do seu saber.
Sua partida se deu na madrugada de sexta feira de 10 de novembro de 2017. Antes da fratura do osso fêmur, encontrava-se lúcido, escrevendo seus belos textos quando teve que deixar a sua amada João Pessoa por força desse acidente que lhe ceifou a vida, deixando-me profundamente consternado. Também pudera, além de ser irmão do meu pai, a quem muito eu queria, nunca deixou de visitar os parentes com quem melhor se identificava, somente depois de completar os 100 anos de vida foi que avisou:
− Completei 100 anos, vou para de andar, quem quiser me ver terá que ir a João Pessoa.
Contudo, depois disso, em duas ocasiões ainda foi à Brasília e a são Paulo visitar as netas Taciana, Silvana e suas bisnetas, filhas de ambas, incluindo claro, seus respectivos genros.
Era um Pedro Veríssimo, um Clodoval em seu jeito aciganado de viver correndo mundos, fazendo o que gostava sem se preocupar com o preço que a vida ia cobrar. Foi Tabelião em Santa Rita, na Paraíba e em Montividiu, em Goiás. Foi comerciante, teve Farmácia, fazenda de criação de gado em Alagoas e Goiás. Era um homem de muito saber.
A sua ânsia pelo mundo só foi atenuada depois que conheceu na capital paraibana a linda filha do Maestro José Ramalho, a professora e pintora Alice Ramalho com quem veio a casar e ter os filhos Beto e Ilma, mesmo assim ainda morou em Goiás e Alagoas.
Gostava de mim e eu dele, tanto é que aonde eu tivesse morando, quando menos esperava, lá estava ele. Se fosse longe, ele pegava o avião e chegava sem pressa para voltar, queria conviver comigo e com todos do seu sangue, pena que eu não retribuía à altura, isso é, em termos de visitas, mas ele sabia da minha correria, da minha luta pela sobrevivência.
E após o acidente, nem falei com ele nem com sua filha Ilma Ramalho de Barros, pedia que Terezinha fizesse por mim. Nunca gostei de ver homens invencíveis acamados e sempre que possível procurei fugir às despedidas.
Não compareci ao seu sepultamento, pois quando tomei conhecimento não havia como chegar a tempo. Sei que ele gostaria que me fizesse presente, embora tivesse que sofrer uma dor incalculável por ter que vê-lo inerte. E eu queria ir, mesmo que o meu coração arrebentasse.
Ao perder uma pessoa querida, perco também o espaço que ela ocupava no mundo, por isso tenho repetido que a cada perda, olho de lado e vejo que o mundo vai se estreitando, diminuindo, ficando menor.
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Maceió, 11 de novembro de 2017