Autor: Clodoval de Barros Pereira
Estimada companheira, Professora Maria Alba Correia, estas linhas foram inspiradas no amor que você devota aos oprimidos.
O dia de ontem não foi produtivo e o de hoje, até agora, não apresentou nenhuma novidade nem sequer no âmbito político. Também passei o dia recolhido à clausura desta modesta morada com o pensamento voltado aos recentes acontecimentos. É nela que refaço as energias para os embates contra os que se fizeram donos do mundo.
A fadiga me faz largar a releitura da GEOGRAFIA DA FOME, escrito por Josué de Castro, para entregar-me as anotações das tarefas a serem realizadas, mas a visão embaciada me impacienta e torna a escrita um pouco enfadonha.
Já não escrevo nem leio com a mesma sofreguidão d’antes, ultimamente percebo que tenho arrefecido. As palavras se embaralharam, distanciam-se e somem como pássaros em revoadas no horizonte longínquo. Resolvo trocar o livro pela máquina de escrever, pelo menos as letras a serem tecladas são maiores que as da GEOGRAFIA. Insisto, pouso as mãos no teclado, mas os dedos enrijecem, as idéias emperram não se ordenam.
Não é fácil conduzir a vida quando o interior não se harmoniza com o exterior. Melhor seria largar a máquina e tentar um olhar sobre a lagoa Mundaú, talvez sua beleza possa desanuviar a minha mente conturbada por tantos problemas.
Isso mesmo! Largo tudo e vou à janela contemplar a lagoa, os casarões seculares, as palafitas e os casebres de pescadores fincados nos manguezais que circundam a beira da lagoa Mundaú. Mas nada me agrada, parece até pirraça da natureza.
Os raios solares se espelham em suas águas fazendo com que elas passem a refletir luz contra meus olhos, privando-os da beleza lacustre que emoldura parte da encantadora Maceió, a cidade que o nosso Graciliano Ramos, passeando pelo Rio de Janeiro em companhia do seu filho Ricardo, disse achar a sua mais bonita que o Rio.
As águas transmitem tanta luz que a lagoa parece um ninho de astros a refletir claridade para todos os lados, incandescendo meus olhos que faíscam diante de tanta luminosidade. Desisto da visão que a janela me oferece e volto à surrada cadeira.
Pior ainda, uma torrente de pensamentos começa a invocar coisas vividas e a minha cabeça já abarrotada de problemas se conturba ainda mais. Mas não tenho do que me recriminar. Rebusco nos confins da memória e não encontro nenhum ato indigno que tenha praticado contra meus semelhantes. Nenhuma deslealdade a um companheiro de trabalho, de lidas políticas ou de qualquer atividade que tenha participado.
Nunca roubei nem permiti que aliciadores me subornassem. Jamais cedi às investidas dos prepostos do capitalismo cruel e corruptor. Por isso, sempre que posso, reluto em obedecer às leis que permitem a exploração e ferem os interesses do povo.
E quem me conhece sabe que jamais me aproveitei das coisas fáceis. Muito cedo comecei a suar a camisa que me aquecia do frio para ajudar o meu pai a plantar o trigo que tanto servia para nutrir nossas vidas como para repartir com os que nos cercavam.
Jamais permiti que “coronéis do mato ou do asfalto” abrochasse ao meu pescoço a canga que costumam colocar em quem eles espancam, exploram e oprimem. Melhor viver nesta encosta orientando os vizinhos a dizer não a servidão dos seus exploradores.
Aqui escutamos o apito do trem que passa margeando a General Hermes. Ele chega aos meus ouvidos como um berro animalesco, lembrando-me os esturros do touro Sultão nas quebradas de Canta-Galo. Eletrizado pelo desejo que o instinto lhe impunha, o touro urrava com o intuito de enxotar seus rivais da novilha alvoroçada sob sua guarda.
O apito dessa locomotiva não tem a menor sonoridade, parece mais um berro estridente. Não lembra os apitos que as locomotivas a vapor da Usina Santa Terezinha deixavam ecoar pelas cercanias de Ouro Preto, Porto de Folha e Campos Frios. Mesmo assim, sempre que passa, corro à janela para vê-la serpenteando rumo ao bairro de Bebedouro.
É assim que vivo. Aqui não aparece ninguém a não ser Washington Lacerda ou o pessoal do Partido, os companheiros do PC do B, especialmente a professora Maria Alba Correia, companheira destemida e valorosa, a quem muito queremos.
Ontem mesmo, ela escalou esses degraus com seu sorriso e sua costumeira amabilidade. Ocupamos a tarde falando sobre os que enriquecem por conta da miséria alheia, do saque ao Erário ou da exploração capitalista, o que fez seu sorriso arrefecer. Mesmo sabendo que ela não perdoa os que semeiam fome, injustiça e opressão, ponderei:
‒ Não te enraivece, Alba. Essa gente representa o que a humanidade tem de pior. É a escória, é a parte apodrecida que um dia vai cair no bico dos abutres.
Nada acrescentou, apenas balançou a cabeça concordando com o que lhe dissera, enquanto o silêncio pairava sobre nós. Sim, somente sobre nós, porque lá fora as crianças faziam algazarra e os pardais chilreavam a procura de agasalho. Não fosse dona Joana que entrasse anunciando a prisão do carroceiro Vicente, com quem vivia numa casinhola próxima à nossa moradia, o silêncio teria perdurado por mais tempo.
A prisão acontecera porque seu marido criticara o prefeito por ter por ter anunciado ter gasto milhões em sua rua quando somente despejaram algumas caçambas de metralhas em alguns buracos. Sua crítica chegara ao conhecimento do Prefeito que se ofendera.
A autoridade mandou chamar a Polícia que não procedeu corretamente, em vez de prender o verdadeiro ladrão, trancafiou o pobre do carroceiro, acusando-o de comunista.
Olhei para minha companheira e senti que sua revolta era maior que a de dona Joana, pois ela sabia qual o ingrediente que estimulara a detenção do carroceiro. E tanto sabia que seus olhos inundaram seu sorriso com gotas que pareciam pingos de luz clareando a noite que desabava sobre os barracos pendurados na encosta.
Os vizinhos sabendo do nosso apreço à causa dos injustiçados acompanharam a pobre mulher até a nossa sala, onde Alba se encontrava. E a professora se refez como tantas vezes já se refizera durante suas aulas na Universidade, quando algo lhe indignava.
Sua indignação fez com que ela pedisse a Dona Joana, que misturasse suas lágrimas a centenas doutras que pingavam naquele morro para que viesse a formar um rio que rolasse encosta abaixo levando em sua enxurrada essa sociedade perversa, que além de segregá-los naquele cruel despenhadeiro, ainda vinha prender os que ali padeciam.
Ao findar suas palavras, abraçou a mim e a minha companheira, acenou aos curiosos, misturou-se a escuridão e desapareceu ao dobrar a primeira esquina. As mulheres se entreolharam desejosas de saber quem seria àquela moça tão rebelde. Se ninguém sabia, claro que eu também não. Eram tempos difíceis, não podíamos falar porque a Ditadura perseguia, torturava e matava quem divergisse dela.
Assim que as pessoas voltaram às suas casas, entrei para me arrumar, pois o escuro da noite era fundamental para o desempenho da missão que a professora me incumbira. Ao descer os degraus escutei quando dona Júlia comentou com as pessoas que ainda se faziam presentes, “Meu Deus, parece coisa de comunista.”