Autor: Clodoval de Barros Pereira
Aos que a mim foram ligados por laços de sangue, ideologia ou amizade e chegaram primeiro que eu ao outro lado do túnel, afirmo que me deixaram menor porque levaram consigo pedaços da minha vida e da minha alma, e aos que continuam caminhando ao meu lado, a exemplo do meu tio Mário de Barros Pereira, que há 95 anos caminha com a mesma destreza dos primeiros passos, o meu eterno companheirismo.
Noutras ocasiões falei dos meus pés estropiados amassando relvas na tentativa de abrir uma vereda que me levasse a um lugar onde fosse possível permutar a minha força de trabalho por um salário que desse para comprar o alimento necessário ao desenvolvimento do meu corpo e que contribuísse para salvar o meu cérebro do processo de embotamento causado pelo processo que o Médico Josué de Castro, em seu livro Biografia da Fome, chamou de autofagia ou fome oculta.
Hoje, eu gostaria de falar do muito que já andei e das dificuldades encontradas durante esse trajeto por não saber qual o rumo que deveria tomar. É bom frisar que venho de um mundo onde não existia escola e que a professora continua sendo a Natureza que, apesar de sábia, não me falou da existência dos pontos cardeais.
Para mim só existiam dois mundos, um situado pras bandas de onde o sol desponta com a beleza dos seus raios luminosos e outro oposto ao seu nascedouro. Como encontrar o meu norte se desconhecia coisas primárias, fundamentais para me locomover?
Eram poucas as minhas opções. Aliás, o Sêneca já disse que vento algum sopra em favor de quem não sabe para onde ir. E o que poderia saber um caipira rude, impúbere ainda, a não ser abrir caminho pisando a relva com a sola dos próprios pés? Talvez tenha sido essa uma das razões que tanto dificultou o meu caminhar.
Para um habitante da margem direita do vale do Jacuípe que, além das primeiras letras, só aprendera andar nas matas, nadar em rios, correr em cavalos e tirar leite de vacas, não tinha qualificação necessária para o que almejava: empregar sua força de trabalho na cidade grande.
Fazer o que se não existia saída? Sentia-me condenado a viver nos matos por ser uma das vítimas dos danos causados pelo embotamento decorrente da autofagia que somente mais tarde, lendo o Josué, eu me inteirava de como ela se processara.
A falta de meios para alcançar a cidade grande não me desesperava, enquanto não aparecesse um meio que me levasse até ela, eu ficaria por lá envolto à selva com meus olhos embaciados contemplando as luas que prateavam as madrugadas.
Um dia eu poderia realizar o desejo de verbalizar como enxergava as coisas que giravam ao meu redor. Presumia que quando o meu verbo se fizesse entender poderia perguntar aos que caminhavam ao meu redor se nossos passos poderiam nos levar a outro lugar diferente daquele que vivíamos.
Não levou muito tempo para que meu verbo se fizesse entender, e a pergunta escapou da minha boca. Agucei os ouvidos para a resposta e escutei dos meus interlocutores que a estrada era aquela mesma cuja finalidade era a travessia do túnel do tempo.
Diante do que escutei, segurei com mais firmeza o fardo da minha existência e continuei a caminhada pela grande travessia. E não demorei a constatar que cada dia vivido era um passo a mais na direção da cova, onde findava toda a nossa trajetória.
A partir daí passei a olhar para trás tentando calcular quantos passos já tinha dado, porém, sempre que volto o olhar para a embocadura, observo que a luz vai perdendo a claridade, amarelando, enquanto a da desembocadura aumenta cada vez mais sua luminosidade.
Insisto na investigação e constato que o clarão existente na saída do túnel a cada dia se faz maior, alumia e apavora. E não adianta ilusão porque na proporção que essa luz vai aumentando, a existente em cada caminhante vai perdendo a intensidade.
Isso nos faz ver que não seguimos para onde alguns ilusionistas fantasiam, pois, está claro que estamos atravessando o túnel que nos leva a um mundo sem volta.
Apesar do burburinho reinante, o som dos meus passos ecoa nos meus ouvidos alertando sobre o tempo que me falta para atingir o fim dessa caminhada. Recuar, impossível. Até hoje ninguém descobriu uma rota que evitasse essa brutal travessia.
Sigo saudoso por deixar os rios, os mares, a fauna e a flora. Tudo o que é belo, que se movimenta e vive… Mas não tenho para onde correr, impossível evitar que o meu corpo retorne ao pó do qual surgiu. E não adiantam resmungos porque já nascermos com a trajetória determinada.
Penso nas pessoas ligadas a mim por sangue ou amizade, e nas crianças por sua pureza e afetuosidade. Não esqueço as mulheres, as mais adoráveis de todas as criaturas, especialmente as que me ajudaram a desmentir a afirmação de Isaac Newton de que dois corpos jamais ocupariam o mesmo lugar no espaço.
Também gostaria de lembrar que nessa travessia quase nada levo comigo, sempre fui desleixado com os bens materiais, apeguei-me as coisas simples, pouco valorizadas pela espécie humana, como os ensinamentos e as afeições que só cabem mesmo no cérebro ou no coração.
Sigo sem ter do que reclamar. Cristo também nasceu assim e por ser desprendido e determinado foi perseguido durante sua dolorosa travessia, concluindo-a com o corpo coberto por uma tanga esfarrapada por chibatadas e pontapés desferidos a mando dos que continuam detendo o poder que emana do ouro e da força.
Outros também viveram sem apegos aos bens materiais, a exemplo do grande filósofo Diógenes, nascido antes Dele. Esse se desfez até de uma caneca enferrujada, feita de folha-de-flandres, que conduzia presa numa embira que lhe servia de cinto.
Contam que o filósofo foi a um córrego matar a sede e lá encontrou um menino matando a sua, como eu também matava a minha nos riachos das terras do norte alagoano, usando a boca ou as mãos em concha para solver o líquido hidratante. Vendo como era prática aquela maneira de beber, o sábio se desfez da caneca e agradeceu ao garoto pela lição recebida. Desvencilhado do único bem material, Diógenes tornara-se mais leve em sua caminhada, restando-lhe de seu, apenas, a sabedoria.
Esse fato me fez ver que sigo sem caneca e sem sabedoria…
Mas, para suprir a falta de saber, coloquei na mochila que levo aos ombros algumas brochuras que versam sobre os feitos dos grandes benfeitores da humanidade e, dentre eles, para homenagear a classe Médica por sua luta no intuito de fazer menos dolorosa essa travessia, incluí alguns ensinamentos de um Neurologista alagoano chamado Salustiano Gomes Lins, nascido no norte alagoano, mais precisamente no engenho Ouro Preto e radicado em Recife onde exerce a Cátedra e a Medicina Neurológica.
Não faz mal acrescentar que o professor Salustiano além de poeta é pioneiro em Epileptologia e Eletroencefalografia em Pernambuco, onde criou o primeiro laboratório para o estudo do sono no Brasil e provavelmente no continente Sul Americano. Sobre o tema referido o ilustre médico escreveu livros que lhe deram ingresso como membro destacado da Academia Pernambucana de Medicina.
Alonguei-me sobre seus feitos por testemunhar o quanto ele se entregou ao estudo, ao controle e a cura da epilepsia, doença perversa que sempre causou e ainda causa grandes transtornos ao paciente e a sua família, se não houver tratamento, claro, pois o desencadeamento da crise em lugar perigoso além da possibilidade de provocar acidente, às vezes mortal, desperta enorme discriminação ao enfermo.
Presumo não ser cansativo enfatizar que essa homenagem se faz verdadeira por partir de quem não estudou o necessário para aprender fantasiar, pois a vida só me deu duas opções, ou correr atrás das letras ou do pão. Se não tivesse optado pela última certamente não estaria agrupando esses vocábulos.
E para enfatizar o que digo, acrescento que tenho como companheira uma Neurologista, uma filha Pneumologista, um filho Cardiologista e outro advogado e sou sogro de uma Oftalmologista e de um Fisioterapeuta que, por sinal, são todos bem sucedidos e bem qualificados. Fosse somente o desejo de atirar pétalas, escolheria os da minha descendência e ou os que a ela se uniram.
E consciente de que o tempo embaciará a minha visão e a minha memória, coloquei na cabeça fatigada as recomendações dos grandes humanistas e dos grandes revolucionários. Se possível, gostaria de nominar todos, tanto os homens como as mulheres que foram imoladas por lutarem para que tivéssemos oportunidades iguais a partir do instante do nascimento.
Diante dessa impossibilidade lembrarei Jesus Cristo, Zumbi dos Palmares, Espártacos, Marx, Lênin, Gregório Bezerra, Dom Helder Câmara e Che Guevara. Foi com eles e outros não nominados que aprendi a lutar por “um mundo sem escravos e sem senhores” e com eles aprendi, também, a não deixar que os exploradores do trabalho humano colocassem a famigerada canga destinada aos bois de serviço em meu pescoço.
Também gostaria de salientar que durante esse trajeto ouço lamúria decorrente de arrependimento tardio de quem poderia ter ajudado a minimizar a fome dos lutavam por uma vida digna.
Aliás são muitos os lamuriantes e fazem parte da corja que tudo podia e nada fez em favor da gente injustiçada. Indiferentes aos seus clamores, em vez de trabalho condigno e justiça, ofereciam circo e prometiam um céu esplendoroso após a morte, enquanto chicoteavam e ameaçavam com um inferno em brasa aos que reivindicavam um pago melhor pelo suor derramado na pela luta diária em busca do pão.
Esses arrogantes me olham com certo desprezo por não escutarem o tilintar de metais nem o esvoaçar de cédulas oriundos da minha sacola. Não sabem eles que para transpor a saída do túnel é necessário se despojar de tudo o que representa valor material.
Até parece que não foram informados que a portaria faz a triagem do que cada um conduz e só permite o ingresso de valores intrínsecos, ou seja, morais e espirituais.
Ainda bem que olham para a intumescência da minha barriga e constatam que não foi por conta das guloseimas ingeridas nos restaurantes destinados à elite endinheirada, mas, sim, pelo mal causado pelo Schistosoma contraído nas águas dos riachos idênticos aos que, também, beberam Cristo, Diógenes e Che Guevara.
Volto o olhar ao passado e sinto que não me aflige as coisas que pratiquei tidas como ruins porque foram insignificantes, poucos males causaram aos viventes deste Planeta. Aflige-me as que não consegui realizar por achar que poderiam aliviar dores dos que não tem por quem gritar.
Sigo indiferente ao egoísmo alimentado por pessoas que formam grupos para se destacarem das mais desafortunadas, mesmo sabendo que, ao nascerem, serão obrigadas a trilhar a estrada que não oferece retorno.
São grupos compostos por pessoas que não se desvencilharam das cédulas nem dos metais, muito menos das pesadas maçarocas de papéis das escrituras dos imóveis que ficaram para trás.
Essas pessoas olham-me com visível indiferença porque me juntei a gente que foi perseguida tanto quanto o que fará a nossa triagem. Acho que chegarei ao meu destino com minha mochila por ela não conduzir valores materiais.
Não fossem as brochuras recheadas de poemas e ensinamentos dos grandes libertadores e a saudade dos que amo, meus ombros iriam tão leves quanto a minha consciência.
Aos meus nada deixarei em barro nem em metal e os que zombarem da minha displicência haverão de constatar, ao cruzar a soleira da derradeira porta, que somente as virtudes adentrarão. Inclusive Aquele que tudo sabe quando pronunciou o inteligentíssimo Sermão da Montanha, advertiu para que ninguém acumulasse tesouros na terra, porque quando não são destroçados pela ferrugem ou pela traça são levados pelos ladrões.
Contudo, para melhor clareza, é bom salientar que, aos meus dois primeiros filhos, dei uma pequena contribuição para que conquistassem seus diplomas de Medicina e ao terceiro fiz a mesma coisa para que, também, tivesse o seu de Bacharel em Direito, isso, conforme a vocação de cada um, pois não interferi em suas escolhas.
Gostaria que não empregassem de maneira sórdida seus conhecimentos técnicos, jurídicos ou científicos e que o dinheiro nunca viesse a ter a força de desvirtuar o que pensam porque isso seria prostituir suas consciências. Os que estudaram a ciência da cura procurem amenizar as dores dos que sofrem e o que enveredou pelo estudo das Leis defenda o que for justo, como já preceitua, para não macular seus princípios em troca de dinheiro sujo.
É bom não esquecer que dinheiro não é tudo. Muito do pouco que almejei, conquistei honradamente, mais com ousadia e determinação do que mesmo com as míseras cédulas usadas para acumular fortunas e corromperem pessoas.
Alertei-os ainda sobre a humildade e a sensatez por achar que quem nasceu dotado de inteligência só precisa de uma boa qualificação profissional somada à sabedoria e ao traquejo, qualidades fundamentais para um bom desempenho na vida.
E também lhes insinuei que suas mãos deveriam se estender mais para ajudar do que para receber como sempre fez o meu pai e o meu irmão Clodomir de Barros Pereira.
Também lhes falei de pessoas que escolheram o contrário e até juntaram bens que os herdeiros não souberam cuidar e foram surrupiados por gente de índole igual a de quem havia acumulado.
Não deixei de lembrar para não comerem sozinhos existindo alguém com fome ao lado, pois, segundo os mais experientes, até a sétima geração de quem assim se comporta pagará por sua indiferença em virtude desse proceder.
Também é bom afirmar que nunca fui um pedinte, mesmo diante das maiores dificuldades não clamei socorro. Até as rudes palavras com que redijo esse texto, meu pai e eu pagamos para que elas me fossem ensinadas.
Os meus filhos também trilharam o mesmo caminho que eu, não fosse os três diplomas que se converteram em saber para serem usados em favor da humanidade, pouco ou nada haveriam recebido.
Não devo deixar de salientar que, tanto a minha saúde quanto a dos que me cercam ou me cercaram, sempre que se fez necessário recorremos as nossas economias para solucionar o problema.
Isso não se deu por indiferença as coisas do governo, sempre fomos pobres e passamos por muitas dificuldades, mas por serem precários os serviços oferecidos batíamos noutras portas para tentar salvar nossas vidas.
E mais! Meu pai nunca alimentou a sua prole nem eu a minha com coisas mal adquiridas. E já lidei com cofres públicos e particulares sem jamais lançar mão do dinheiro que não fosse meu, que não fosse adquirido com o meu suor.
Talvez por isso meu fardo não me pese tanto. Caminho sem pressa e sem previsão de quando transporei o umbral da existência. Faço parte da multidão composta por gente de todas as cores, todas as idades e todas as tendências políticas, religiosas ou desprovidas de ambas. Enquanto penso que chegará primeiro aquele que vai ao meu lado, sinto, pelo seu olhar, que o seu pensamento diverge do meu.
Pouco importa um ano a mais, um ano a menos. Todos os viventes haverão de transpor aquele túnel que levará à escuridão que se formará depois da tenebrosa desembocadura.
Impossível não cruzar esse maldito umbral.
Nem mesmo o Pai poupou o Filho dessa terrível travessia, muito embora afirmem que Ele retornou pelo caminho da Ressurreição e subiu aos céus de corpo e alma para ficar ao lado daquele que o enviou.