Autor: Clodoval de Barros Pereira
Em cada batalha vencida ressurge você. E você não está aqui. As subidas e descidas da ladeira de pedra, sol a pino ou em noites de trovoadas… O saco com búzios mal cheirosos. O trabalho com o verniz e a cola, químicas milagrosas que transformavam as conchas reluzentes em jóias de arte.
Recordo as histórias do seu povo, dos seus heróis e mártires, da sua vida. Você me contava e eu as reproduzia para os vizinhos. Eles adoravam…
As imagens da sua terra me chegam espaçadas. Não esqueço aquele lugar longínquo e esquecido do mundo onde você nasceu.
Hoje, cada batalha vencida vem mesclada do seu sofrimento; vem mesclada da seca, da fome e da aspereza hostil que a natureza reservou para sua terra. Vem com as procissões e as festas de rua; vem com você comprando para mim balões coloridos. Que grandeza. Aquilo me enchia de profunda felicidade.
Os cozidos que almoçávamos aos domingos…
Tinha os tempos difíceis, também. Nem sempre a mesa estava farta. Nem sempre tinha o sapato do fim do ano. Mas eu era feliz. Aquelas canções que me vinham do serviço de alto-falante do cinema. Os grossos livros da estante de dona Áurea Fiúza. O carinho da minha querida preta Nanã e as jóias, em forma de besouros, que você me trazia.
Os passarinhos cantando no quintal, as panelas de cravo de minha mãe, seus cuidados com a nossa educação e você como um baluarte, segurando tudo, dando-nos a base, a sustância para enfrentar o mundo dos fortes. Um mundo em que nos encontrávamos à margem, mas, você nos moldou com a pedra da sua terra e nos deu olhos de coruja para enxergar, mesmo nas trevas.
E de sol e pedra fomos forjados.
Você nos ensinou a passar fome, sede, andar descalço e sentir frio sem perder a crença nos dias melhores.
Também nos ensinou que a vida, às vezes, era bela, suave; outras, áspera e cortante. Mas também nos ensinou que era preciso enxergar e sentir a sua beleza, suportar a sua hostilidade e a amargura das suas tormentas. E isso nos fez tão forte que nunca fomos pequenos diante da vida.
Cada dia era uma etapa de uma jornada que nos levaria ao paraíso.
E em termos de grandeza, ninguém foi maior ou menor que qualquer um de nós. Éramos grandes, sim! A terra era um desafio e precisávamos atravessá-la com altivez e dignidade, sendo generoso com os pequenos, com os famintos e valentes com os prepotentes.
Assim procedendo, venceríamos.