Coisa de Comunista

Autor: Clodoval de Barros Pereira

À estimada companheira, Professora Maria Alba Correia, estas linhas acompanhadas da minha profunda admiração por sua luta em favor dos oprimidos.

     Se o dia de ontem não me foi agradável, provavelmente, o de hoje não será tão favorável, por isso vou ficar recolhido à clausura da minha moradia onde posso repensar os acontecimentos. É nela que refaço as energias para os embates em favor da causa dos oprimidos.

     Enclausurar-me sim, prostrar-me não! O tempo eu aproveito lendo, relendo ou escrevendo sobre coisas que se passaram no meu dia-a-dia. Agora mesmo comecei a reler GEOGRAFIA DA FOME, de autoria do médico pernambucano Josué de Castro, mas a visão embaciada me impacienta e torna a leitura um pouco enfadonha.

     Antes do glaucoma eu lia com sofreguidão, ultimamente tenho arrefecido. As palavras se embaralharam, distanciam-se e somem como pássaros em revoadas no horizonte longínquo.

     Procuro alcançá-las, impossível. O melhor é trocar o livro pela máquina de escrever, pelo menos as letras a serem tocadas serão maiores que as da narrativa do Josué. Insisto, pouso os dedos no teclado, nenhum toque. Os dedos não se movem nem as idéias se ordenam; o cérebro emperra e nada cria.

     Difícil tanger a vida nessa desarmonia emocional. Melhor seria largar a máquina e tentar um olhar sobre a lagoa Mundaú, talvez sua beleza consiga desanuviar essa conturbação mental.
Isso mesmo! Vou pra janela contemplar a lagoa, os casarões seculares, as palafitas e os casebres de pescadores fincados entre os manguezais. Não é possível, parece até pirraça da natureza. Os raios solares que se espelham na enorme lagoa se refletem contra meus olhos, privando-os da beleza lacustre que emoldura parte da cidade que Graciliano Ramos, nos idos de 1940, disse ao seu filho Ricardo ser mais bonita que o Rio de Janeiro.

     As águas transmitem tanta luz que a lagoa parece um ninho de astros a refletir claridade. Meus olhos faíscam diante de tamanha luminosidade. Desisto da visão que a janela me oferece e arrio o corpo cansado na surrada cadeira de balanço. Pior ainda, uma torrente de pensamentos invade minha mente e tortura minha alma. Muitas coisas começam a passar por esta cabeça abarrotada de problemas, de coisas que vivi, que estou vivendo e que ainda irei viver.
Mas não tenho de que me recriminar. Rebusco nos confins da mente e não encontro nenhum ato indigno que tenha praticado contra meus semelhantes. Nenhuma deslealdade a um companheiro de trabalho, de lidas políticas ou de qualquer atividade que tenha participado. Nunca roubei nem permiti que aliciadores me subornassem. Jamais cedi às investidas dos prepostos do capitalismo cruel e corruptor.

     As coisas que o Filho do Homem pediu que fizéssemos, algumas, até que concordei, mas as que os homens daqui determinaram, e que feriam os interesses do povo, não me foi possível concordar.
E quem me conhece sabe que, por índole, fujo ao oportunismo. Tanto é que para fazer mais leve o fardo que o meu pai carregava, impúbere ainda, comecei a suar a camisa que me poupava do frio para pagar o trigo que nutria o meu frágil corpo.

     Sempre lutei para ser livre e jamais permiti que os “coronéis” do mato ou do asfalto abrochassem ao meu pescoço a canga que costumam abrochar nos pescoços dos que eles exploram e oprimem.
Ultimamente vivo pendurado nesta encosta aonde só me chega o apito do trem que passa margeando a Avenida General Hermes da Fonseca. Sempre que ele se aproxima do cruzamento, apita, mas seu apito mais parece um berro animalesco do que o apito de um trem.

     Talvez seja essa semelhança com um berro animalesco que me faça lembrar os esturros do touro Sultão nas quebradas de Canta-Galo. Eletrizado pelo desejo que o instinto lhe impunha, o touro urrava alto, mas era um urro sonoro e melodioso, apesar da sua ferocidade ao enxotar os rivais para longe da novilha alvoroçada pelo cio.

     Essa locomotiva que puxa o trem de Maceió não apita, ela solta um berro estridente e sem sonoridade. Nem sequer lembra os apitos que as locomotivas a vapor da Usina Santa Terezinha faziam ecoar pelas cercanias de Ouro Preto e Campos Frios. Mesmo assim, sempre que o monstro passa, eu corro à janela para vê-lo serpenteando no rumo de Bebedouro.

     Como se vê, é assim que eu vivo. Às vezes arquiteto projetos desastrosos, tento colocá-los no papel, mas as idéias mínguam, somem, não fluem. Ninguém para discuti-los, a não ser Washington Lacerda; pois os que se diziam meus amigos, sumiram.

     Ressalvo os companheiros do PC do B, especialmente a professora Maria Alba Correia. Ontem mesmo, ela escalou esses degraus e transpôs essa porta. Entrou com um sorriso largo, mas quando começamos a falar dos que enriquecem por conta da miséria alheia, do saque ao Erário ou da exploração que o homem comete contra o homem, seus lábios se contraíram e seu sorriso arrefeceu. Mesmo sabendo que ela não perdoa os que semeiam fome, injustiça e opressão, ponderei:

– Não ti enraivece, Alba. Essa gente representa o que a humanidade tem de pior. É a escória, é a parte apodrecida que um dia vai cair no bico dos abutres.

     Olhando-me, escutou silenciosamente. E não é que o silêncio pairou sobre nós? Sim, somente sobre nós, porque lá fora as crianças faziam algazarra e os pardais chilreavam a procura de agasalho.

     Repentinamente o silêncio foi quebrado por dona Joana que entrou desesperada por causa da prisão do carroceiro Vicente com quem vivia num barraco próximo à nossa casa.

     Tudo acontecera porque seu marido criticara o prefeito por ter roubado o dinheiro da Prefeitura e a Polícia, ao invés de prender o ladrão, trancafiou o pobre do carroceiro, acusando-o de comunista.
Olhei para minha companheira e senti que sua revolta era maior que a de dona Joana, pois Alba sabia qual o ingrediente que estimulava a detenção do carroceiro. E tanto sabia que seus olhos inundaram seu sorriso com gotas que pareciam pingos de luz clareando a noite que desabava sobre os míseros barracos.

     Os vizinhos sabendo do nosso apreço à causa dos injustiçados acompanharam a pobre mulher até a nossa sala, onde Alba se encontrava. E a professora se refez como tantas vezes já se refizera durante suas aulas na Universidade, quando algo lhe indignava ou a emoção lhe batia ao peito.

     E refeita, pediu a Dona Joana que misturasse suas lágrimas a centenas doutras que pingavam naquela encosta, pois, juntas, elas poderiam formar um rio que um dia rolaria morro abaixo e inundaria essa sociedade perversa que encurralou vocês nesse despenhadeiro.

     Apertou-me a mão, abraçou-me, acenou aos curiosos e partiu. Olhei-a até sumir na escuridão e desaparecer entre o labirinto dos casebres.

     As mulheres se entreolharam querendo saber de onde teria vindo àquela moça tão rebelde. Se ninguém sabia, muito menos eu…

     Esperei que as pessoas voltassem as suas casas, peguei os documentos que a jovem professora me trouxera, coloquei na bolsa e fui cuidar da missão que ela me incumbira. Já pisava os degraus que dava acesso à calçada quando ouvi dona Júlia comentar:

– Parece coisa de comunista.

 

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