Nas pegadas dos Barros Pereira

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Por intermédio de familiares tomei conhecimento que o meu avô paterno Umbelino Victoriano Pereira fora trazido de Portugal para o Brasil nos idos de 1870. Contava ele meses de idade quando deixara a cidade do Porto para cruzar o atlântico num vapor, junto a outros parentes, sob o comando dos seus pais, os portugueses Miguel Luiz Pereira e Ana Maria Pereira.

     Conta tio Mário de Barros que quando menino ouvia os tios comentarem sobre a viagem do seu avô e que um dos comentários se referia a uma sugestão que um passageiro fizera a Miguel Pereira no sentido de aplicar uma meizinha em um ferimento existente no nariz de um dos seus filhos.

− Põe mel da abelha Mumbuca, que sara!

     Isso, segundo tio Mário, a frase acima era lembrada imitando o sotaque português. Mas vamos ao que importa.

     Miguel Luiz Pereira ao desembarcar com os seus em Recife, partira para o Cabo de Santo Agostinho onde residira por certo tempo para depois se mudar para Rio Formoso e, posteriormente, Palmares. Foi em Palmares onde seu filho Umbelino conhecera Maria Euclides de Barros Lins com quem casara e fora residir no povoado de Campos Frios, distrito de Água Preta, onde Umbelino iniciara um comércio de secos e molhados.

     Nesse povoado viveram dias fartos e felizes, tanto assim que um dos seus sobrinhos afins, o poeta Milton Alves de Souza (que deveria chamar-se Milton de Barros Lins de Souza) relembrando aquela época escreveu o belíssimo poema que reproduzo a seguir:

CAMPOS FRIOS

Que saudades domingueiras,
De Campos Frios no estio,
A horta de bananeiras
No outro lado do rio!

Folhas ao vento, bandeiras,
Nossa jangada fugaz,
De manhã nos leva e traz
Como nas tardes fagueiras!

Junto ao rio cristalino,
A casa de tio Umbelino
Num recanto de beleza,

Qual sonho azul de esperança,
Nossos tempos de criança,
Se foram na correnteza.

     Para que fique mais claro é bom acrescentar que Maria Euclides era filha de Umbelino de Barros Accioly Lins e Maria Olímpia da Veiga Figueiredo, que após o casamento incluíra Lins. O casal havia vendido o engenho que possuía em Rio Formoso para juntar-se a familiares residentes em Palmares, dentre os quais seus irmãos Rodolfo de Barros Accioly Lins e Nilo Portela Lins.

     Em conversa com tio Alexandrino ele disse ignorar o porquê do Portela no nome do Nilo, uma vez que ele era irmão de Umbelino e de Rodolfo, contudo, salienta o que também é do meu conhecimento, que havia um entrelaçamento da família Portela com Accioly de Barros Lins. Segundo, ainda, meu tio, isso pode ter sido decorrente de uma primeira ou segunda união do Umbelino Accioly.

     Mas, retornando a vida do meu avô e a sua atividade comercial, gostaria de frisar que ele chegou a ter uma loja que além de padaria, englobava a venda de tecidos, estivas, ferragens e outras mercadorias, o que, hoje, chamaríamos de empório, mas na proporção que o seu comércio crescia a família crescia ainda mais, chegando a 18 filhos sem contar com umas irmãs que viviam as suas expensas.

     E pelo que deduzo, as coisas começaram a se complicar quando a família começou a crescer e o comércio a diminuir. E, além do mais, Umbelino não controlava sua prodigalidade, tinha dificuldade de dizer não a quem necessitava da sua ajuda. Pelo que escutei do meu pai, isso concorreu para o desfalque das prateleiras e do serrar das portas.

     Para a agricultura não podia mudar, pois o sítio Niterói que possuía por traz do povoado, no outro lado do rio Jacuípe, em Alagoas, para onde o Milton atravessava na jangada de que fala no soneto, já não mais lhe pertencia, vendera a um cunhado que permutara com um ‘coronel’ por outro sítio o que favoreceu aos dois, pois cada um anexou à nova aquisição as suas propriedades.

     Como se vê, Umbelino “estava no mato sem cachorro”, porém, por ser um homem de alto conceito e bons princípios, não ficara devendo ao comércio, o que poderia lhe favorecer um retorno.

     Nesse ínterim, “enquanto tomava sintoma do tempo,” um dos seus cunhados, proprietário de engenho em Alagoas, oferecera-lhe terra para plantar mandioca, macaxeira, batata doce e legumes, coisas de colheita imediata, que não fosse bem de raiz, para não vir causar transtorno ao senhor.

     Agora tinha uma coisa, em contrapartida Umbelino lhe daria um cambão, ou seja, pagaria ao proprietário pela concessão da área cedida com um dia de serviço não remunerado, por semana, ajudando nos afazeres do engenho. E como seu cunhado era um homem rico, ainda lhe oferecera vinte quilos de farinha de mandioca por semana até que sua roça começasse a ser colhida, ficando claro que, quando isso acontecesse, esse apoio seria suspenso.

     Umbelino ficou muito agradecido por tamanha colaboração, pois em dias de hoje, ou seja, 16 de abril de 2009, esses 20 quilos de farinha deveriam corresponder ao valor de vinte reais, o que não deixaria de se constituir numa significativa contribuição para complementar a ração dos porcos e misturar ao feijão que alimentava os humanos.

     Homem branco, de olhos verdes, sua pele não suportara a exposição ao sol causticante do nordeste brasileiro. Mas o que fazer? Cheio de filhos para sustentar e precisando cuidar das suas modestas plantações, solicitou ao cunhado a suspensão do cambão e este, homem rico e exigente no cumprimento das coisas que estabelecia, não gostou da proposta e fez chegar às mãos de Umbelino o bilhete que transcrevo abaixo que me fora ditado por seu filho Alexandrino de Barros, depois de mais de meio século do sucedido.

     Umbelino,

     É tempo de lançares mão das tuas mandiocas para ires vivendo, pois vou ter que suspender os vinte quilos da farinha que venho te fornecendo semanalmente.

     Agora mesmo o açúcar baixou de preço e estou velho, sem ter quem me ajude e penso no futuro.

     Se puder, mais adiante, te auxiliarei.

     do teu cunhado

(Rubrica ilegível)

     Umbelino sentiu naquele bilhete o ranço de quem dá as cartas, de quem pode e determina, pois o signatário era um dos grandes criadores de gado da região, tinha um engenho que fabricava açúcar, aguardente, e além do mais, os tempos eram de bonança para o ouro doce.

     Ressentido com a atitude do cunhado, Umbelino logo colheu suas roças e retornou ao vizinho povoado onde conseguiu, a muito custo, reiniciar seu antigo comércio de padaria, secos e molhados.

     Esse reinício se deu porque um amigo, que também era parente de sua mulher, com quem ele tivera transações comerciais, o Pedro Buarque, senhor do engenho Amoroso, ao tomar conhecimento do ocorrido o procurou e disse:

− Não senhor, você vai reabrir as portas. Os comerciantes que sempre lhe venderam, voltarão a lhe vender. Vamos a eles!

     E de fato, Pedro Buarque não somente cumpriu com o prometido como lhe incutiu ânimo para retornar as suas atividades, o que aconteceu até o ano de 1933, do século XX, quando uma epidemia de varíola ceifou a vida do meu avô.

     E já que não sou memorialista, gostaria de finalizar, acrescentado que não conheci Miguel Luiz Pereira nem seu filho Umbelino, porém, vejo-os estampados em minha imaginação como que os tivesse conhecido. Como isso se deu, não sei, mas garanto que se dominasse a arte da pintura os retrataria de corpo inteiro para quem deles possuísse fotografias pudesse comparar.

     Muito tempo já passou, porém, presumo que a nítida presença deles em mim resultou nessa narração. Mistérios da vida, difíceis de desvendar, especialmente por mim, um “homem de pouca fé.”

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