Essa crônica foi publicada no Boletim Geral Ostensivo nº. 003, do CORPO DE BOMBEIROS DO ESTADO DE ALAGOAS,de 06 de janeiro de 2010, conforme se ler abaixo:
1. ESTADO DE ALAGOAS
SECRETARIA DE ESTADO DA DEFESA SOCIAL
CORPO DE BOMBEIROS MILITAR
BOLETIM GERAL OSTENSIVO Nº. 003 – MACEIÓ, 06 DE JANEIRO DE 2010.
PARA CONHECIMENTO E EXECUÇÃO NESTE CORPO, PUBLICO O SEGUINTE:
UNIFORME: EXPEDIENTE: 3º “C”
S. TRANSCRIÇÃO DE DOCUMENTO:
ORIGEM: BOMBEIROS, SERES DIVINO
(…)
4ª PARTE
JUSTIÇA, DISCIPLINA E ELOGIO.
SEM ALTERAÇÃO
Quartel em Maceió, 06 de janeiro de 2010.
JADIR FERREIRA CUNHA – CEL. BM
Comandante Geral
Confere com o original
NEITÔNIO FREITAS DOS SANTOS – CEL. BM
Subcomandante Geral
“Prepara-se o cavalo para o dia da batalha, mas o Senhor é que dá a vitória” (Provérbios 31:21).
BOMBEIROS, SERES DIVINOS
Autor: Clodoval de Barros Pereira
Ao capitão José Petrúcio da Silva, o nosso estimado Nana, um Bombeiro exemplar e um ser humano admirável que muito engrandece o Corpo de Bombeiros que serve ao povo das Alagoas.
Acertar em uma profissão não é tarefa fácil, especialmente para quem deseja participar da construção de uma sociedade que se proponha a oferecer Pão e Justiça aos seus componentes. Como podemos deduzir, se o ofício escolhido não se adequar à vocação, provavelmente, quem o escolheu passará a vida a tropeçar nos obstáculos que, certamente, surgirão.
Imagino que foi pensando em quem fica indeciso, quanto ao rumo a tomar diante de uma encruzilhada, que o grande filósofo Sêneca fez ver em suas Cartas a Lucilio que “Nenhum vento sopra em favor de quem não sabe para onde ir.”
Bombeiro Alagoano á serviço no Rio de Janeiro
Foto Captada da Internet
Talvez a escolha impensada seja uma das razões dos fracassos profissionais. A falta de motivação leva a pessoa a desistir do que está fazendo para recomeçar noutra atividade que, às vezes, também, não se coaduna com sua tendência vocacional.
Eu mesmo já escutei magistrados jurando, ao acabar de por a toga sobre os ombros, que usariam a Lei como um instrumento sagrado para lavratura das sentenças que seriam esculpidas com o cinzel da racionalidade.
E eu os aplaudi diante de tamanha promessa. Era isso o que eu estava querendo ouvir por saber que a atribuição de julgar é divina. Portanto, partindo desse princípio, quem faz as coisas que somente a um Deus é permitido e o faz sem retidão, provavelmente, ignora que um dia será julgado pelo Juiz Maior, aquele que será implacável em seu veredicto.
Mas a verdade é que eles mentiam! Não demorei encontrá-los emporcalhando os Tribunais com o odor fétido que exalava dos seus textos condenatórios. Haviam abominado o juramento, desprezado o Livro da Lei e de cutelo em punho e olhar ameaçador, mercadejavam sentenças.
E não foi somente um que chegou a admitir que honra era coisa abstrata, só existia na cabeça dos trouxas. Queriam os bolsos cheios, a mesa farta e os bajuladores em volta. O resto nem levavam mais em conta, podiam nivelá-los aos corruptos ou aos carrascos que pouco lhes importava.
Também convivi com políticos que esmurravam o peito enquanto proclamavam lealdade aos companheiros e ao povo, mas, ao serem eleitos ou receberem cargos, desvencilhavam-se das promessas e passavam a roê-los como se fossem abutres. Pareciam hienas famintas, rosnando para defender a presa. E, tais quais os mercadores de sentenças, ameaçavam quem não silenciasse diante de suas falcatruas.
Até sinto repugnância ao falar de gente inescrupulosa. Gosto de falar e de ouvir sobre pessoas que abraçaram os mais honrosos ofícios e não empanturraram a barriga dos filhos com o sustento roubado.
Dessas, sim, gosto de falar. Elas fazem da profissão um sacerdócio e desempenham com amor as tarefas que lhes são destinadas. Também, pudera! O mundo não é composto somente de seres execráveis. Tenho convivido com homens e mulheres que enobrecem a nossa espécie, tanto pelos dotes humanos como profissionais.
E para falar dos que honraram e engrandeceram o meio em que viveram vou recorrer ao meu arquivo cerebral, onde criei um Panteão para dignificar a memória dos que praticaram os mais nobres feitos em favor da humanidade.
E sabe quem encontrei, dentre outros, neste Panteão? Um cabo que servia ao Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo, cujo nome me foge à memória, contudo, aproveitarei esse lapso para homenageá-lo em cada bombeiro que os meus olhos enxergarem.
Esse bombeiro de quem falo, era um ser dotado de excelentes qualidades humanas e morais, tal qual a grande maioria dos que se destinam a abraçar a profissão cuja meta principal é salvar vidas. E para complementar essas qualidades, o cabo teve a felicidade de escolher uma profissão que se compatibilizou com seu jeito solidário de viver.
Tomei conhecimento da existência deste homem que tanto honrou sua profissão em uma sexta-feira de fevereiro de 1974, quando uma emissora de Televisão transmitia ao vivo o incêndio que destruiu o edifício Joelma. Acompanhei todo o desenrolar daquela tragédia acontecida na capital paulista sem jamais esquecer a luta que ele travou para salvar as pessoas envolvidas no horrível fogaréu.
Dias após o apagar das chamas foi constatado que, das 756 pessoas que se encontravam no prédio, 40 pularam dos altos andares para fugir da morte pelo fogo, enquanto 139 foram tragadas pela terrível tragédia. Como os números demonstram, 179 pessoas morreram e mais de trezentas ficaram com ferimentos e queimaduras, as demais foram salvas por helicópteros e outros meios usados pelos destemidos bombeiros.
Nas batalhas contra as chamas ou contra a morte, todo combatente é um herói, porém, naquele dia, o cabo foi notado como um dos que mais se destacaram naquela luta.
Acompanhei sua chegada ao local do sinistro e vi sua aflição diante das tochas humanas que se atiravam pelas janelas dos altos andares do enorme edifício.
Nunca esqueci sua chegada ao local do sinistro. Ao ver tochas humanas voando ao encontro da morte no duro asfalto da rua, o bombeiro se afligiu tanto que não podendo conter a emoção, abraçou-se à viatura que o conduziu até o fatídico edifício e bateu por mais de uma vez com a testa de encontro ao veículo. E, sentindo-se impotente diante daquele inferno em chamas, deixou escapar um grito que a televisão fez ecoar por aonde sua imagem chegava.
− Meu Deus!…
Aquele grito mais pareceu um berro de um animal acuado que o grito de um homem em desespero. Presumo que ele se dirigia ao Bombeiro Maior pedindo que Ele se fizesse presente para ajudá-los transpor a barreira de fumaça negra que envolvia a escadaria onde mergulhou e desapareceu degraus acima.
Acho que seu grito ainda ecoava no labirinto das ruas tomadas de curiosos desejosos de ajudá-los quando o bravo retornou das labaredas trazendo aos braços uma criança desfalecida. A menina tinha as vestes, os cabelos e o corpo chamuscados pelo fogo, mesmo assim, ao entregá-la para o bombeiro médico, beijou-lhe a face, umedecendo-lhe as queimaduras com as lágrimas que rolavam dos seus olhos avermelhados pela fumaça que dificultava qualquer aproximação.
Eram lágrimas de felicidade por ter podido salvar a vida de uma criança que nem do nome ele sabia. A espontaneidade desse gesto, além de emocionar a Nação, estreitou os laços que unem os homens nas grandes travessias.
Nem contei quantas vezes ele voltou ao inferno ardente. Impossível enumerar os feitos de um bombeiro em luta para salvar pessoas encurraladas, gritando por socorro.
Sabemos que os bombeiros não vacilam na hora de socorrer. Atiram-se ao fogo, jogam-se às águas e se arriscam por entre os escombros, mesmo sabendo que a morte os espreita a cada passo. E às vezes são dez, vinte, cinqüenta que pulam na escuridão de um poço para salvar uma criança, um mendigo, um operário ou um animal em apuros.
Somente quem precisou dos bombeiros, diante das pequenas ou das grandes tragédias, sabe o quanto são solidários e corajosos. Felizes daqueles que, num momento de desventura, possam contar com um deles ao seu lado. E a morte sabe tanto disso que dificilmente se aproxima de quem um bombeiro estende a mão.
A morte sabe que é preciso fugir quando chega um bombeiro, a não ser que use a tocaia, como fez com o herói que ora estou a lembrar, emboscando-o quando a caminho doutra catástrofe, onde pessoas encurraladas por labaredas gritavam por bombeiros.
Foi esse triste acidente que roubou a vida do nosso irmão, condenou sua mulher à viuvez e suas duas filhas à orfandade. Como se pode concluir, alto foi o preço que ele pagou pela escolha da missão de socorrer vidas em perigo. E baixo foi o salário, em forma de pensão, que o Estado destinou à sua necessitada prole. Não foi suficiente para sobrevivência da viúva nem das duas filhas.
Muitos bombeiros perderam suas vidas lutando contra as catástrofes e, como sabemos, pouco ou quase nada deixou para suas famílias a não ser os mais belos exemplos de amor, honradez e solidariedade.
E esse patrimônio, eu lavro nessa folha como se uma escritura fosse, para que os povos dos mais esclarecidos países, que já acompanham esta humilde página, tomem ciência dos nossos heróis e de suas honradas famílias sem esquecer que nem a traça nem a ferrugem conseguirão corroer heranças desse nível.
Um dos filhos mais amados do Criador, quando se fez Homem e entre nós habitou, mesmo recebendo cusparadas, socos e ponta-pés, antes de ser cruelmente assassinado a mando dos ancestrais dos que continuam pagando baixos salários aos Bombeiros, disse “que não há amor maior do que dá a vida em favor dos seus irmãos.”
Portanto, como se vê, e como Ele mesmo disse, é praticando a solidariedade com desinteresse que o homem cresce e se destaca como um ser respeitável, bom e puro.
Por essa e outras razões eu venero e admiro os Bombeiros, entes solidários, que tiveram a coragem de abraçar a perigosa profissão de atuar diante das catástrofes e das hecatombes que esmagam seres indefesos.
E é bom frisar que os salários pagos a eles são incompatíveis com os riscos decorrentes da profissão.
Eles merecem nosso apreço e nossas reverências.
São Bombeiros.
E os Bombeiros são seres divinos, vivem para salvar.