Eles contaram, eu escrevi

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Primeiro ouvi de meu pai, depois de velhos moradores do engenho, que me tornei habitante deste Planeta às duas horas de uma madrugada fria que declinava para um domingo ensolarado. E não faz mal lembrar que naquele rincão as pessoas não se ligavam a datas ou horas de fatos acontecidos, porém, não sei por que alguém deu uma olhadela no calendário e constatou que ele marcava 14 de setembro na bucólica sede do engenho Pacheco, um velho bangüê de fogo morto.

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     Portanto, quando surgi naquelas brenhas, o progresso, se é assim que podemos nos referir, já não mais existia. A caldeira sem fogo, as moendas sem esmagar as canas para extrair o caldo que escorria para o parol e dele para as tachas de cozimento, onde, depois de demorada fervura se transformar em mel e, posteriormente, em açúcar. Ainda quente, era transportado em porções, por dois trabalhadores, para as barricas na casa de purgar onde iria escorrer o mel pobre para que os cristais se petrificassem e se convertessem nos “pães” de açúcar mascavo.

     Por ter nascido num engenho de fogo morto não me foi possível sentir o cheiro afrodisíaco do mel que o vento empurrava pelas frestas do telhado das casas, nem também me foi possível escutar o eco de seu apito arrebentando o silencio reinante nas frias madrugadas daquele recanto solitário.

     Não fosse o engenho Ouro Preto ou a pequena usina Porto Rico, dos Siqueira Campos, os habitantes daquele mundo ouviriam, apenas, o berro longínquo da usina Santa Terezinha, dos Pessoa de Queiroz. Mas o engenho Ouro Preto, do major Salustiano de Barros Lins se mantinha pujante sobre suas rédeas e administração de um fidalgo dos mais honrados que conheci que foi o seu cunhado André de Holanda Vasconcelos.

     Sob esse comando, Ouro Preto não arriava o fogo. A sua fornalha continuava em chamas cozinhando o mel que borbulhava em suas tachas para ser transformado em açúcar mascavo. Ali não havia crise, pois os caminhões, carregados do precioso produto, estavam sempre a gemer na subida da ‘ladeira do valado’.

     Usina podia ameaçar quem quer que fosse o major Salu, jamais. O imponente bueiro do seu engenho continuava maculando os céus com a fumaça expelida das chamas de sua caldeira sempre acesa.

     E as casa comercial bem sortida; os silos cheios, os partidos de canas e ainda o gado, os cavalos e as ovelhas com pelagens de cores variadas colorindo o verde das suas pastagens.

     Se usineiro devia “a Deus e ao mundo”, o major vivia de cofre abarrotado e os vizinhos sabiam disso. E tanto sabiam que quando pretendiam vender qualquer coisa tomavam o rumo da estrada que levava a Ouro Preto. Se o major se interessasse, estipulava o seu preço, se aceito, abria o cofre e pagava o valor proposto.

     Assim aconteceu quando o proprietário de Pacheco resolveu vendê-lo. O major pagou o que propusera pelo engenho e, tempo depois, o arrendou ao sobrinho José de Barros Pereira para o cultivo de cana de açúcar. Entusiasmado com o empreendimento, Zeca iniciou o plantio e aguardou que setembro chegasse com o amadurecimento das canas para os carros de bois voltarem a cantar seus cocais em direção às moendas de Ouro Preto.

     Não fosse a presença da preta Josefa Gabriel, que chegara das bandas da fazenda Manguaba, as conversas continuariam girando em torno dos trabalhos pesados do campo e da colheita que se aproximava. Mas a parteira Josefa Gabriel chegara para assistir ao parto de Francisca Sitonho de Lima, mulher de Zeca. Ela vinha para uma missão difícil, coisa perigosa naqueles ermos, onde não existia recurso médico nem também por quem gritar em caso de complicações.

     Era e continua sendo uma região muito pobre que continua habitada por uma legião de homens e mulheres obrigados a trocar sua força de trabalho por míseros salários. Fora eles só existiam os senhores de engenho e desses, poucos possuíam automóveis. O major tinha o seu, mas não fazia rodeio se alguém ousasse importuná-lo:

― Meu carro não é ambulância!

     Como se ver, Chiquinha e Zeca não teriam com quem contar a não ser com a negrada do engenho. Se não possuía automóvel, esbanjava solidariedade e força física e com essa, tanto a mãe com o filho a nascer, poderiam contar.

     Se fosse preciso fariam como tantas vezes já haviam feito: amarrariam os punhos duma rede nas extremidades de uma trave roliça e, trocando de ombros, revezar-se-iam dia e noite até encontrar um médico ou um curador que receitasse uma ‘meizinha’ para sanar o problema. Era gente solidária, de muita grandeza. A maioria havia se desvencilhado da Lei que lhe fizera escrava, mas, enfurecidos por essa pequenina liberdade os senhores passaram a lhe pagar um salário tão miserável que mal dava para alimentar a mulher e os filhos.

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     Essa gente gostava de Chiquinha e estava preocupada com o que poderia acontecer se o parto não ocorresse normalmente. Por isso, assim que a noite chegou, estenderam as esteiras de piripiri no terreiro de suas casas e iniciaram a espera. Uns sentados, outros deitados, mas todos de ouvidos voltados para casa da parturiente, enquanto a meninada brincava imitando os bacuraus, aves noturnas, que cantavam, pulavam e dançavam mazurca nas bordas do terreiro.

     Ansiosos pelo desfecho descuidaram-se do correr da noite e não viram que a madrugada descambava para o amanhecer. A lua já havia atravessado flocos de nuvens, ninhos de estrelas e cruzado a cumeeira do que havia do bangüê sem que dessem conta de sua trajetória.

     A conversa sobre o menino que chorava na barriga da mãe os fez descuidar do correr das horas. Estavam curiosos porque a crença existente dizia que quem chora antes de nascer, vindo ao mundo, será um rebelde no pensar e no querer.

     Também me falaram que era noite alta quando a coruja passou em vôo rasante sobre o terreiro da pequena casa-grande, pousou na jaqueira ao lado e começou a piar. Pensando em maus presságios, tangeram-na. Ela bateu asas e tomou o rumo da mata que ficava nas proximidades.

     Ninguém tinha relógio para precisar a hora, mas quando Josefa Gabriel abriu a porta para comunicar “que o menino já se fazia presente e Chiquinha passava bem”, o galo acabara de cantar pela segunda vez. Era o relógio do engenho. Conforme os moradores mais antigos, aquele segundo canto, geralmente, acontecia por volta das duas horas da madrugada.

     “Parecia de clarinete o canto daquele galo”, dissera-me, certa vez, o meu pai. E acrescentara que “a  Natureza além de dar aos animais a ciência de prever acontecimentos desejáveis e indesejáveis lhes facultava o dom de amenizar as necessidades do homem.”

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     Dele também ouvi que “na mesma manhã de segunda-feira, ao retornar do povoado de Campos Frios, onde moravam alguns dos seus familiares, encontrou João Braz, morador de Pacheco, no finalzinho da ladeira do valado, no sentido Ouro Preto Campos Frios, no platô existente em frente à casa de João Tomás.”

     Após o cumprimento, o João transmitiu o ocorrido:

– O Clodoval nasceu hoje, às duas horas da madrugada.

     Zeca esporeou o cavalo para fazê-lo galopar, pois queria estar entre os que retardaram o sono naquela noite de domingo e mergulharam pela fria madrugada de segunda-feira, enfrentando o sereno que caía com o frio orvalho do amanhecer.

     Lá chegando me encontrou deitado em uma rede feita de um saco de açúcar vazio, tecido com algodão. Chiquinha costurava e tinha uma pequena máquina com a qual forjou o meu primeiro leito. Como podemos ver, não foi somente o Filho do Homem que teve dificuldades, eu também tive as minhas.

     Depois daquele dia 14 de setembro, Chiquinha ainda passou quatro anos cuidando do menino, ensinando-lhe as coisas da vida e advertindo-lhe sobre os perigos existentes no transcorrer de uma vida. Quatro anos, somente quatro; mais não lhe foram permitido. Presumo que, mesmo contando com a negrada, a falta de recursos impossibilitou o companheiro de procurar meios para salvá-la de um ataque de eclampsia.

     O menino cresceu sofrendo as mesmas injustiças praticadas contra a sua gente. Gerado entre ela, continuou ao seu lado reivindicando meios para inseri-la entre os humanos e afastá-la da vida animalesca que a maldita estrutura capitalista continua lhe impondo.

     Os gritos de angústia, aflição e dor que o menino escutou desses camponeses, continuam ecoando no recôndito de sua alma, talvez mais alto que os apitos de todos os bangüês e de todas as usinas, juntos.

     Espero chegar o dia que essa gente não clame por Pão nem por Justiça, plante o seu trigo, institua o seu governo e o seu Tribunal.

     Eu acredito no Homem, em sua coragem e em sua inteligência.

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