Autor: Clodoval de Barros Pereira
A tarde estava ensolarada e calorenta, mas a brisa corria fresca sobre a minha face sombreada pela folhagem da mangueira que farfalhava ao soprar do vento.
Contudo, apesar da robustez da fronde, existiam frestas por onde eu podia avistar flocos de nuvens escuras navegando pras bandas dos sertões esturricados onde a estiagem bebia os açudes, gretava a terra e despojava os campos de sua roupagem verde.
Sentado junto ao tronco da velha árvore eu refletia sobre o que fazer naquela tarde quente de janeiro. Precisava decidir se selava um cavalo para galopar até o vale onde daria um mergulho nas águas do Jacuípe ou se continuava a leitura do livro que Karl Marx havia inspirado Vladímir Ilitch Uliánov a escrever. Como já começava a aceitar de participar da construção da sociedade que Marx idealizara, inclinei-me pela obra de Lênin e comecei a leitura.
Nem havia devorado a página que iniciara quando escutei o ronco de um furacão que passava arrastando folhas, ramos, poeira…
Levantei-me para observá-lo e avistei em seu furioso eixo uma folha que lutava desesperadamente para não se deixar levar pela fúria incontida do monstro arrebatador.
Ao aprofundar o olhar, constatei que somente ela reagia ao que determinava a brutal vontade da natureza, as outras, não; as outras pareciam alheias à impetuosidade da força que arrastava tudo o que se submetera para mundos distantes, destinos ignorados.
A rebelde, não! A rebelde lutou contra o que lhe fora imposto e venceu. E sua luta foi observada por Lucas, um garoto que, por está de olho no que acontecia nos arredores, correu para socorrê-la, resgatando-a antes que se chocasse contra o chão.
Ao vê-lo estender as mãos à guerrilheira dos céus, resolvi felicitá-lo pela solidariedade prestada, mas o menino estava tão embevecido que nem deu por conta da minha presença, notando-me, somente, quando lhe perguntei se a folha viera do espaço.
– Sim, apanhei-a quando descia. Tome-a, ponha em seu livro para marcar a leitura.
Antes de fazer o que Lucas sugerira, agucei o olhar sobre ela e percebi que, misteriosamente, havia um esboço da imagem de um dos mais respeitáveis benfeitores da humanidade. Como aquilo teria acontecido? Não sei! Porém, já que existia esse esboço, lembrei-me dos dons artísticos de uma jovem que habitava uma casa ao lado da mangueira e lhe solicitei a conclusão do desejo da Natureza.
Alumbrado com o que acabara de assistir, enquanto abraçava o Lucas e afagava a cabeça de Gitano, que balançava a cauda e latia de contentamento, tentei auscultar o pensamento do garoto em relação ao acontecido.
– Lucas, você disse que ela veio dos céus?
– Sim! Ela rebelou-se contra a fúria da tempestade e preferiu ficar sozinha a seguir o rumo desordenado do tufão.
– E por que você me oferece uma folha tão rebelde?
– Ah!… Você sempre acolhe os que se rebelam contra a força, contra a prepotência, contra tudo que humilha, corrompe e avilta. Gitano e eu assistimos à luta que ela travou para não se deixar levar pela truculência do furacão.
As palavras de Lucas avivaram-me a crença de que um ato solidário não passa despercebido, especialmente quando praticado em favor dos fracos que, sozinhos ou desorganizados, não podem enfrentar os poderosos.
Constatando que tudo havia se ordenado, voltei à sombra acolhedora da frondosa árvore, reabri O ESTADO E A REVOLUÇÃO e coloquei-a ao lado da foto daquele que escrevera o livro e lutara contra todas as formas de servidão.
Antes de retornar à leitura, olhei o horizonte róseo, beijei-a e, como se fosse uma coisa costumeira, murmurei:
– Submeter-se, nunca!