A ovelha desgarrada

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     As mulheres bonitas parecem não ter paz, todo mundo quer ficar perto delas. E Vicentina jamais seria exceção. Corpo esbelto, rosto angelical e um olhar que ao misturar-se ao sorriso derramava tanta ternura que alumbrava qualquer vivente. Ainda não me esqueci do dia que, casualmente, nos conhecemos. E deve ter sido a mistura desse olhar com esse sorriso que me deixou inebriado, ao sentir sua mão firme apertando a minha enquanto sua voz melodiosa se fazia apresentar:

– Eu sou Vicentina.

– Oh, Vicentina, eu sou Chicau.

     Olhamo-nos frente a frente e observei que apesar dos seus 30 anos, Vicentina era uma mulher que esboçava um aspecto jovial e parecia uma menina com seu jeito ingênuo, mas, dada à maneira como se conduzia, atraia respeitabilidade das pessoas com quem tratava ou convivia.

     Já o Saulo, seu marido, era tido como sujeito bonzinho, tolerante e invejado pelos colegas em virtude da mulher que escolhera. Quem não gostaria de estar ao lado daquela jovem que tanto se dedicava ao trabalho, ao lar, aos estudos e aos familiares?

     Sua simpatia conquistava os colegas da Universidade, do trabalho e, para que não dizer, até das ovelhas e dos que pastoreavam o rebanho que integrava sua igreja.

     O casal se apresentava como evangélico, esbanjava fé e evitava a convivência com pessoas que não professassem o seu credo por achar que essa gente como pecadora estava condenada ao fogo do inferno, coisa que jamais aconteceria aos dois servos de Jesus e de sua igreja.

     As duas ovelhas eram felizes e não se afastavam do rebanho que era constituído por seus irmãos de fé com que oravam para continuar cada vez mais felizes tanto na vida como no casamento. Mas, como dizem os versados na arte de viver, o que é o bom dura pouco. E o pior é que o feliz casal foi vítima desse dito popular.

     Pois não é que apareceu, em sua igreja, um lobo vestido de pele de cordeiro? Esse lobo induziu a ovelha de Saulo orar ao seu lado para juntos pedirem perdão por ela pintar as unhas, escovar os cabelos e usar blusas de mangas curtas. Até aí tudo bem, ninguém desconfiava do “irmão” por achar que o seu intento era salvar almas para Jesus. Puro engano! Depois das orações os ovinos escapuliam para um pasto distante onde passaram saborear manjares tão gostosos que fizeram com que Vicentina se desgarrasse do rebanho e passasse a dormir noutro aprisco…

     E por conta dessa paixão a ovelha deixou de balir e passou a grunhir ao lado do canino tal qual uma cadela no cio. Agora a santa mulher só orava para pedir a Jesus que fizesse com que o marido a esquecesse, deixasse-a em paz com sua nova paixão e como o miserável não cedia, ela trocou a cama do casal pela de um bordel e os costumeiros monólogos oratórios pelos berros incontroláveis provocados pelo prazer luxuriante que o lobo lhe proporcionava.
Os dois já não eram mais ovinos. O carneiro passara a assumir sua condição de lobo e a ovelha, segundo suas colegas de trabalho, de uma desencabrestada sem sonhos e sem pretensões à ascensão econômica ou social. E gracejavam pela escolha que fizera, ironizando-a por ter trocado os degraus da escada que lhe fazia subir pelos da que apressavam sua descida.

     E o coitado do marido, conduzido pela confiança que depositava nos “irmãos” que comungavam com ele no mesmo aprisco, não sabia que no rebanho existia, passando por cordeiros, lobos vorazes. E que um desses animais começou a devorar sua mulher pelo rosto passou pelos seios e chegou às partes que Saulo mais queria e preservava.

     Por não poder esconder as escoriações que as afiadas presas do amante lhe causavam, Vicentina justificava como sendo acidentes de trabalho o que era aceito pelo ingênuo Saulo por jamais admitir que “um irmão de fé,” que também chamava de “irmã” a sua estimada mulher, estivesse devorando-a viva.

     Saulo, homem de boa índole e muita religiosidade, aceitava as explicações de sua amada, porém estranhava essas escoriações por lembrar que algumas delas se assemelhavam as que ele lhe fizera nos primeiros meses de casamento. E além do mais, Vicentina que sempre fora carinhosa, se mostrava fria e pensativa.

     Os lindos olhos que antes se abriam para ele, agora se arregalavam para fitar no vazio um lugar que possivelmente não existia. Mas existia! Naquele vazio ela estava reprisando os momentos passados na cama com seu “irmão de fé.”

     Perturbado com aquele distanciamento da mulher, Saulo corria para igreja, ia orar e pedir ao pastor que lhe ajudasse usando a força de suas orações para que Vicentina voltasse a ser o que era antes. E o seu pastor mandava que “as conselheiras do templo” fossem até a pecadora para fazê-la se reconciliar com o irmão em desespero.

     Inútil. Ela fugia das conselheiras por achá-las imprudentes por querer forçá-la a viver com um sujeito que há muito deixara de amar. Mas as conselheiras, pressionadas pelo pastor, farejavam seus passos e por mais de uma vez encontram-na recebendo orientação de “conselheiras” enviadas pela igreja do seu novo amante. Era uma guerra, cada grupo que lutasse para não perder a contribuição daquelas almas, mesmo atoladas no pecado. E o tesoureiro se impacientava alegando que Jesus não podia abdicar do dízimo que esses servos destinavam ao caixa da igreja.

     Esperançoso, o infeliz do marido não desanimava, instigava as “conselheiras” e o telefone da pecadora não parava de tilintar. Ligava o amante, ligava o marido e ligavam as conselheiras das igrejas em disputa. Vicentina se desorganizava no trabalho, esquecendo os afazeres a ela atribuídos, enquanto deixava cair o rendimento nos estudos, negligenciando nas tarefas que a Faculdade lhe cobrava.

     Desesperada, corria ao encontro do pastor e das “conselheiras” do novo templo e implorava que orassem. Orassem todos! Orassem o pastor, as ovelhas, os lobos e as lobas, até as hienas que por lá existissem, orassem, também, para fazer com que o homem que hora lhe fazia feliz na cama não esmorecesse diante de tanta disputa.

     Enquanto isso, o que se achava em desgraça chorava, esperneava e dizia que não queria perdê-la, chamava-a para a igreja a fim de orar, pois o casamento estava em perigo. Vicentina nem lhe dava ouvidos, uma vez que tinha como certa a ajuda de Jesus para indicar um lugar onde não fosse encontrada pelas ovelhas do seu antigo aprisco.

     Que nada, a batalha não cessava. Por solicitação do marido, o pastor convocara uma “sessão de descarrego” e ela teria que comparecer a fim de se aliviar dos pecados e se reconciliar com o homem que Cristo lhe destinou.

     Isso lhe apavorava, já não aceitava a vontade do Criador, o que ela queria mesmo era um lugar onde uma fêmea no cio pudesse amainar seus insaciáveis desejos. E isso a sua nova igreja lhe propunha. A “sessão de descarrego” já estava marcada para que, os irmãos em assembléia, fizessem a limpeza espiritual para depois, limpos de tanta sujeira, pudessem se juntar. Essa proposta sim, essa ela aceitava, agora a do seu ex-pastor, não!

     E o infeliz passava à tarde com o corpo pendido na janela, o pensamento voltado para a Universidade, onde a amada estudava para ser doutora. Nem de longe ele desconfiava que ela já houvesse trocado a sala de aula por um quarto de bordel.

     Vicentina não desistia e achava que as orações do marido não tinham poder de mudar aquela situação. Jesus estava ao seu lado, não ao lado daquele traste que nada mais lhe inspirava. Essa convicção fez com que a fêmea apaixonada arrancasse a aliança que simbolizava seu casamento, abandonasse a casa que antes chamava de lar e despedisse um amante que arranjara na Universidade. Estava decidida para se agarrar de corpo e alma com a terceira; terceira não! Pelo que falara Isabel, a quem ela se referia como uma das suas melhores amigas, com a quarta ou quinta paixão.

     Mas quem conhece Jesus sabe que Ele jamais se meteria nessa vil conspiração, especialmente sabendo que o tal lobo, fruto de um cruzamento com hiena, queria se vingar de algumas dezenas de chifres que uma de suas mulheres, que também era sua “irmã de fé,” pusera-lhe na cabeça com “um irmão de crendices.”

     O Saulo ouviu do seu pastor que Judas entregou Jesus aos seus matadores em troca de 30 moedas, mas ainda não escutou de ninguém que seu “irmão de fé” só pagou 10 moedas pelo aluguel da cama que usou para emporcalhar o corpo e a alma da sua bela e ingênua mulher.

     Nada entendo de religião e nem pretendo entender, sou apenas um cristão como outros existentes por ai, portanto, é bom deixar claro que nada tenho a ver com o estilo de vida de ninguém, cada qual que tome o caminho que melhor lhe convier e colha os aplausos das vitórias ou amargue os apupos das derrotas.

     E é bom que se diga que a intromissão de terceiros nesse triângulo amoroso só se deu, porque, como sempre, os que se desencaminham mudam seu estilo de vida e esquecem que os mais próximos estão em seus calcanhares, ansiosos para saberem o que se passa na vida alheia. E vão ordenando o quebra cabeça; vão juntando frases, formando períodos, incluindo imagens e depois de tudo pronto abrem as cortinas e escancaram para o mundo.

     Tanto é que já admitem sua desistência da Faculdade e lhe criticam por gastar o dinheiro em vão somente porque lhe viram entrando num “puteiro” em companhia do “irmão” em horário destinado as aulas.

     Portanto, não era a minha intenção falar sobre futricas que entraram em meus ouvidos por escutar pedaços de conversas de terceiros e da própria Vicentina ao telefone com os participantes da trama. E o seu tormento era visível. O telefone chamava, ela corria ao fundo da loja e, às escondidas, durante a interlocução, derramava-se num choro quase sempre interrompido pelo chamado de algum colega para retornar ao atendimento do cliente que deixara a sua espera. Tentava ganhar tempo para se refazer, mas a insistência dos chamados não lhe davam tempo a se refaze e o jeito era se apresentar com os olhos lacrimejando, o rosto transfigurado, o cabelo em desalinho.

     E, mesmo que passe por inconfidente, não devo calar sobre o que me relatou sobre o homem que estava dando novo rumo a sua vida.

– Era pai de filhos, porém, por não ter qualificação profissional, trabalha num sindicato onde cuidava da limpeza da casa, do serviço de copa e fazia pequenos mandados pelo que percebe um salário-mínimo. E era um amor de gente, porém, muito ciumento e demasiadamente possessivo, tanto assim que se confessara enciumado com o diretor da firma onde trabalhava.

     Ao escutar essa confidência lembrei-me que Rute, uma de suas colegas de Faculdade, dissera que “Vicentina trocara um trouxa menor por outro maior, troca essa que evidenciava seu nivelamento aos dois.”

     Remoendo sobre o que dissera Rute não emiti nenhum comentário. Nem aprovei nem desaprovei nada do que me dissera, apenas perguntei:

– Diante desse ciúme, se lhe for determinado que escolha entre a paixão e o trabalho, pra qual lado penderá a sua escolha?

     Firme no seu intento, ela demonstrou nas entrelinhas que seu amor era muito forte, sua escolha não penderia para o trabalho, apesar da necessidade de mantê-lo em razão de sua sobrevivência.

     Não fosse essa resposta, não insistiria noutra pergunta:

–Você me disse que além de ciumento e possessivo, ele alimenta certa desconfiança amorosa em relação ao seu chefe, o que me faz perceber que poderá determinar o seu afastamento do trabalho. Isso acontecendo, quem bancará suas despesas com roupas, passagens e estudos, especialmente no momento que a vida lhe acena com dias melhores por seu desempenho no campo acadêmico e profissional?

     Ao responder que no mundo havia saída pra tudo, eu me calei por saber que algumas coisas acontecem tangidas por nós, enquanto outras, por muito que queiramos, esperam o instante propício e esse instante é indeterminado.

     E a saída que ela buscava não era segura em virtude de seu desequilíbrio emocional que já se estendia ao trabalho e aos estudos que, provavelmente, também, seriam suspensos, pois, bronco como era o seu amante, a tendência seria não permitir sua vivência no meio daqueles jovens que extravasavam vontade de se doutorar para melhorar suas condições de vida, coisa que ele discordava e ela de certo, com pouco tempo, aceitaria, uma vez que já havia abdicado de suas decisões em detrimento do mando de um que nada sabia decidir.

     Tanto assim que nem se incomodou com a possibilidade do chefe não esperar pela resolução do seu amante e determinar alteração no quadro funcional da firma em virtude de sua destacada função junto à empresa. Pois, sua imediata saída causaria transtorno na continuidade dos negócios, coisa prevista e rotineira decorrente dos conflitos amorosos, prejudiciais as mulheres e ao andamento dos negócios.

     A paixão desenfreada tem a força dos furacões e quando se desenfreia torna-se impossível segurar, são incontroláveis e cedem ao primeiro aceno. Nunca fui muito crente nas afirmações dos apaixonados, eles mudam de postura de forma imediata.

     E gostaria de deixar patente que nada mais sei e nem pretendo saber sobre futricas ou práticas sadomasoquistas de quem quer que seja, pois não fosse o desejo de exercitar a arte da escrita, coisa que gostaria de aprender para manejar a caneta, jamais teria me aproximado desse lamaçal.

     Também não gostaria de encerrar essas linhas sem refletir sobre a veracidade dessa narração, pois, se tudo o que se comenta for verdadeiro, as 10 moedas que o “irmão” pagou pelas horas passadas na cama do bordel foram provenientes das 30 que Judas Iscariotes recebeu como pagamento pela entrega de Cristo aos seus matadores.

     E não posso deixar de acrescentar que Judas deixou essas moedas para circularem entre as mãos sujas dos entes destinados ao que não presta para que a traição e a maldade se perpetuem entre os imundos.

     Pelo que estão a falar, Vicentina anda cada vez mais desconsertada porque depois de estender seu corpo inúmeras vezes nos imundos lençóis de um insalubre “puteiro” situado lá pras bandas dum vergel, onde uma parcela da gente mal asseada pratica o meretrício, o carnívoro lhe comunicou que o relacionamento estava suspenso por ela ter dividido o tempo entre as cadeiras da Faculdade e as camas do prostíbulo.

     Sabendo da vastidão do plantel não ia se compromissar com “irmãs” que se estendiam à cama com qualquer empurrãozinho. Desejo saciado, missão finda, pois, noutros apriscos, como noutros rebanhos, não faltava ovelhas no cio.

     Pelo exposto não é fácil prever o qual será o desfecho. Irene acha que o amante poderá voltar para Vicentina e tirá-la do emprego em razão do ciúme que sente do seu chefe e também arrancá-la do estudo por não querê-la junto aos que trocam o retrógado pelo atualizado.

     Enquanto isso, Rute sustenta que se ela não se desencabrestar de vez, provavelmente, reativará seu caso com o universitário e retornará aos braços do trouxa do marido, que já lhe perdoara por coisa idêntica, até que apareça outra hiena vestida de cordeiro e coma o que restou do corpo lambuzado pelo “irmão.”

 

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