Autor: Clodoval de Barros Pereira
Ninguém ignora que no Serviço Público poucas vagas sobram para os filhos da gente espoliada, a não ser de Gari, para varrer ruas, recolher lixos ou outras funções menos atraentes. Os cargos ou empregos mais vantajosos são criados para a parentela desses mandões. O que sobra, ou melhor, o que eles rejeitam, são destinados à ‘cabroeira’ de quem emana, por ignorância ou subserviência, o poder que esses oportunistas exercem.
Arraigados desse poder conseguem nomeações, sem concurso ou por meios fraudulentos, para familiares desprovidos das qualificações que as funções exigem. Sabemos que é comum, depois de empossados, juntarem ao cargo a arrogância de quem os indicou. E, para esconder a falta do preparo necessário, fecham a cara e se distanciam dos que deveriam prestar serviços.
E ai de quem reside no interior, onde se arvoram de ‘juristas’ e inventam leis para aplicar em quem ousar discordar de sua orientação política ou administrativa. E não é segredo que, na maioria das vezes, essas leis são aplicadas por quem não deveria permitir que tais injustiças fossem perpetradas.
Ambiciosos, insinuam dominar tudo que gira à sua volta. Não se contentam com a propriedade das terras, nem com o poder originado das “chefias políticas”, exercida por dádiva de péssimos governantes que ainda lhes permite se fazerem donos dos homens e das mulheres que circundam ou habitam seus feudos.
Para esses saudosos da escravidão, ela ainda não foi abolida, consta no Livro da Lei.
Apesar de arrogantes evitam o enfrentamento entre eles na hora de repartir as benesses vindas do governo que eles sustentam. Unem-se aos de sua laia para formar conluio no sentido de tirar proveito da conivência das autoridades que costumam fazer-se de bobas, de desentendidas. Então, por quem gritar? Pela Justiça? Ah, essa eles dominam! Colocaram-lhe uma venda que lhe tamponou os olhos e os ouvidos, não enxergam nem escutam o clamor dos injustiçados.
E eu que nunca fui das graças desses senhores, nem eles da minha, não tinha razões para conviver com gente dessa natureza. Até mesmo com os que se intitulam de ‘doutores’ não é fácil a convivência, porque, geralmente, são rudes e boçais tanto quanto a maioria dos seus truculentos ancestrais.
Ainda bem que, ao chegar à adolescência, mesmo rude, pobre e indefeso, ‒ claro, ‒ comecei a perceber que não dava para habitar um mundo onde reinasse a miséria e a opressão se tivesse lutando para torná-lo justo e farto. E essa, não era uma tarefa fácil para um jovem habitante das brenhas, que somente aos dez anos começara aprender como juntar letras para formar palavras, não tinha como combater tamanha casta de opressores.
Os primeiros pelos ainda não maculavam o meu corpo quando comecei a ouvir falar da existência de um mundo onde as pessoas viviam mais ou menos iguais. Porém, somente no meu retorno à Palmares, observando as idéias que Brivaldo Leão de Almeida professava, foi que passei a crer na possibilidade da edificação desse mundo e, em vista dessa crença, comecei a trabalhar por ele.
Para isto era necessário procurar me desvencilhar, ‒ se é que eu tinha, ‒ de toda forma de egoísmo, de usura e de ambição material para poder juntar-me a quem resistia aos que se tornaram donos das coisas deste mundo. E, convicto da não existência doutro caminho, não vacilei, abracei a causa e embarquei no sonho que nunca deixei de acreditar.
E essa percepção contribuiu para que eu trocasse os folhetos de cordel que falavam de Lampião, Antonio Silvino e Senhor Pereira, pelos livros que o revolucionário Oscar Wanderley passara a me emprestar. Ao conhecer outros homens e outras idéias, os meus ídolos passaram a ser, dentre muitos, Marx, Lênin, Brivaldo Leão, Carlos Mariguella e Gregório Bezerra.
Mas essa é outra história… A verdade é que tempos depois, voltei à minha terra e integrei-me aos companheiros para o combate aqueles que já haviam se tornado donos das terras, dos rios e das pessoas.
Um enfrentamento difícil por sermos minoria, e pelo fato do povo não alcançar que a nossa luta era no sentido de libertá-lo do jugo da exploração. E, além do mais, a luta era travada no campo de batalha do inimigo, em seus domínios, onde ele tinha as suas armas e o seu mando.
Truculentos, no comando dos seus jagunços, afrontavam e até chicoteavam quem negasse obediência às suas ordens. E não foram poucas as vezes que tivemos que enfrentar indivíduos que chegavam rosnando afrontas temerosas, em nome deles, da Polícia e da justiça, isso com o intuito de nos intimidar.
E por falta de alternativa, por mais de uma vez, tivemos que aderir a Lei de Talião que há muito havia sido implantada por eles. E dela pouco sabíamos a não ser o que aprendemos nos folhetos de cordéis que falavam das lutas que os grupos de cangaceiros tiveram que travar para enfrentá-los.
Pelo que me consta, somente Zumbi dos Palmares, os comunistas e os cangaceiros ousaram combater as perversidades praticadas pelos ‘coronéis’ dos grandes canaviais e das grandes fazendas de criação de bois dos sertões.
É lamentável que a força desses senhores se robusteça com o voto surrupiado da gente que se deixa ‘encabrestar’ por conta de pequenos favores. Mais lamentável ainda é saber que o poder oriundo desse sufrágio não serve somente para oprimir quem o concedeu; serve, também, para abrir a porta do Erário de onde tiram o dinheiro que usam para corromper essa mesma gente.
Sabemos que se não fosse os cofres Públicos, esses senhores não comprariam sentenças, não pagariam os jagunços nem aliciariam a elite corrupta para manipular as Leis e as urnas que lhes dão a força que exercem nos poderes que constituem o Estado.
Portanto, um dos maiores desejos que mexiam com a minha cabeça na minha juventude, era deixar aquele mundo regido por esses senhores da vida e da morte. Pensava na cidade, talvez ela fosse mais ampla e menos opressiva. Um dia, as nuvens arroxeadas que sombreavam meus passos haveriam de se dissipar, pois, um poeta que abominava a escravidão disse em seus versos:
“Toda noite ― tem auroras,
Raios ― toda escuridão.”
E tem mesmo, pois foi numa noite com relâmpagos piscando no horizonte longínquo que meu pai apeou do cavalo com um convite do seu primo Edson Gomes Lins para que eu fosse trabalhar em uma mercearia de sua propriedade, apelidada de “Barracão”, no do engenho Ouro Preto. Por incrível que pareça, era como se fosse uma centelha numa vereda escura, talvez ali aprendesse o modesto ofício de balconista que me levaria à cidade grande.
Um adágio chinês fala que as grandes caminhadas só foram possíveis após o primeiro passo. E foi o que me veio ao escutar o convite transmitido por meu pai. No dia seguinte, com treze anos incompletos, empreendi o primeiro passo em direção à estrada que o destino me reservara para palmilhar.
O meu ofício de vaqueiro passaria a ser desempenhado pelos meus irmãos, mais novos que eu. Clodomir, Edvalson e Jurandir ocupariam o meu lugar, passariam a cuidar do gado e das ovelhas enquanto eu partiria ao encontro do que a vida me acenara e o seu aceno, geralmente, é uma determinação.
Foi pensando no que poderia resultar dessa decisão que fui dormir mais tarde que o habitual, mas logo que ‘a barra começou a quebrar’ pulei da cama e me larguei para o curral onde as vacas esperam para serem ordenhadas. Nem me lembro em que mês isso aconteceu, mas deve ter sido em setembro, mês que se iniciava o corte das canas para a moagem.
Ainda procuro descobrir de onde veio a força que me fez agradecer as vacas o leite doado, a convivência, o calor que se desprendia dos seus corpos para aquecer o meu, enquanto, agachado, puxava-lhes as mamas nas frias madrugadas que envolvia o curral erguido nas proximidades do rio Jacuípe.
E como que não bastasse, antes de deixar o local, chamei-as. Sabia que era a última vez que apalpava suas tetas macias e mornas para fazer correr o leite que eu apontava para o vasilhame. Craúna, Barimbá e Talismã, as mais afetuosas, ao ouvirem os seus nomes, mugiram em resposta ao meu chamado.
Ruminando, devagarzinho, preguiçosamente, foram se chegando. Pressinto que captaram a tristeza que pairava no ar. Talismã foi a primeira a se chegar. E eu não demorei a lhe acariciar a cara, o lombo e as ancas, o que ela retribuiu cheirando-me os braços e lambendo-me as mãos, para em seguida deixar escapar um berro que entristeceu o curral e as profundezas do meu ser.
E o mugido de Craúna pareceu unificar os sons já emitidos por todos os seus ancestrais, era como se ela mugisse por todas as vacas e por todos os bezerros que estavam ao meu redor. Quem lida com gado sabe que esse mugido dolorido costuma ser emitido pela vaca à cria em situações aflitivas ou então para criaturas da sua mais alta estima. Achei-me uma delas…
Infelizmente tinha que lhes deixar, aproximava-se a hora da partida e eu não tinha outra saída a não ser abrir a porteira e açoitar-lhes as ancas com carinhosas palmadas, mandando-as pastar. Foi um instante muito sentido, pois eu tinha certeza que nunca mais nos veríamos… E o mais dolorido é que nada disso está sendo fantasiado. Foi verdadeiro, aconteceu!!
Antes procurasse evitar aquela despedida, como evitei das pessoas que vieram depois, especialmente as que me deram guarida em suas casas e me trataram com amor e cordialidade. Olga Nobre Lins, Luís Gonzaga da Silva, sua mulher Léa Marroquim de Almeida, sua sogra Amélia Marroquim de Almeida, meu tio Alexandrino de Barros Pereira, sua mulher Alaíde Cavalcante de Barros e muitos outros que contribuíram com o meu viver sem perspectiva de nada em troca, até porque o meu futuro era sombrio e as minhas limitações evidentes.
Esses nem tomaram ciência da minha gratidão… Rude, como ainda hoje sou, faltou-me coragem para soltar as palavras que serviriam para agradecer-lhes o pão, o teto e as amabilidades pouco usuais entre as pessoas.
Atarantado com o mugido de Craúna, o berro e os afagos de Talismã, esqueci o cavalo que pastava na várzea, às margens do Jacuípe, mas, assim que cheguei a casa larguei o balde de leite, peguei o cabresto e fui buscá-lo. Atirei-lhe a cela ao lombo, coloquei o rabicho, o freio e apertei-lhe a cilha para depois amarrá-lo à estaca da cerca que passava ao lado do alpendre.
Isso feito, já podia cuidar de arrumar os meus pertences. Era coisa de pouca monta como dizia o Mestre Graça. Umas três calças curtas, das que hoje chamam bermudas e umas camisas, tudo de pano ordinário. A escova para os dentes, o par de tamancos, os folhetos de cordéis que falavam de Lampião, Antonio Silvino e Senhor Pereira.
E como eu os admirava, especialmente do Senhor Pereira a quem depois tomei conhecimento que, como eu, procedia da mesma árvore genealógica.
Depois olhei em volta e constatando que nada mais me pertencia, fui ao porta-chapéus, peguei o meu feito de folha da palmeira ouricuri e levei à cabeça.
Cabisbaixo, saudoso dos meus, pulei na garupa do cavalo. Meu pai segurou as rédeas e tomamos o caminho da sede engenho. Aquecidos pelo calor do animal que nos conduzia, cavalgamos pela estrada repleta de bois, cavalos e ovelhas, escutando berros, impados e estalos de juntas resultantes das refregas dos machos com as fêmeas ‘alvoroçadas’.
Em cada lado do caminho a passarada cantando sobre os galhos da folhagem orvalhada e as flores gotejando o sereno que caía sobre elas. Esse gotejar ia se intensificando e se tornando mais intenso na proporção que o sol começava a aquecer em virtude de o seu despontar por traz da grota do urubu.
Tudo isso orquestrado pelos açoites dos tucanos, das arapongas e dos sabiás que ajudavam a alegrar o amanhecer. Ao atingirmos a segunda curva da ladeira do valado, avistamos, lá embaixo, o engenho moendo. O bueiro expelia uma fumaça branca que ganhava os céus para embelezar ainda mais a manhã primeira do meu passo inicial pelos caminhos da vida.
Continuo sentindo o cheiro do mel que se desprendia das tachas de cozimento como se fosse um propósito da Natureza para adocicar os campos, erotizar os viventes e despertar desejos aos que tinham o privilégio de aspirá-lo.
Enfim, chegarmos. Ao apearmos, Edson entregou-me a chave do “Barracão” e dando-me as instruções para o desempenho do modesto ofício de comerciário, fez ver que cada trabalhador compraria, ao amanhecer ou ao entardecer, o valor correspondente ao que ganhara no dia anterior ou no que transcorria.
Era norma corrente no meio rural para evitar o endividamento do trabalhador, pois, quando isso acontecia, dificilmente o miserável conseguiria saldar a conta e já que o ganho era pouco, para escapar a sujeição que o débito lhe submetia, quando a madrugada iniciava o seu curso, pegava a estrada e caía no mundo.
No engenho Ouro Preto, quando isso acontecia, Edson Gomes se enraivecia e por não permitir que ninguém lhe enganasse, mandava chamar seu Manoel Vaqueiro e ordenava que montasse os melhores cavalos e partisse com o irmão Antônio de Almeida à procura do fugitivo.
– E as ordens? – perguntava seu Manoel.
– Só voltem com ele!
Esporeavam os ágeis animais e partiam no rastro do fugitivo. Vasculhavam todos os arredores à procura do “caranheiro” para trazê-lo de volta ao trabalho a fim de saldar o débito que contraíra com a fazenda. Teve um que ao receber a “voz de prisão” tentou reagir, mas foi dominado e voltou tangido pelas patas dos ágeis cavalos.
Esse ao chegar, apesar de cansado e estropiado, reclamou da punição que lhe era imposta e ameaçou nova fuga, mas não teve êxito. Dormia trancado no Armazém de Açúcar e trabalhava com Amaro Firmino em seu calcanhar. As porteiras só lhe foram abertas quando pagou até o último centavo.
– Lei do cão! – disse ao sair.
Apenas os trabalhadores que não se encalacravam no “Barracão” iam à feira do pequeno povoado de Campos Frios, do outro lado do rio Jacuípe, em terras de Pernambuco. Essa feira era frequentada por gente dos engenhos Amapá, Vila Rica, Boa Sorte, Amoroso e propriedades outras situadas à sua volta.
Esses retornavam anchos, parecendo felizes. Uns traziam à cabeça o saco com gêneros de primeiríssima necessidade e à mão, pendurado por uma embira de um gramíneo chamado Lucas, conduziam o quilo de carne verde.
O engenho Ouro Preto era como se fosse um país. Se não tinha leis, tinha normas que ninguém podia infringir. E os trabalhadores do engenho quase não saiam, a não ser para a feira, aos domingos. Os “Barracões” de Edson e do Major tinham o necessário ao abastecimento de uma família modesta.
Eu, por exemplo, dificilmente atravessava os limites do enorme feudo, a não ser quando viajava a serviço da propriedade. Minhas saídas prendiam-se mais às matas de Ouro Preto, Pacheco, Santa Bárbara ou Canta-Galo, propriedades limítrofes, pertencentes ao mesmo conglomerado do Major Salu.
Na maioria das vezes, Edson convocava os irmãos Tejo e Amaro Firmino para nos acompanhar quando das caçadas nas matas. Eles conheciam todas as bibocas e, a exemplo de nós, sabiam lidar com cobras, como a surucucu pico-de-jaca, ofídio grande, valente e venenoso que infundia medo a quem frequentava as matas.
O meu irmão Clodomir, posteriormente, veio a se agregar à casa do Major com a finalidade de despachar em seu “Barracão”, mas perdera o agrego por desrespeitar as normas estabelecidas. Pois não é que ele inventou de ir a uma festa no povoado de Campos Frios e de lá resolveu ir à outra em Colônia Leopoldina por comemoração dos festejos da padroeira?
Ele confiou nos santos, não sabia que eles não tinham nenhum poder sobre o homem que tudo podia, tanto é que a punição que lhe fora imposta não foi revogada. O Major não gostou da sua ausência e mandou que juntasse os trastes e desaparecesse, fosse embora atrás das festas e dos santos.
Clodomir pegou o par de tamancos, as calças curtas e as camisas, surradas como as minhas, embrulhou em uma folha de jornal e saiu chorando por deixar o engenho e a molecada com quem brincava na bagaceira. E agora, com 13 anos de idade, aonde iria arranjar um agrego igual aquele?
Comigo isso não chegou a acontecer, porque logo cedo deixei de andar atrás de santos por achar que eles se alheavam as necessidades dos miseráveis, o que não acontecia em relação aos ricos. Esses nem precisavam lhes pedir porque tudo lhes era dado, como, nessa época eu ainda não sabia.
Fazer o que? O meu irmão enxugou as lágrimas e partiu para casa. Depois tomou o caminho da cidade onde conseguiu estudar e entrar para o serviço Público Federal. Hoje, aposentado, reside junto a Praça Dos Quatro Cantos, em Olinda, bem na beirinha do mar.
Trocou as barrancas do rio Jacuípe pela orla da praia de Olinda onde formou o casal de filhos que teve com sua mulher Arlete Lins de Barros. Clodomir de Barros Pereira Júnior é Arquiteto, funcionário público e professor de Arquitetura.
A filha, Jaqueline Lins de Barros tornou-se Ferraz ao casar-se com o jovem coronel Antônio Machado Ferraz, prestigioso oficial do Exército Brasileiro. Sempre ao lado do marido por onde ele comandou grandes quartéis e em missões militares de Paz a serviço do Brasil e da ONU, inclusive na Rússia onde esteve como Adido Militar. Tem um casal de filhos, a filha estuda e o filho, tenente Tiago Ferraz, um garoto de vinte e poucos anos serve à Aeronáutica como piloto da Força Área Brasileira.
Pelo exposto, chego a imaginar que os santos fugiram ao embate com o major para dar outro desfecho à vida de Clodomir. Mas vamos retornar ao dia a dia dos meus antigos afazeres, pois a minha intenção foi mostrar no que deu a perda do agrego e das brincadeiras com a molecada da bagaceira do engenho.
Retorno ao meu viver no engenho para lembrar que aos domingos à noite, no prédio onde funcionou a Destilaria de Aguardente assistíamos projeção cinematográfica. Os ingressos eram vendidos por mim, a preços simbólicos, para contribuir com o aluguel das fitas e os filmes eram rodados por Edson e assistidos com discreta vibração pelos moradores do engenho.
Toda quarta-feira, pela manhã, eu montava o cavalo Cigano ou no Chá Preto e tocava para Palmares, em Pernambuco, levando o filme que fora visto e retornando com o que seria exibido no domingo seguinte. Foi numa dessas viagens que ao atravessar a mata de Xareta, que ficava entre os engenhos Pau-Sangue e Japaranduba, já nas proximidades de Palmares, que um assaltante surgiu do interior de uma moita e agarrou às rédeas do cavalo Cigano.
Assustado, o animal tentou escapulir, mas pulou enviesado e suas patas erraram os camaleões, sulcos que os quadrúpedes formam com seus cascos nas estradas de barro em época invernosa. Peguei o cavalo nas esporas, ele saltou, mas caiu ajoelhado. Levantou-se, escorregou mais umas duas vezes até que se aprumou e escapuliu pela margem esquerda do caminho sem que eu me despregasse da cela. O assaltante tomou um banho de lama e não logrou êxito em seu intento.
Na volta deixei o atalho da mata de Xareta e retornei pela estrada que passava pelo engenho Pau-Sangue, pertencente a José Américo de Miranda. Cavalgava cinqüenta e seis quilômetros, ida e volta, e chegava com tempo para atender aos trabalhadores que largavam do corte de cana, da limpa do mato, do plantio de canas realizado por sulcos cavados com enxadas ou arado puxado a bois.
Numa dessas idas o meu padrinho de batismo, professor Brivaldo Leão de Almeida informou que o emprego que me prometera, esperava-me. Exultei ao ouvir que o sonho iria tornar-se real pois, não tardaria retornar à cidade onde havia morado na infância.
Comuniquei ao Edson a minha decisão e, por sugestão de meu pai, fui à cidade de Catende, em Pernambuco, convidar Toinho, filho de Antônio João, para voltar a Ouro Preto e ocupar o meu lugar no “Barracão”. Aceito o convite, assim que ele me substituiu, coloquei minhas roupas no velho bornal destinado a conduzir os apetrechos de caça, ou seja, a pólvora, o chumbo, as espoletas e as aves por mim abatidas.
Despedi-me de Edson, não de sua mulher Olga que se encontrava em Maceió.
Cabisbaixo, pendurei o bornal no ombro esquerdo e no direito a espingarda umbiguda, dessas que se põe a carga pela boca do cano, feita por ferreiros da região. Agradeci a boa acolhida, coloquei na cabeça o surrado chapéu de palha que hoje chama artesanal e iniciei o segundo passo da caminhada que iria empreender por um mundo que eu desconhecia suas maldades e suas cruéis armadilhas.
Ao deixar a casa que me acomodara, desci a encosta, passei pela biqueira do engenho e ao atravessar o paredão do açude, ainda hoje existente, acenei ao Biu Miro que banhava os cavalos do Major. Ainda me lembro que pensei no fato dele não saber ler, achando eu que se ele soubesse poderia ter uma vida menos sofrida por ser um grande interprete da música popular brasileira.
– Vai mesmo, Cáu?
– Já estou indo, Biu!
– Então vai com Deus, meu fio!
Retribui-lhe a amabilidade enquanto caminhava em direção à subida da ladeira do valado, parando somente no topo para abrir a porteira e voltar o meu olhar ao grutilhão onde fora plantado o casario sede. Tentei ver o prédio do engenho, o bueiro, a Destilaria de Aguardente, a Casa de Bagaço e a Igrejinha de Nossa senhora de Fátima. O bueiro já não soltava fumaça, mas o Major estava de pé simbolizando uma época de bonança que não havia passado.
Lá embaixo observei as três casas-grandes onde residiam o patriarca, o filho e o neto. Em volta delas, podia se avistar umas trinta das cento e vinte que se espalhavam pelas terras de Salustiano de Barros Lins. Num daqueles casarões, onde já havia morado com meus pais, eu acabara de passar mais três dos meus dezesseis anos de existência.
Assim que soltei a porteira e escutei o seu baque no mourão ferindo o silêncio daqueles ermos, voltei o meu olhar ao norte e do topo do morro os meus olhos avistaram as terras de Pernambuco, os canaviais dos engenhos Porto de Folha e Vila Rica que se espraiavam pelo vale do Jacuípe, por onde a vista alcançava.
Foi contemplando aquele mundo estendido em minha frente e pensando no meu despreparo para enfrentá-lo que, ao passar pela casa de João Tomaz, lembrei-me que fora ali, numa manhã de setembro, que meu pai, ao cruzar com João Braz tomara ciência do meu nascimento.
Achei cedo para tamanha caminhada porque havia vivido somente dezesseis anos, mas fazer o que? Apressei os passos para as margens do Jacuípe, onde os meus continuavam morando. Na manhã seguinte fui para a beira da estrada e subi na carroceria do primeiro caminhão que passou em direção à Palmares.
A partir dali, a minha espingarda não mais fustigaria os tucanos nas altas copas das árvores nem meu corpo suado mergulharia nos riachos perfumados pelas flores dos jasmins e das ingazeiras que sombreavam suas águas.
Os meus ouvidos teriam que passar sem o coaxar dos sapos e sem o farfalhar das árvores que se misturavam ao marulho das águas para formar sons tão harmoniosos que somente a Natureza seria capaz de compor e orquestrar.
Enquanto pensava no meu despreparo para enfrentar a vida, os meus passos avançavam no sentido contrário ao mundo virgem, cercado por matas seculares, onde vivi parte da minha meninice. Cheguei a pensar que tudo ali era eterno, jamais se acabaria. Eu continuaria cavalgando atrás dos bois, caçando nas matas e me banhando nas águas cristalinas dos rios e dos riachos.
Mas não foi assim, nada se eternizou… Na vida tudo passa, escreveu outro menino chamado Manoel Bandeira que viveu na casa do seu avô na Rua da União, em Recife. Ele também achava que aquela casa seria eterna, jamais passaria, mas a verdade é que tudo se foi, que nada é para sempre.
Também pudera… Pelo que sei, nas minhas artérias borbulham o sangue europeu, o africano e o indígena. Esses dois últimos, além de me dotar da rebeldia que caracteriza essa gente, aciganou-me, e cigano não se planta em lugar nenhum, vive correndo mundo, fugindo da miséria, escapulindo da opressão. Nessa correria enveredei por caminhos íngremes e tortuosos à procura de um lugar menos sofrido, onde pudesse me juntar a pessoas desejosas de lutar por dignidade e liberdade.
Apesar das muitas andanças, nunca esqueci as pessoas que venho deixando por onde passo, especialmente as que continuam trabalhando nos engenhos da minha terra.
Também não saíram da minha lembrança as que partiram à procura doutros horizontes.
Nem as que passaram a dormir “profundamente”, como dormiram Totônio Rodrigues, Tomásia e Rosa depois daquele São João quase perdido no tempo, não fosse um menino chamado Manoel Bandeira, que veio a se tornar um grande poeta.
Eu não me tornei poeta, porém, por mais de um São João, tal qual o menino, também peguei no sono e não viu as brasas das fogueiras transformarem-se em cinzas por mais de um lugar por onde andei nas minhas peregrinações pela vida.
Que bom se nessas minhas caminhadas encontrasse quem me ensinasse a segurar uma caneta para escrever sobre os momentos vividos nos lugares por onde passei, porém, se isso não vir a acontecer, asseguro que essas linhas bastam porque são verdadeiras.
Era assim que eu vivia.