Eu venho das madrugadas

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Assim que os primeiros raios solares começavam a penetrar pelas frestas abertas entre as telhas que cobriam a nossa casa, eu e meus irmãos pulávamos da cama e acompanhávamos o nosso pai que se dirigia ao curral para tirar o leite das vacas. Cada filho levava um copo com um pouco de mel de abelha uruçu para misturar ao leite cru, que tomávamos morninho, tirado na hora, daquelas benditas, róseas e adoráveis tetas.

    Foi com ele que aprendemos a massagear, carinhosamente, os mamilos daquelas enormes fêmeas para que deles desprendessem o saboroso líquido que nos servia de alimento. Nessa época, eu beirava os 13 anos, era raquítico e tinha o crescimento retardado, mesmo assim já tirava leite, laçava uma rês e montava a cavalo para correr gado. Já sabia empunhar uma foice, uma enxada e começava a manusear com certa destreza o revolver, a espingarda e o rifle 44, coisas necessárias e corriqueiras nas brenhas onde me criei.

    Ciente dessas habilidades, meu pai logo me promoveu a vaqueiro e eu passei a tomar conta do pequeno rebanho enquanto ele aproveitava o tempo que dedicava a esta faina para cuidar doutros afazeres. Em virtude dessa atribuição, passei a levantar da cama pela madrugada, com a réstia da lua se antecipando aos raios solares para penetrar pelas mesmas frestas do telhado e se projetar no chão de tijolo batido. Isso quando era tempo de lua, quando não, teria que enfrentar a escuridão até que o sol começasse a surgir por trás do morro que fazia divisa com o engenho Amapá, de propriedade do ‘coronel’ Laurentino Gomes de Barros, onde seu filho Paulo Gomes plantava canas e criava gado.

    Meu pai deixava a cama primeiro que nós. Era bem entoado e gostava de cantar, especialmente canções como Jardineira, Aurora ou Acorda Maria Bonita. Apesar de fumante voraz, a sua voz era agradável e o seu canto bem entoado. Depois dele era eu que deixava o catre para vestir a bermuda, colocar o chapéu de palha, os pés descalços no chão gélido e tomar o caminho do curral para cuidar da minha nova tarefa. Fosse inverno ou verão, fizesse frio ou não, teria que pisar o pasto orvalhado ou a terra enlameada para ir puxar as tetas daquelas vacas que amanheciam com os úberes bastante apojados.

    E foi levantando da cama com a lua ainda singrando por entre as estrelas para poder dar vez ao sol, que me enamorei das madrugadas e, por conta desse idílio, atravessei noites para viver a sua aragem. Essa convivência com os clarões que arrebentavam a escuridão para dar lugar ao dia me fez sentir que as madrugadas não somente acalentavam a vida, mas, eram, também, portadoras de esperanças para cada amanhecer.

    Sem a lua, o que seria dos sonhos reprimidos e das almas desalentadas? Gostaria que ela continuasse contribuindo para que eu jamais arrefecesse a minha participação na luta pela construção de um mundo onde se cultuasse a Justiça e se lavrasse a terra para plantar a semente do trigo que seria destinado a todos os viventes.

    Acho tedioso habitar um mundo sem Pão e sem Justiça! Para que isso aconteça, necessitamos da terra para plantar o trigo que sacia a fome e da Justiça para ser aplicada com esmero, a quem dela necessite, independente do credo, da condição social ou da cor da pele de cada pessoa.

    Hoje, recordando aqueles dias vividos, passo a ansiar por novas madrugadas… Elas poderiam tornar menos amarga à travessia dessa noite infinda e afugentar a escuridão que se faz presente no silêncio da minha existência solitária. Mas, aguço os ouvidos e só escuto o longínquo pio de uma coruja agourenta. Olho ao redor, tudo parado, nada se move. Nenhum atrativo, nenhuma vibração. E esse estado de alma leva-me a ruminar lembranças de um passado sombrio que se mistura a miragens de um futuro lúgubre, confuso e fantasmagórico.

    Mesmo assim persisto, porém, o instante se faz árduo. Lembro-me dos que me falavam que um dia escutaríamos gemidos, soluços e ranger de dentes… Concentro-me, atiço os sentidos, fixo o olhar e sabe o que vejo? Eu vejo o meu espírito alçando voo, singrando o oceano azul dos céus e sumindo na imensidão do cosmo, no rumo do berçário das estrelas, lá pras bandas do Trapézio de Órion. Preferiu esse caminho a viver animando um corpo exausto de tanto batalhar contra a ganância, a hipocrisia e a estupidez.

    E os sonhos tantas vezes sonhados? Espero que não sucumbam no infinito gasoso dos céus e se estraçalhem em sua imensa vastidão… Um espírito rebelde e aciganado dificilmente aguardará o clarão de um novo amanhecer, está sempre a alçar voo, mesmo sem vislumbrar um galho aonde venha, ao menos, descansar o corpo esquelético e as asas depenadas pelas refregas das constantes revoadas.

    Olhei novamente para ver se conseguia visualizá-lo, impossível. Provavelmente já se integrara à Estrela Maior, a que capta e congrega todas as energias.

    Despojado da força energética que lhe sustentava a existência, o meu corpo voltou a integrar-se ao pó, ou seja a terra de onde viera, para devolver os elementos necessários a nutrição dos frutos que haveriam de energizar novas vidas. Bem, isso eu escutei das pessoas com quem eu frequentava as madrugadas, portanto, se assim for, eternizar-me-ei por intermédio dos frutos que alimentarão novas vidas.

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