Reflexões de um terráqueo

Autor:  Clodoval de Barros Pereira

“Não basta que seja pura e justa a nossa causa.

É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.”

 Agostinho Neto

foto do Homo sapeam

Homo neanderthalensis (0,03 – 0,3 milhões de anos atrás)

Conheci pessoas que mudaram de nome, mas eu continuo com o mesmo que recebi após ver a luz. E a gente dessa época sabe disso porque escutava minha mãe assuntando sobre meu destino, previa que seria bom, que me faria feliz.

Contava ela que eu falava em sua barriga antes de nascer, o que me intrigou, pois, ainda não aprendi a conversar. Cheguei a pensar ser obra do espírito do nosso último elo, o Homo neanderthalensis, sugerindo-me experiências vividas.

Com o passar do tempo desejei desvendar os mistérios das minhas falas e das razões que me fizeram juntar-me aos que desejavam melhorar a vida dos trabalhadores implantando uma nova ordem política, econômica e social.

Tantas vezes, procurando respostas às minhas indagações, esquecia o olhar entregue ao ocaso do entardecer… E era tanto o meu alheamento que nem percebia o momento que ele se fundia à noite para formar um manto escuro sobre a terra.

E sob essa coberta, eu enxergava lances vindos da minha memória, a exemplo da chama trêmula que se elevava do pavio de um candeeiro pendurado numa parede de taipa, numa casa erguida à beira de um riacho que marulhava noite e dia.

Mas o tempo se encarregou de mostrar que eu era um mamífero dotado de amor e ódio e poderia escolher um ou outro para usar a serviço da humanidade. Optei pelo amor ao imaginar na possível necessidade de usá-lo na neutralização ódio.

Optei por essa escolha ao saber que nossa espécie era guiada por um instinto libidinoso que inquietava os machos e as fêmeas ao ponto de não resistirem a força emanada por ele e se deixarem levar ao extremo da bestial irracionalidade.

Será que os irracionais são tão abusivos com os seus como nós com os nossos? Acho-os comedidos, até por não explorarem sua espécie nem importunarem suas fêmeas, a não ser que manifestem fisiológica e instintivamente seus desejos.

E lembramos que os elefantes não desprezam os seus especialmente se percebem que a morte os ronda. A nós, já houve quem nos alertasse sobre a prática do amor e da solidariedade, mas continuamos egoístas, odientos e insaciáveis.

Precisamos meditar sobre o rumo que escolhemos ou nos foi imposto. É comum aos impostores pensar em encher suas panças e berrar contra o aborto sem se preocuparem com o destino das grávidas famintas e abandonadas.

Não devemos esquecer que essa é uma das violências que também servimos de instrumento. Creio ser uma herança ancestral, contudo, apesar de rústico terráqueo, ofereço-me para o combate, desde que se reparta o fruto do trabalho produzido.

Finalizo essas reflexões lembrando aos cristãos que antes de Karl Marx recomendar “a cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo a sua necessidade, um Galileu há dos mil anos já repartia com  ” cada um, segundo a necessidade que cada um tinha.”

Maceió, 17 de junho de 2016

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