O século que passou ligeiro

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Em conversa com meu pai sobre sua passagem pelo engenho Ouro Preto, ele contou que seu tio Salustiano de Barros Lins havia comprado o engenho no ano de 1914, para onde se mudara de olhos na agroindústria e na pecuária. Homem afeito aos negócios, não deixaria de levar consigo o comércio de secos e molhados que exercia no povoado de Campos Frios.

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Major Salustiano de Barros Lins

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Um senhor de engenho

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Nas conversas com o meu tio Alexandrino a respeito de homens afortunados ele sempre apontava o seu tio Salustiano de Barros Lins, proprietário do engenho Ouro Preto, como um dos homens mais ricos que havia conhecido. Achando um despropósito, eu contestava:

– Ah, isso não! E Henry Ford? E Matarazzo?

– São uns mendigos comparados ao major Salu. Seus empregados vivem de bolsas penduradas nos braços comprando mengalhos para ele comer. O meu tio não! O meu só compra sal, o resto ele produz em sua propriedade e da melhor qualidade. É isso o que eu considero riqueza. Nunca vi crise que cruzasse as porteiras que dão acesso ao seu engenho.

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Triângulo das águas

Comentários: Clodoval de Barros Pereira

     No tempo que eu vivia lidando com gado nos arredores da Vila Princesa do Vale, conheci a fazenda Triângulo das Águas, situada acima da confluência do rio Camaragibe com um de menor porte que desce pelo Vale da Pelada. Esse nome lhe fora dado por ser cantada como a mais bela das fazendas daquela região e por situar-se na confluência dos dois rios.

     Mariano herdara Triângulo das Águas depois da morte de seu pai, o velho Julião. Algumas gerações haviam passado pela terra generosa e se alimentado dos frutos que dela brotava. Era um bem de família que vinha passando de geração para geração.

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Nas pegadas dos Barros Pereira

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Por intermédio de familiares tomei conhecimento que o meu avô paterno Umbelino Victoriano Pereira fora trazido de Portugal para o Brasil nos idos de 1870. Contava ele meses de idade quando deixara a cidade do Porto para cruzar o atlântico num vapor, junto a outros parentes, sob o comando dos seus pais, os portugueses Miguel Luiz Pereira e Ana Maria Pereira.

     Conta tio Mário de Barros que quando menino ouvia os tios comentarem sobre a viagem do seu avô e que um dos comentários se referia a uma sugestão que um passageiro fizera a Miguel Pereira no sentido de aplicar uma meizinha em um ferimento existente no nariz de um dos seus filhos.

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O soluço da indignação

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Sempre que a saudade me fustiga o coração, retorno para rever as brenhas onde nasci e passei os primeiros anos de minha vida, correndo atrás de bois e caçando animais silvestres, tal qual um selvagem, alheio ao que se passava no mundo.

     E foi dessa terra onde passei a minha meninice que tive de partir à procura doutra que me ajudasse a sair da ignorância em que vivia mergulhado. E encontrei a terra que procurava onde aprendi o suficiente para ler algumas obras de cunho socialista nas quais aprendi que Deus fez o mundo para todos os viventes, porém, meia dúzia de espertos se tornou dono dele.

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Carta do poeta Milton Alves a Clodoval

João Pessoa, PB, 15 se setembro de 2011.

     Estimado primo Clodoval de Barros Pereira

     Saúde e paz.

     Recebi seu e-mail de 11 do corrente, trazendo-me as boas novas que me confortaram o espírito, a alma e o meu sentimento de cristão convicto. Para mim foi comovente esse comentário que me fez você, despretensiosamente, focalizando minha pessoa, meu viver e as realizações que sedimentei no caleidoscópio da vida, como expressão do meu destino e do meu eu enquanto apenas um micro-fragmento do Universo em que nascemos.

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Sonetos de Milton Alves de Sousa

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Como afirmei em Carta ao Leitor que postaria neste BLOG tudo o que fosse bom e servisse para dar ênfase às coisas boas da vida, vou postar alguns dos sonetos do pernambucano Milton Alves de Sousa por conterem mensagem, serem tecnicamente perfeitos e temperados com poesia, ingrediente que dá alma ao verso.

     Quero deixar claro que o Milton não me autorizou que falasse sobre ele nem que publicasse seus poemas, porém, como sou ousado, não costumo perguntar as pessoas o que devo fazer quando tomo uma iniciativa. Se exagerar no meu intento, respondo pelos excessos e se condenado expio sem reclamação, desde que a pena seja justa.

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Coisa de Comunista

Autor: Clodoval de Barros Pereira

À estimada companheira, Professora Maria Alba Correia, estas linhas acompanhadas da minha profunda admiração por sua luta em favor dos oprimidos.

     Se o dia de ontem não me foi agradável, provavelmente, o de hoje não será tão favorável, por isso vou ficar recolhido à clausura da minha moradia onde posso repensar os acontecimentos. É nela que refaço as energias para os embates em favor da causa dos oprimidos.

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Noites infindas

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Assim que o dia começava a clarear, eu e meus irmãos pulávamos da cama e seguíamos meu pai em direção ao curral onde ele ia tirar o leite das vacas. Cada filho levava um copo com um pouco de mel de abelha para misturar ao leite cru que tomávamos morninho, tirado na hora do peito da vaca.

     Foi com ele que aprendemos apalpar, carinhosamente, as tetas das enormes fêmeas para que elas soltassem o precioso líquido que nos servia de alimento. Nessa época, beirando os 13 anos, eu era um garoto raquítico, de crescimento retardado, mesmo assim já sabia laçar uma rês, montar num cavalo e correr gado. Sabia até empunhar uma foice, uma enxada e até mesmo um revolver, uma espingarda ou um rifle 44, coisas corriqueiras àquela época naquelas brenhas.

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