Minha bisavó Olímpia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Meu pai costumava se referir com especial carinho a sua avó Olímpia da Veiga Figueiredo Accioly de Barros Lins a quem ele e seus irmãos chamavam de Dindinha.

    Segundo ele e meus tios, Olímpia era uma mulher bonita, trabalhadora, corajosa e de muita fibra. Casara com Umbelino Accioly de Barros Lins, como ela, integrante de famílias vindas de Portugal. Essa gente se espalhava por Cabo de Santo Agostinho, Sirinhaém, Rio Formoso, Barreiros e Porto Calvo para onde já havia vindo Cristovam Linz. Essa gente começou a se misturar com os Pereira, os Vasconcelos, os Buarque de Holanda e Albuquerque e passando a desenvolver, como eles, as atividades peculiares à região, ou seja, o Comércio e a Agricultura.

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Uma perda inesquecível

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Em uma das crônicas que escrevi no ano de 2013, eu falava “dos meus pés estropiados amassando relvas para abrir uma vereda que me oferecesse condições de caminhar a procura de um lugar onde fosse possível permutar a minha força de trabalho por um salário que possibilitasse a compra do alimento necessário a minha subsistência.”

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 Clodoval com Dr. Salustiano no Engenho Ouro Preto

    Recordo que nessa crônica, ao relatar as dificuldades encontradas para atender meus objetivos, eu falava dos homens que fizeram do seu saber um instrumento a serviço da humanidade. E falei de Helder Câmara, de Evaristo Arns, de Gregório Bezerra, de Carlos Mariguella e Che Guevara. E falei de outros mais, inclusive de Salustiano Gomes Lins a quem nós, seus familiares, carinhosamente, chamávamos de Luzinho.

    Como eu e alguns dos meus irmãos, ele também nasceu no engenho Ouro Preto, inclusive seus irmãos Edson, Manoel Enildo e José Gomes Lins. Todos ainda meninos foram estudar em Recife onde ele, depois de cursar Medicina, após os cursos de praxe, passou a ocupar uma cadeira de Professor de Neurologia na Universidade Federal de Pernambuco e atender em sua Clínica no Bairro das Graças aos clientes daquele Estado e dos Estados vizinhos.

    E eu, por ter acompanhado, à distância, sua vida profissional, procurei incluí-lo entre os que, naquela crônica, escolhi para homenagear. Essa escolha foi por conta do seu empenho em aliviar ou sanar os sofrimentos dos que padeciam de doenças neurológicas, a exemplo da epilepsia.

    Portanto, foi da crônica, A GRANDE TRAVESSIA, que extraí o texto abaixo:

    “Não faz mal acrescentar que o professor Salustiano Gomes Lins, além de poeta e escritor é um dos pioneiros no trato da Epilepsia e Neurofisiologia em Pernambuco, onde criou o primeiro laboratório para o estudo do sono no Brasil, provavelmente no continente Sul Americano. Sobre Epilepsia e Neurologia, o ilustre Médico escreveu livros que lhe deram ingresso à Academia Pernambucana de Medicina.

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 Nesta foto de 2014, Dr.Salustiano em pé, sorridente, e seus três irmãos sentados

    Alonguei-me sobre seus feitos por testemunhar o quanto ele se entregou ao estudo das doenças Neurológicas, especialmente a epilepsia, doença perversa que sempre causou e ainda causa grandes transtornos ao paciente e a quem dele cuida. Pois, como é do conhecimento geral, se não houver tratamento o desencadeamento da crise se faz constante e pode levar a acidentes de conseqüências lamentáveis.

Presumo não ser cansativo enfatizar que essa homenagem se faz merecedora de crença por ser escrita por quem não estudou o necessário para aprender fantasiar, pois a vida só me deu duas opções, ou correr atrás das letras ou do pão. E eu fui forçado a escolher a última opção e tenho certeza de que, se assim não fizesse, não estaria agrupando esses vocábulos.

E para robustecer a veracidade dessa homenagem insisto em afirmar que tenho como companheira uma Neurologista, uma filha Pneumologista, um filho Cardiologista e outro advogado e como nora e genro, uma Oftalmologista e um Fisioterapeuta que, por sinal, são todos bem qualificados e bem sucedidos.

Como podemos observar, citei os meus porque se o meu desejo fosse atirar pétalas, escolheria algum deles, até porque, também, se dedicam a nobre missão de aliviar dores e tentar curar os males dos que sofrem.”

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 Leila e Clodoval Junior na Fazenda Arizona, em casa de Lúcia e Salustiano Gomes

    E foi no desempenho dessa missão que a minha filha Leila, que estava de plantão no Real Hospital Português, foi procurada por uma Médica Neurologista solicitando seu atendimento a um paciente que o serviço de triagem lhe encaminhara, mas não se tratava de caso de sua especialidade.

    Leila fez ver que sua substituta acabara de chegar e estava saindo para um plantão noutro Hospital, mas a Médica insistiu acrescentando que se tratava do doutor Salustiano, um Médico famoso, a quem a medicina muito devia. E Leila:

– Ah, ele é primo do meu pai! E o meu pai gosta muito dele.

    Retornou, vestiu a bata e foi recebê-lo, examiná-lo, fazer seu prontuário e encaminhá-lo para os procedimentos recomendáveis. Conversaram, e ela falou sobre os banhos tomados em sua meninice na piscina da fazenda Arizona, pertencente aquele que ela examinava e tanto admirava.

    Disse-me ela que ele descontraiu um pouco e chegou a falar do prazer de ser atendido pela menina que carregara nos braços, dizendo sentir-se feliz por não ser de praxe chegar a um Hospital e ser recepcionado por um profissional risonho, atencioso e encorajador como ela.

    E para maior coincidência, no dia seguinte, o meu filho, o cardiologista Clodoval de Barros Pereira Junior, visitando um dos seus pacientes na UTI, encontrou-o ao lado daquele que visitava. Conversaram e o respeitável Professor de Neurologia da Universidade Federal de Pernambuco também gostou de rever o menino que, com a irmã, também frequentara sua fazenda e se banhara em sua piscina.

    Isso acontecia porque eu também tinha uma pequena fazenda nas imediações e quando ele, em companhia de sua mulher Lúcia Gomes de Barros Lins se deslocava de Recife para rever seu gado e suas plantações em Joaquim Gomes, aqui nas Alagoas, costumava escrever pedindo que eu fosse até lá para conversarmos sobre temas variados, inclusive gado e agricultura.

    E em meus modestos arquivos repousam essas cartas e esses bilhetes.

    E eu sempre lhe atendia, pois sua amizade era sincera e até me engrandecia. Se tivesse que nominar alguns dos seus atributos diria que era um homem de bom caráter, de muito saber e que primava por tudo o que fazia. Era um bom filho, um bom esposo, um bom pai e um excelente amigo.

    A ele devo ensinamentos a respeito da vida e préstimos que nunca me foi possível pagar, especialmente agora que ele já não está entre nós.

    Ainda bem que, para preencher sua lacuna, ele nos deixou duas filhas Médicas, Lavínia e Lívia e o filho Otávio a quem Clodoval Junior se refere como Cientista, pois assim ele é visto pelos meios Universitários e Hospitalares de Pernambuco.

    Entristecido, lamento profundamente a falta que Salustiano Gomes Lins começa a fazer aos seus familiares, aos seus amigos, aos seus discípulos e a Humanidade, a quem ele tanto se dedicava.

Maceió, 29 de março de 2015.

 

O século que passou ligeiro

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Em conversa com meu pai sobre sua passagem pelo engenho Ouro Preto, ele contou que seu tio Salustiano de Barros Lins havia comprado o engenho no ano de 1914, para onde se mudara de olhos na agroindústria e na pecuária. Homem afeito aos negócios, não deixaria de levar consigo o comércio de secos e molhados que exercia no povoado de Campos Frios.

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Major Salustiano de Barros Lins

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Um senhor de engenho

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Nas conversas com o meu tio Alexandrino a respeito de homens afortunados ele sempre apontava o seu tio Salustiano de Barros Lins, proprietário do engenho Ouro Preto, como um dos homens mais ricos que havia conhecido. Achando um despropósito, eu contestava:

– Ah, isso não! E Henry Ford? E Matarazzo?

– São uns mendigos comparados ao major Salu. Seus empregados vivem de bolsas penduradas nos braços comprando mengalhos para ele comer. O meu tio não! O meu só compra sal, o resto ele produz em sua propriedade e da melhor qualidade. É isso o que eu considero riqueza. Nunca vi crise que cruzasse as porteiras que dão acesso ao seu engenho.

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