Tempos penosos

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     As pessoas que nascem no campo e crescem sentindo o cheiro da terra, das plantas e dos animais dificilmente se acostumam levar a vida na solidão das cidades tumultuosas. Esse foi um dos problemas que meu pai teve que enfrentar ao deixar o campo e partir para morar em Palmares, cidade que ele simpatizava mas não se adaptou, teve que retornar aos seus velhos pastos, às terras do vale do Jacuípe, no Estado das Alagoas.

     Resoluto, juntou a filharada e, dessa vez, retornou ao engenho Ouro Preto de propriedade do seu tio Salustiano de Barros Lins. Aquele era o mundo que ele conhecia e gostava e que nós também conhecíamos e gostávamos, porém, precisávamos nos readaptar para, mais uma vez, enfrentá-lo. Nada estranho, apenas um exercício a mais em terreno acidentado, onde as encostas e os pequenos baixios nos retemperam para a luta ao contrário das planícies, que nós, oriundos das terras acidentadas, achamos enfadonhas e desanimadoras.

     Nunca pisamos estradas macias, nossos caminhos sempre foram ásperos, mas a vida tinha que ser tocada nem que fosse a pontapé. E para que isso acontecesse, meu pai partia quando o dia raiava e retornava à noite, montado num cavalo tão cansado quanto ele.

     Geralmente ele chegava e nos encontrava amedrontados. A “rasga mortalha”, pequena coruja agourenta, contribuía com o nosso pavor sobrevoando a cumeeira da casa e emitindo sons matraqueados que nos apavorava e afugentava os cachorros que passavam a uivar.

     O som que ela emitia, além de perturbar o nosso sono, insinuava maus presságios e só descansávamos quando ouvíamos o ranger da porteira e o seu baque no mourão. Era ele. Começava a falar anunciando a sua chegada e o medo que nos atormentava, sumia. Apeava festejado pelos cães que pulavam e ganiam de alegria por vê-lo chegar. Deitados em nossas camas, encolhidos sob nossos lençóis, ouvíamos o poc, poc, das caudas dos cachorros batendo na parede do terraço, respondendo-lhe à saudação.

     Tempos penosos aqueles. Levávamos uma vida muito modesta, não tínhamos energia elétrica, não tínhamos rádio nem sequer um relógio que pudéssemos ver as horas. Calendário não existia, nem nos fazia falta, se nada tínhamos para contabilizar, para que saber quantos dias ou quantos anos, haviam se passado?

     Rádio? Quando tivemos, só serviu para anunciar as más notícias porque as boas os governantes silenciavam para se beneficiarem delas. Meu pai até gostava de escutar os noticiários, mas não tolerava ouvir falar das ladroeiras dos prefeitos, dos deputados, dos governantes. E era mais disso que o rádio falava e continua falando até hoje.

     Relógio? Não precisávamos, tínhamos o sol para nos apontar a hora de prendermos os bezerros, ordenhar as vacas e executar as tarefas que a vida exigia para podermos sobreviver.

     Música? Ah, a música vinha do canto dos pássaros, do mugido das vacas, do balir das ovelhas; vinha até do coaxar dos sapos que viviam na beira do Jacuípe. A Natureza, maestrina sábia e boa, nunca deixou de orquestrar esses sons para acalentar as nossas vidas.

     Não sabemos por que, mas o destino sempre nos empurrou para as margens dos rios. Chegamos a habitar as duas margens do Jacuípe, a esquerda do Una, em Palmares, a esquerda e a direita do Camaragibe em Joaquim Gomes e também a esquerda do riacho de Pacheco, em cujas barrancas mergulhei na vida.

     Meu pai sempre gostou dos rios e costumava dizer que a fome investe, mas não faz morada na mesa de quem habita as suas margens, pois além do peixe ele oferece os terrenos de aluvião onde se plantando, tudo dar, como escreveu Caminha, em carta ao rei de Portugal, D. Manoel I, numa sexta-feira, 1º de maio de 1500, ao se referir à descoberta do País que hoje habitamos.

     Do outro lado do Jacuípe, a uns dois quilômetros, abaixo da nossa morada, ficava o povoado de Campos Frios, povoado pertencente ao Município pernambucano de Água Preta. Foi lá, com a professora Maria dos Anjos Gomes Lessa que concluí o curso primário. Dona Maria por ser uma professora muito exigente e dedicada ao ensino, não perdoava o aluno vadio. Os que não aprendessem a lição ficavam presos, dormiam no chão, em esteiras, na sala onde funcionava a escola. Eu mesmo, por não integrar o rol dos bons alunos, provei da solidão duma tarde que emendou com uma longa noite e a manhã seguinte, saindo somente depois de demonstrar minha sapiência em relação a tarefa escolar a mim atribuída.

     Ao terminar o primário, não tendo onde continuar os estudos, passei a cuidar com mais afinco do gado e das ovelhas. Meu pai tinha umas vaquinhas que puxávamos das suas tetas o leite que tomávamos e comíamos com cuscuz de milho ralado em casa, abóbora, batata-doce e demais alimentos vindos do pomar ou do roçado. A pequena sobra era vendida no povoado de Campos Frios para ajudar nas despesas da casa.

     Nessa época vivíamos tão isolados que essas vaquinhas faziam parte do nosso convívio, eram como se fossem entes queridos que pertencessem a nossa família. Mansas e boas dividiam conosco o leite que a natureza lhe destinara para o sustento dos seus filhos.

     A nossa madrasta, Maria do Carmo, dizia que barriga era bicha besta, com qualquer coisa se enganava. E era, e continua sendo verdade. Apesar das dificuldades, sempre aparecia o que comer. Tínhamos o pomar, o roçado, o leite e o rio. Esse muito nos ajudava com os peixes que meu pai pescava conosco. O alimento para a barriga sempre aparecia, para o espírito era restrito, quase não existia.

     Não nos relacionávamos com pessoas que habitavam lugares existente fora do mundo em que vivíamos. O nosso relacionamento era com a “molecada da bagaceira do engenho”, com nosso primo José Gomes Lins, a quem chamávamos de Zezito; Tonho Preto, Nêgo Chicau, Tejo, Antônio João, Amaro Firmino, Severino Ramos e outros filhos dos moradores do engenho. Severino Ramos era um dos mais assíduos companheiros: caçávamos nas capoeiras, lutávamos com o gado, corríamos a cavalo.

     Nos livros só pegávamos quando íamos para a escola; o nosso nível cultural era muito baixo, tão baixo que nada acrescentávamos uns aos outros. Desprezei o linguajar aprendido em Palmares e nivelei-me “à molecada do engenho”. Parei no tempo e retrocedi no saber.

     Nossa cultura vinha das matas, dos animais, dos banhos de rio e do vizinho engenho Porto da Folha, trazida por José Antônio que chegava com sua viola a tiracolo na casa do Nêgo Chicau. O pequeno mestre da música aguardava a noite cair para abraçar seu pinho e dedilhar as suas cordas.

     Ainda bem que seus trinados não chegavam aos ouvidos do proprietário, pois o major Salu não permitia nenhum tipo de pagode em suas terras. Meus irmãos Clodomir e Edvalson tinham os ouvidos mais aguçados que eu, logo que captavam o som da viola corriam para o arrasta-pé com a bela Mariquinha, irmã de Nêgo, o anfitrião.

     A voz de José Antônio juntava-se ao som das cordas sonoras de sua viola, navegavam no silencio da noite e chegava aos nossos ouvidos. Ainda me lembro desses versos:

“Eu vou comer batata
cum taquinho de carne,
eu vou comer batata
cum taquinho de carne…”

     A canção de José Antônio não falava de amor, não relembrava o passado nem buscava o futuro. Não sei, talvez lhe faltasse a crença num amanhã, onde os homens desejassem mais do que

“comer batata
cum taquinho de carne.”

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