Comentários: Clodoval de Barros Pereira
No tempo que eu vivia lidando com gado nos arredores da Vila Princesa do Vale, conheci a fazenda Triângulo das Águas, situada acima da confluência do rio Camaragibe com um de menor porte que desce pelo Vale da Pelada. Esse nome lhe fora dado por ser cantada como a mais bela das fazendas daquela região e por situar-se na confluência dos dois rios.
Mariano herdara Triângulo das Águas depois da morte de seu pai, o velho Julião. Algumas gerações haviam passado pela terra generosa e se alimentado dos frutos que dela brotava. Era um bem de família que vinha passando de geração para geração.
Fora nela que Mariano nascera e dela nunca arredara o pé. Conhecia palmo a palmo cada pedaço da sua planície e das ribanceiras dos rios.
Foi em Triângulo das Águas que a luz se fez em seus olhos e seu olfato se desenvolveu sentindo o cheiro da flora exuberante. Seu mundo era aquele, outro não conhecia nem tencionava.
Trabalhava de sol a sol e não arredava o pé a não ser para ir à Vila Princesa do Vale nos dias de feira onde comprava os mantimentos que a fazenda não produzia. Quando não, final de ano, ia assistir à festa da Padroeira, única coisa que Joana, sua mulher, fazia questão de participar ao lado dele e dos meninos.
Acompanhavam a procissão, participavam da missa e depois que reviam os amigos, embarcava na charrete puxada por dois bonitos cavalos castanhos que os devolveriam ao mundo que eles amavam.
Enquanto os animais roncavam o peito puxando a charrete e a estrela d’alva cintilava ao lado da lua que clareava a madrugada, Mariano comentava com Joana trechos do sermão feito pelo padre Luís Santos, inclusive aquele em que Jesus falara a respeito dos ricos impiedosos e avarentos. Dissera o Mestre que
“Era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus.”
Impressionado com o sermão do padre, Mariano retardara o sono, mais logo cedo estava de pé; quando Joana procurou o homem na cama, o lugar estava limpo.
Era costume, o dia ainda pardo, o marido correr ao curral para ordenhar as vacas. A mulher sentia-se feliz ao vê-lo chegar com aquela fartura de leite para complementar o café matinal.
Foi numa dessas manhãs, quando Mariano vinha da ordenha das vacas, que viu um automóvel vindo em direção a sua casa. O veículo parou e do seu interior saltou um preposto do proprietário da usina Cana Brava, que o povo apelidara de Fome Canina, e foi logo transmitindo o recado do usineiro:
– O doutor Rodrigo manda lhe convidar para almoçar com ele para conversarem sobre negócios. Amanhã, por essas horas, venho lhe buscar.
Mariano ficou perplexo com a convocação feita pelo homem mais rico da região e quis ouvir a opinião da mulher. E Joana, como a maioria das mulheres, foi encontrar em sua intuição o que achava do que acabara de ouvir:
– Mariano, um homem rico como o doutor Rodrigo, cheio de terras, dinheiro e capangas, quando se aproxima de gente pobre, coisa boa não pode ser. Eu falo pela boca do Padre Luís Santos, no sermão que ele fez na missa da festa da Padroeira:
“Quando um rico convidar um pobre para um jantar em sua casa o pobre tenha cuidado porque naquela mesa o rico lhe preparou uma traição.”
O marido ficou pensativo, baixou a cabeça e nada acrescentou.
Na manhã seguinte o carro levou Mariano à casa-grande onde o fazendeiro se deliciou com as guloseimas postas na mesa do doutor Rodrigo. A conversa girou em termos da reforma da fábrica. Graças à ajuda do governo, a usina aumentaria em mais de dez vezes a sua produção. Isso queria dizer que o doutor ia alargar a goela e a barriga da famigerada “Fome Canina” e em razão disso ela ia precisar de mais terras e mais canas.
E o usineiro aconselhou Mariano a vender o gado e usar o dinheiro no aumento do plantio de canas; se não estivesse disposto a isso lhe vendesse a fazenda, a usina estava com dinheiro, comprava.
Mariano olhava de lado e não via outra saída. Com quem contaria? Quem teria a coragem de contrariar o doutor Rodrigo para ficar do seu lado?
A usina tinha o apoio do governo que lhe permitia manter homens com rifles a tiracolo e fachos em chamas, nas mãos. Ao menor aceno, matavam, incendiavam e ai daquele que, ao menos, deixasse escapar um muxoxo.
O fazendeiro relutou e disse da impossibilidade de aceitar a determinação. A fazenda que recebera como herança, como herança também ia deixar para os filhos. Quanto ao empréstimo que o doutor lhe prometia, agradecia, mas não aceitava, pois, tinha mais medo de banco do que o cão tinha da cruz.
O doutor Rodrigo não se deu por vencido, pintou com cores vivas na imaginação do pequeno agricultor o progresso que alcançaria vendendo o gado para aumentar o canavial. Extrapolou nas promessas e apelou para o argumento que ele sabia convincente:
– E tem mais. Prometo! Vou ordenar ao balanceiro que não tire um quilo de suas canas, pese ‘direitinho’.
Mariano por ser homem de boa fé, acreditou no prometido.
– É doutor, sendo assim dá para ganhar um dinheirinho.
Eufórico, o doutor Rodrigo brindou a vitória do seu intento com um aperto de mãos entre ele e o agricultor.
Terminado o almoço, o convidado se despediu e o usineiro mandou o automóvel deixá-lo em casa. Ancho, cheio de vida, Mariano retornava à fazenda palestrando com o condutor do veículo.
Assim que o carro sumiu na curva, o usineiro sussurrou para a mulher:
– Pra que essas bestas com terras!
A mulher, maquiada e bem vestida, deu a maior das gargalhadas.
Em casa, Mariano contou para Joana o que deixara acertado. Ela ouviu calada e temerosa, preveniu:
– Mariano tenha cuidado com banco e usina. Banco nunca se farta de dinheiro nem usina de terras.
Mas o que fazer? A palavra estava empenhada, Mariano não era homem de retroceder e conforme ficou combinado, na semana seguinte foram ao banco, o fazendeiro assinou o contrato e meteu o cobre no bolso enquanto ouvia do falso protetor:
– O empréstimo saiu ligeiro por que eu molhei a mão do gerente.
Mariano aplicou todo o dinheiro no plantio das canas, mas a ordem que o doutor Rodrigo deu ao balanceiro não foi a que lhe prometera. A safra depois de moída não deu para saldar o débito e o gerente do banco, antes ‘bondoso’ e risonho, fechou a cara e ameaçou executar o débito.
Mariano quase perdeu a cabeça de tanto aperreio, mas a usina tomou a frente e o gerente renegociou a dívida. O doutor Rodrigo não tinha pressa, esperou correr mais um ano para não espantar os outros proprietários. Ele evitava alarde, lambia a presa para depois engolir, como dizia o Zé Lins do Rego.
O novo contrato teve juros altos, o que impossibilitou sua liquidação junto ao banco e além do mais, parte da safra, misteriosamente, pegou fogo. Comentavam “a boca miúda” que a usina fora responsável por tamanha perversidade, uma vez que um de seus capangas fora visto, de facho na mão, nas proximidades de Triângulo das Águas.
E aconteceu o que todos já esperavam! O banco não esperou, mandou executar a dívida, a fazenda foi para Hasta Pública e o juiz, amigo do usineiro, bateu o martelo no primeiro lance oferecido pelo doutor.
Despojado de sua fazenda e sem nenhum recurso, Mariano foi bater com os costados na periferia de Maceió, onde tentou ganhar o pão para os meninos com uma carroça puxada a burro, o único bem que lhe restou.
A vida na favela era insuportável. O calor, as muriçocas e a fedentina dos esgotos a céu aberto, infernizavam-lhe a vida. Desorientado, perdera-se o pobre homem, até Joana o seu grande amor, abominou a casa, a carroça e virou a cabeça por um motorista de taxi. Vivia mais dentro do veículo que dentro do barraco. Enciumado, Mariano meteu-se na cachaça e sem comando, as meninas se prostituíram, os meninos se meteram nas drogas, deram prá roubar, foram parar na cadeia.
Ninguém sabe o que foi feito da vida de Mariano. Da mulher e os filhos todo mundo ficou sabendo, perderam-se na vida, sucumbiram no vício e na prostituição.
Na região da Princesa do Vale, enquanto a usina Fome Canina moía dia e noite, o doutor Rodrigo “imprensava” outros Marianos que ainda resistiam em não vender suas terras.
É bom que os outros “Marianos” estejam atentos às palavras que o Mestre falara pela boca do padre Luís Santos, no sermão da festa da padroeira. Não foi a toa que Jesus disse em suas pregações:
“Era mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no reino de Deus.”