“Olhei em roda e não houve quem me acudisse; busquei, e não houve quem me ajudasse.”
Falam que filho de pobre não nasce, aparece. E tudo indica que já fazia uns dez anos que eu havia aparecido neste mundo quando comecei a escutar comentários sobre as atrocidades praticadas contra Jesus Cristo.
Mesmo sabendo serem coisas remotas, indignava-me os requintes da perversidade humana. Cheguei a pensar que aquelas barbaridades não mais se repetiriam. Puro engano. Os carrascos de hoje desenvolveram formas de torturas muito mais cruéis que as praticadas por seus ancestrais.
E seus descendentes, herdeiros da usura e da maldade, continuam perseguindo, torturando e matando as pessoas que ousam protestar contra as mesmas injustiças que o jovem Andarilho vivia a combater pelas povoações da sua terra.
E olhem que dois séculos já transcorreram depois que empreenderam a busca que resultou na capturar do Galileu que, segundo seus captores, vivia subvertendo a ordem ao insuflar o povo contra as injustiças praticadas pelos poderosos contra a gente pobre e indefesa.
Os governantes de ontem, que pouco ou nada mudaram em relação aos de hoje, pediam ao povo que denunciasse às autoridades o paradeiro do malfeitor que era descrito como um jovem de 33 anos, com cabelos e barba em desalinho a emoldurar um rosto com expressão de tristeza e sofrimento que, inexplicavelmente, atraía simpatia enquanto levava a comoção aqueles a quem dirigia se olhar.
E, segundo os asseclas do Império, esse jovem vivia pelas povoações pregando em defesa da ralé suja, faminta e marginalizada, enquanto dava às costas à elite farta e bem vestida, semelhante à que continua insistindo em nos oprimir.
Já os seus seguidores diziam que Ele pedia que lutassem em favor de um mundo regido por Leis emanadas do Amor e advertia que nesse mundo, as coisas necessárias à vida teriam que ser comuns a todos os viventes.
Outros diziam que em suas pregações Ele afirmava que éramos filhos de um só Pai, formávamos uma só família e, assim sendo, deveríamos nos amar como Ele sempre nos amou.
Isso apavorava os que se mostravam contra os que se uniam em nome do amor e da solidariedade. E tremiam diante do subversivo que nos tempos atuais seria chamado de comunista.
E os governantes se apavoravam ao saber que o jovem rebelde era seguido pela ralé faminta, esfarrapada, composta por desempregados, crianças sem leite e mulheres desgarradas, muitas delas apontadas como meretrizes.
Mas, apesar do que propalavam sobre essa gente, ela não tomava nada de ninguém e cumpria, fielmente, as recomendações do Andarilho: “A César o que for de César e a Deus o que for de Deus”.
Como se vê, o Filho do Homem não recomendava apego às coisas materiais, tanto é que nem Ele mesmo as possuía, comia do que todos comiam e dormia onde todos dormiam.
Vivia pedindo que ajudassem os necessitados, amparassem os enfermos, amassem as crianças e se precavessem ao julgar porque um dia, também, seriam julgados.
Apesar da clareza de sua mensagem, os poderosos se faziam de desentendidos para justificar o ódio que nutriam por Ele. E esse ódio se extravasava, como da vez que foi preso e espancado porque andava ressuscitando mortos pelas aldeias desassistidas.
Enquanto uns diziam ser Ele um subversivo, um impostor, outros procuravam defendê-lo afirmando que era um Homem tão bom que chegava a multiplicar para dividir. Muitos chegaram a vê-lo transformar um pouco d’água em alguns barris de vinho e multiplicar cinco pães e dois peixes em milhares de pães e milhares de peixes para matar a fome e a sede dos que lhe seguiam.
Não só Ele, seus seguidores também não conduziam armas, dinheiro ou qualquer bem material. E por que tanto temor a um homem pobre, manso e bom?
O seu único bem consistia numa túnica amarrotada, feita de tecido ordinário. Nada mais possuía, nem um mesmo um chinelo que lhe protegesse os pés estropiados pelas areias escaldantes da sua Galiléia.
Por isso, os seus seguidores não encontravam razão para que a gente rica e poderosa tremesse ao escutar o nome de quem só recomendava o amor e a solidariedade, nunca a usura ou a violência.
Não costumava reclamar da vida sofrida, a não ser quando deixou escapar que até os bichos do mato possuíam uma toca para descansar, enquanto Ele, o Filho do Homem, não tinha nem onde pudesse reclinar a cabeça atribulada por tantas perseguições.
E como todos já esperavam, os poderosos venceram. Ele foi preso e condenado por rudes figuras pançudas que compunham um Tribunal que nada tinha a dever aos que continuam condenando os comunistas por defenderem idéias parecidas às que motivaram a sua morte.
Pôncio Pilatos, o preposto de Roma, ou seja, do Império Invasor, foi quem presidiu o julgamento e proclamou o veredicto determinando que o Homem acusado de sublevar as massas fosse condenado â morte por crucificação. Isso se passou há mais de dois mil anos, mas parece ter sido hoje, porque nada mudou, a prática perdura.
Percebendo que as acusações atribuídas ao réu não eram suficientes para condená-lo, Pilatos relutou e procurando dividir com o “povo judeu” a responsabilidade da sentença propalada. Para isso, pediu à multidão, que se prostrava diante do Tribunal, que opinasse sobre o macabro veredicto, pois Cesar, o Imperador, havia lhe conferido a decisão de perdoar um dos condenados e ele transferia ao povo a escolha do nome a ser perdoado.
Aquela “multidão” também não deixa de lembrar as que hoje trocam seu voto por migalhas oferecidas por politiqueiros desonestos. Foi essa “multidão” que nunca deixou de existir que, uníssona, bradou a sua escolha:
– Barrabás! Barrabás!
Mesmo ouvindo o berro animalesco em favor de um ladrão, o nosso Irmão não protestou nem demonstrou o mínimo ressentimento, Ele sabia que aquela “multidão” não fazia parte das multidões que acreditavam em seus ensinamentos.
Por isso, calado estava, calado permaneceu até quando seus inquisidores lhe perguntaram por que seus seguidores havia lhe abandonado no instante mais cruciante da sua existência.
Como continuam fazendo por esse mundo, foi constituído um Tribunal formado por juízes e autoridades religiosas que discordavam dos seus ensinamentos. Então, como está claro, foi essa corja que levou à “multidão” a aprovar a Sentença de Execução do Filho de Maria que, após o veredicto, foi arrastado sob zombarias, chibatadas, pontapés e cusparadas na cara.
Nenhuma voz se levantou a seu favor. Quem ousaria protestar contra a turba furiosa e a poderosa elite que já havia ordenado a troca de sua túnica por uma tanga que melhor se adequasse à judiação que sofreria a caminho da morte? Ele mesmo falou pela voz de Isaias durante a trajetória rumo ao calvário.
“Olhei em roda e não houve quem me acudisse; busquei, e não houve quem me ajudasse.”
Obrigaram-lhe a carregar sobre o ombro um pesado madeiro, em forma de cruz, até o “Morro do Calvário” onde foi crucificado e morto entre dois ladrões. Mesmo recebendo bofetadas, chibatadas e cusparadas, pedia ao Pai que perdoasse os que lhe ofendiam.
Eram perversos “paus mandados”, desprovidos de saber e, como alguns dos tempos atuais, escolheram essa forma de trabalho para ganhar a subsistência da prole. É bom deixar claro que aqueles verdugos são os mesmos que atualmente espancam, torturam e matam os que lutam para que os bens produzidos pela sociedade passem a pertencer a todos que deles necessitem.
Ressalvo que nem todos os carrascos se prostituem alugando sua perversidade à burguesia endinheirada. Inclusive devem saber, por ter escutado, que até a sétima geração, oriunda de sua descendência, pagará por suas atrocidades.
Os perversos de ontem não diferem das infelizes bestas humanas de hoje. Robustas no físico, mas tão pequeninas no saber que ganham a vida espancando, torturando e matando seus próprios defensores. Esses infames cães de guarda dos donos do poder são vistos como rudes e grotescas criaturas.
Seria bom destacar que durante o percurso do Tribunal até ao calvário, somente as mulheres deram provas de coragem, demonstraram valentia. Verônica chegou ao auge da sua solidariedade ao interceptar o cortejo para enxugar o rosto ensangüentado do condenado e Madalena, uma mulher dita como prostituta, ao lado de Maria, não se afastou Dele nem no percurso nem nos instantes mais cruciais.
Não fosse a coragem daquela que diziam ser meretriz, Maria, a frágil mulher que acabara de ver o Filho morrer cravado numa cruz, teria se angustiado ainda mais, pois, não havia quem lhe ajudasse a despregar da cruz o Filho que acabara de ser morto por defender a ralé desprotegida como fizeram Che Guevara, Carlos Marighella e outros que também morreram pelos deserdados.
Não faz muito que Gregório Bezerra foi espancado e arrastado pelas ruas de Recife por três cordas amarradas ao pescoço enquanto levava chutes, pontapés e coronhadas de fuzis por defender idéias parecidas às que levara Cristo à morte.
Os parentes e os amigos de Jesus não demonstraram a mínima solidariedade à mãe que chorou até o momento derradeiro. Não fosse a que era apontada como meretriz, com quem Maria contaria para desprender o filho da cruz? Ainda bem que apareceu José de Arimatéia oferecendo a sofrida mãe uma loca de pedras onde ela poderia colocar os despojos do Filho Amado.
Contam que, três dias após o sepultamento, Madalena chegou a vê-lo caminhando pelos arredores da tal loca onde fora sepultado. Ela o reconheceu pelas chagas sangrentas que trazia nas mãos e nos pés provocadas pelos grampos usados para lhe pregar ao madeiro.
Esse homem, a quem, também, chamavam de Jesus de Nazaré, continua sendo caçado naqueles que não se calam diante das injustiças que Ele tanto combateu. Bom seria que tivéssemos a coragem de proclamar suas idéias para que o mundo por Ele idealizado se tornasse uma realidade.
Um mundo onde todos se amassem e se ajudassem mutuamente para que as coisas necessárias à vida pudessem convergir
“de um para todos e de todos para um, conforme a necessidade de cada um.”