Lembrando amigos

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Washington Cavalcanti de Albuquerque Lacerda andou telefonando para saber como eu estava de saúde. Ora, a minha saúde está ótima! É que, segundo Washington, corria lá pelas bandas das Alagoas, de onde sou oriundo, que eu “estava nas últimas,” aqui, em um hospital de Brasília.

     Nada disso é verdadeiro. Washington deve saber que, como ele mesmo costuma dizer, “isso é conversa da oposição.” Até hoje tenho sido duro na queda, não sei se, de amanhã por diante, continuarei sendo. Como a Fênix, tenho ressurgido das cinzas e cada vez que ressurjo vivo mais alguns anos; não 500 como a bela ave, pois, segundo Ovídio, ela se alimenta de incenso, raízes cheirosas e óleos de bálsamo, enquanto eu, criatura de parcos recursos, alimento-me, apenas, de raízes idênticas aquelas que o meu amigo cultiva em sua fazenda Embiribas e Heliópolis, onde, quem sabe? ― também deve ter erguido o Templo do Deus Sol.

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Mário Barros (D) e Washington Lacerda (E)

     Ele sabe que quando a minha coronária descendente anterior atingiu uma obstrução de noventa e cinco por cento, pousei na sala cirúrgica do cardiologista Cleber Costa em 29 de novembro de 1995 onde ele, à frente de sua brilhante equipe, deixou “tudo dentro dos conformes.” Para isso, seus companheiros abriram-me o peito e ele implantou uma safena que salvou a minha vida e renovou o meu coração.

     E nesse dia, também, a vida se fez nova, retomou o seu curso e os meus dedos voltaram ao teclado da máquina de escrever e do computador para contar os fatos sucedidos ou inventados. Portanto, é bom que se proclame que os Médicos de Alagoas estão entre os melhores do Brasil e a prova é que me fizeram, mais uma vez, ressurgir das cinzas.

     Mas, como ia dizendo, Washington sempre foi meu companheiro de batalhas, mesmo sabendo que as derrotas eram evidentes, ele não arrefecia. Fosse qual fosse o resultado, reiniciávamos novos embates contra as oligarquias que só pensavam nos cofres públicos, de onde roubavam o dinheiro que destinavam não somente para enriquecimento pessoal, mas, também, para comprar o voto do povo, a quem ela chamava de ralé.

post32-02
Tobias Granja

     Perdemos algumas batalhas, mas nem sempre fomos derrotados, chegamos a vencer poderosos. E nem preciso lembrar que nunca deixei de corresponder ao seu companheirismo; jamais lhe faltei nos momentos mais difíceis que posso exemplificar com aquele que passamos nas matas de sua propriedade, onde fomos emboscados por treze homens que acionavam treze gatilhos em nossas direções. A nossa reação deixou os agressores de olhos arregalados e a elite dirigente favorecida pelas benesses dos poderes que constituíam o Estado no dever de se pronunciar sobre o acontecido, inclusive o Secretário de Segurança Pública e o Governador do Estado.

     Aqueles gatilhos fizeram com que mais de cinqüenta projéteis acertassem a caminhonete que nos conduzia e oito deles alojaram-se na coluna da porta do passageiro, a um palmo de minha cabeça. Ninguém saiu ferido, nem mesmo Lourival, um dos motoristas da fazenda que vinha deitado na caçamba do veículo.

     Nenhum participante do covarde atentado às nossas vidas foi punido. A emboscada fora praticada por políticos influentes, industriais, gente da mais alta aristocracia canavieira, contra Washington a quem eles chamavam de “coiteiro de comunistas.”

     A imprensa de Pernambuco chegou a comentar o acontecido. O Jornal do Comércio se referiu a mim como o pistoleiro Barros, enquanto o Diário de Pernambuco, em versão esclarecedora, disse quem eu realmente era. Somente uma rádio e um jornal local disseram que o governador havia dito que quem tivesse culpa iria expiá-la.

     Ficamos sozinhos, os ‘amigos’ silenciaram e se encolheram amedrontados com o poder de fogo dos nossos agressores. Eles eram ricos e os ricos são intocáveis. As Leis, em sua maioria, continuam sendo feitas e aplicadas por parentes ou aderentes da casta dominante. Pobre raramente tem vez. A Justiça é lenta e custa caro.

     Ainda bem que contamos com a solidariedade pessoal e jurídica do doutor Alexandrino de Barros Filho, que se deslocou de Recife com a finalidade de nos defender, e também contamos com a intervenção pessoal do Juiz Federal Carlos Gomes de Barros. Ele nos conhecia de perto e sabia que não éramos o que os inimigos propalavam. E sem nada nos informar, usou da sua força moral para conter a parte insatisfeita com a nossa inesperada reação.

     Noutras ocasiões me referi ao empenho do advogado Alexandrino de Barros Filho e disse de sua contribuição, desprovida de interesses financeiros, em favor dos mais fracos. E naquele instante, mais uma vez, ele se fazia presente com as armas da Lei, coisa que em Alagoas serve de galhofas, ninguém leva a sério, talvez porque poucas vezes a Justiça se faz valer. Também pudera, ela tem os olhos tapados, pouco enxerga… Ainda bem que hoje existe no Ministério Público e na Magistratura homens e mulheres, munidos de coragem e retidão para fazê-la justa Washington, apesar de ser dos Cavalcanti de Albuquerque de Pernambuco, daqueles que Gilberto Freire disse em seu livro Casa-Grande e Senzala que “em Pernambuco quem não fosse Cavalcanti era cavalgado,” nunca quis cavalgar ninguém, apenas olhava atravessado para certos tipos ridículos, metidos a “coronéis” de touceiras de canas.

post32-03
Cartão de Natal enviado por Tobias à Clodoval

     Antes de conhecê-lo, soube que o seu pai, Francisco de Paula Cavalcante de Albuquerque Lacerda, para afastá-lo da boemia de Recife havia comprado o engenho Embiribas, no Município de Joaquim Gomes, para que ele tomasse conta da propriedade.

     Contam que sua primeira providência foi preparar um campo de pouso para descer com avião de pequeno porte. Voava de Recife para Alagoas e antes de aterrissar em sua propriedade ia gracejar com os Gomes de Barros, tirando fino com a aeronave no bueiro da Usina Santa Amália.

     E o boêmio tornou-se filho das Alagoas. Dobrou-se aos encantos de Nides Gomes, uma das mais belas jovens da Vila de Urucu que, posteriormente, veio a se desmembrar do Passo de Camaragibe e chamar-se Joaquim Gomes em homenagem ao pai dessa bela moça que viera a ser sua mulher.

     Não teve jeito, adotou a terra como sua depois que a companheira colocou em seu pescoço uma canga imaginária que ele jamais conseguiu arrancar. Às vezes, inflava o peito, mas nada podia fazer porque o Tico, o Junior e a Mônica apertavam-lhe a brocha que lhe prendia ao pescoço os dois canzis.

     Pois é, Washington sempre foi um amigo daqueles que a gente chama de irmão, irmão dos bons, não dos que costumamos chamar de “colegas de barriga.”

     Na luta contra a ditadura militar implantada em 1964 ele sempre esteve ao meu lado, aliás, sempre estivemos juntos. Enquanto os senhores das terras rosnavam de ódio contra os perseguidos da dita cuja, Washington os escondia em sua casa. E esses perseguidos, caçados como se fossem cães enlouquecidos, só deixavam a casa-grande do engenho Embiribas quando eram levados presos pelos farejadores da ditadura.

     Muitos desses perseguidos eram seus parentes ou seus amigos, homens de envergadura moral incontestáveis, como o seu tio materno, o humanista doutor Brivaldo Carneiro, médico querido do povo desprotegido da periferia do Recife, a quem servia, despretensiosamente, com seus serviços médicos e sua ideologia.

     Um dia, sem nenhuma perspectiva de vitória, resolvi disputar uma vaga para Assembléia Legislativa de Alagoas, somente para lutar contra a famigerada ditadura. Enquanto Tobias Granja e eu atacávamos seus chefes e seus seguidores, Washington estava ao nosso lado nos palanques improvisados ou em cima da caçamba de sua caminhonete.

     Não fomos eleitos. O meu amigo Tobias Granja chegou perto, mas não atingiu o quociente eleitoral necessário à sua diplomação. Também naquela época era pior do que hoje, os candidatos a cargos eletivos tinham os votos que os donos dos currais eleitorais achavam que deveriam ter.

     Derrotados, eu continuei onde estava recusando o insistente convite de Tobias Granja para aventurar a vida no Rio de Janeiro, enquanto o seu saudoso irmão, Paulo Granja, foi para Recife trabalhar no Jornal do Comércio, onde sempre nos encontrávamos.

     Em Joaquim Gomes, por intermédio do meu pai, tornei-me fornecedor de canas, enquanto Tobias brilhava como jornalista nas revistas O Cruzeiro e depois na Manchete, ambas com grande tiragem e circulação nacional.

     Tempos depois o meu amigo voltou para Alagoas, reintegrou-se ao povo e aos amigos e retomou o combate às injustiças, o que lhe custou à vida da forma mais covarde que se possa imaginar.

     Três dias antes desse trágico acontecimento nos encontramos em frente ao seu escritório, na Rua Augusta, onde lhe falei sobre o perigo que ele corria por advogar a causa do seu amigo, o cabo Henrique Omena.

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