O século que passou ligeiro

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Em conversa com meu pai sobre sua passagem pelo engenho Ouro Preto, ele contou que seu tio Salustiano de Barros Lins havia comprado o engenho no ano de 1914, para onde se mudara de olhos na agroindústria e na pecuária. Homem afeito aos negócios, não deixaria de levar consigo o comércio de secos e molhados que exercia no povoado de Campos Frios.

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Major Salustiano de Barros Lins

    Portanto, como também lembrara o meu pai, este ano o engenho completa um século em mãos da mesma família. Passando do major para seu primogênito José de Assis Lins e deste para os filhos, o Médico Salustiano Gomes Lins, os advogados Emanoel Enildo Lins e José Gomes Lins e o agricultor Edson Gomes Lins que permaneceu no engenho dando continuidade à produção do açúcar mascavo, do melaço e da saborosa aguardente Ouro Preto que o major Salú, há um século, começara a produzir.

    Podemos afirmar que não somente o engenho, a aguardente também é centenária e centenária também é o seu sabor. Razão porque, mantenho, há três anos, debaixo da mesa onde redijo estas linhas, um garrafão contendo algumas taças da famosa água ardente. O garrafão não se mantém como chegou, está com uma “metade cheia, outra metade vazia” porque costumo recorrer a ele sempre que a memória anuvia as imagens armazenadas.

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Casa onde residiu Major Salu

    Em vista do que falara meu pai, procurei dar uma olhadela no Censo Rural realizado no ano de 1920 e lá encontrei no Município de Colônia Leopoldina, o engenho como sendo de propriedade de Salustiano de Barros Lins. E ainda constatei, não no Senso, em documentos outros, que a designação de major que precedia seu nome era resultante de uma patente concedida pela antiga Guarda Nacional e que, provavelmente, lhe fora conferida pelo Presidente Artur Bernardes.

    O major era um homem Inteligente, organizado e tinha um comportamento talhado na mansidão e no respeito para com seus trabalhadores. Por ser bem informado e bom conversador tinha facilidade em atrair ouvintes, mas não era pessoa de muitos amigos, precavido, somente os admitia depois de avaliar como conduziam seus negócios e suas vidas.

    E eu, que nasci em suas terras, posso afirmar que não tive mais oportunidade de conviver com homens da têmpora daqueles que lá moravam e lhes prestava serviços, inclusive Zeca Barros de quem sou filho.

    Lembro-me de quase todos os seus moradores, especialmente de Firmino, Chicau, Seu Nô, Antonio Lira, Otacílio, Antonio João e do meu pai, o jovem Zeca Barros, que desde menino agregara-se ao tio e, como ele, habitava uma das cento e muitas casas existentes no engenho.

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José Firmino Miro – neto de Firmino
Foto: Fabrício Oliveira

    Sempre que dou uma olhadela no passado assemelho Ouro Preto a uma pequena Nação habitada por uma gente trabalhadora e ordeira. Essa gente, apesar da pobreza decorrente do sistema capitalista que tanto abomino, tinha o necessário para comer e vivia menos oprimida que a das vizinhanças.

    E essa pequena Nação tinha como administrador André de Holanda Vasconcelos que, além de consanguíneo, era casado com Auta de Barros Lins Vasconcelos uma das irmãs de minha avó Maria de Barros Lins Pereira. André era natural do município de Barreiros, em Pernambuco, descendia dos Accioly de Barros Lins, dos Buarque de Holanda e dos Vasconcelos, senhores de engenhos nas regiões das Matas Sul de Pernambuco e Norte das Alagoas.

    Parecia um holandês. Era de estatura mediana, branco e de olhos verdes. Muito educado, falava bem o português e se portava com finura no trato com as pessoas. Como meu pai e o major, era bem aceito pelos trabalhadores, respeitado pelos vizinhos e familiares com quem convivia.

    Eu ainda não atingira os quatro anos quando meus pais se mudaram para a casa que ficava acima da bagaceira. Para quem não sabe, a bagaceira é para onde dois homens levam num bangüê o bagaço da cana para ser espalhado em um pátio; acho que isso deve ter originado o nome de Engenho Banguê.

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Casa onde morou José Lins e sua mulher Maria Gomes Lins. Hoje pertence ao casal Enildo Gomes Lins e Amália Gomes de Barros Lins

    No engenho, a maioria dos seus moradores possuía criações, roçados e casas de farinha. Hoje, ao confrontar aquela gente com outras que conheci noutras terras, chego a pensar que ali seria um lugar propício para a instituição de um modelo socialista, dada à qualidade dos que ali viviam. Era um povo analfabeto, porém, inteligente, trabalhador e solidário.

    Eram esses homens que alem de cuidar dos canaviais faziam moer o engenho e retornavam com o bagaço, depois de seco pelo sol, para a fornalha onde era jogado para ajudar a lenha a aumentar as chamas. Bem aquecida, a caldeira passava a gerar o vapor necessário à movimentação das máquinas que faziam girar as moendas para esmagarem as canas e extraírem o caldo que depois de cozido se transforma em mel, aguardente ou açúcar.

    Gostaria de acrescentar que a bagaceira não é somente um pátio onde se espalha o bagaço e o gado come os atilhos da cana que vem amarrando os feixes. A bagaceira também é um lugar onde os meninos brincam a céu aberto. E a nossa residência ficava situava ao pé da encosta por onde ela se estendia.

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José de Barros Pereira (Zeca) com o filho Clodomir no Forte Orange – PE
Foto: Clodoval de Barros Pereira

    Nesta fase devemos ter morado naquela casa por dois anos, uma vez que, depois da morte de minha mãe, meu pai resolveu deixar o engenho, atravessar o Jacuípe e retornar a sua terra de origem, o povoado de Campos Frios.

    Nem seria necessário adiantar que uma criança desgarrada da mãe aos quatro anos de idade pouca lembrança guardaria dela. Agora tenho nítida recordação do período do nosso retorno ao engenho sem a sua companhia.

    Ao retornarmos, somando os oito anos vividos lá fora aos quatro que levara do engenho podemos concluir que a soma seria fundamental para uma melhor percepção às coisas que iriam ocorrer à minha volta. E por ter estudado em Palmares e convivido com a gente da cidade, voltei trazendo conhecimentos que o governo de Alagoas negava aos meninos que habitavam aqueles ermos.

    Prontamente integrei-me a eles e passei a engrossar o rol dos “moleques da bagaceira.” Dessa ‘molecagem’ constavam meus irmãos Clodomir, Edvalson, Jurandir e Zezito, este último neto do proprietário. Juntamo-nos aos filhos dos moradores, dentre eles Tejo, Amaro e Tonho Preto, filhos de Firmino; Toinho, filho de Antonio João; Nego Chicau, Zezito Pedra Rica e Severino dos Ramos Lins que morava com o seu avô em uma casa que também servia como Posto Fiscal de Alagoas, na beira do Jacuípe.

    Vivíamos a brincar pela bagaceira, casa de bagaço, encaixamento de açúcar, casa de purgar, o setor das tachas de cozimento, da caldeira, das moendas e das máquinas. Tomávamos banhos nos rios, caçávamos nas matas e nas várzeas onde matávamos preás, jaçanãs e galos d’água.

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Edson Gomes Lins em foto de 2014 no alpendre de sua casa
Foto: Carla Lins Calheiros

    E saboreávamos as pedras de açúcar mascavo, o mel de engenho e o doce caldo das canas caiana, demerara e flor-da-flexa naquele mundo que parecia feito para meninos. Tanto é que, naquela época, eu achava um absurdo mandar o menino estudar fora, uma vez que os senhores de engenho não se interessavam por escolas em seus feudos.

    Comentava-se que se aquela gente estudasse ia faltar quem fizesse o engenho moer. Estudar pra que se a cidade estava cheia de doutores que não plantavam uma rama de batata sequer?

    Quem tencionasse estudar que procurasse cair nas graças de uma Sinhazinha ou agregada familiar que poderia aprender alguma coisa da Carta de ABC e das quatro operações aritméticas. Para que mais? Isso seria suficiente para chegar à função de Feitor ou caixeiro de barracão. Para que tanto ensinamento se pouco se usa do que se aprende? E o engenho só tinha a oferecer cavagem de sulco, corte de cana e limpa de mato e outros afazeres pesados.

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Usina montada por Edson para a fabricação de aguardente, melaço e açúcar

    Eu mesmo só aprendi alguma coisa porque meu padrinho, o professor Brivaldo Leão de Almeida, um revolucionário comunista que venerava o povo, a coragem e o saber, arrastou-me para Palmares onde aprendi um pouco mais do que já sabia.

    Hoje eu me lembro que fiquei amedrontado ao tomar conhecimento que ele professava uma crença que eu condenava temeroso e em surdina. Porém, mesmo temeroso, fui seguindo seus passos, observando suas ações e passei a admirar o seu saber, o seu destemor e sua luta intransigente em defesa dos desfavorecidos da sorte. Resultado: terminei lutando pela causa que ele entregara sua vida sem que ele mesmo soubesse que eu me tornara um fervoroso adepto dos ideais que lhe deram muitos anos de cadeia.

    Depois de vagar pelos grandes centros, senti necessidade de voltar a conviver com a gente da minha terra. Ela sabia trabalhar com gado e plantações. Não era rude nem desonesta. Sabia até demais porque a Natureza não lhe negava nenhum ensinamento, de tudo lhe passava um pouquinho. E foi com ela que aprendi a maioria das coisas que usei para bancar a minha existência.

    Isso não é uma apologia ao analfabetismo, defendo as letras, gosto delas e reconheço que se não soubesse juntá-las jamais contaria sobre essa fase da minha vida. E não devo negar que a minha curta convivência com as letras me serviram para aprimorar as coisas que aprendi com a gente rude, sofrida e desamparada da minha terra e das terras por onde andei.

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José Gomes Lins e Clodoval na casa onde nasceu ele e seus três irmãos

    Serviram-me também para falar de um tempo que se foi e que não volta para que eu pudesse brincar na bagaceira do engenho, andar nas matas, tomar banho nos rios e correr gado com meus companheiros de adolescência.

    Isso é somente para divagar, pois tenho consciência da impossibilidade desse retorno ao passado, uma vez que a vida já iniciou seu declínio e muitos já nem se encontram por lá. Tonho Preto morreu de uma batida de caminhão; Amaro Firmino, o filho o matou a facadas; Tejo foi vencido por uma diabete e seu outro irmão, o Nezinho, embarcou num “Pau de Arara” com destino ao Paraná e por lá desapareceu. O seu povo ainda hoje o espera e nada dele chegar.

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Edson com sua filha, a Juíza Maria Valéria Lins Calheiros
Foto: Clodoval de BarrosPereira

    Deve ter morrido do frio provocado pelas geadas que congelam as míseras choupanas destinadas ao abrigo dos trabalhadores nordestinos aliciados para desbravar as fazendas do Paraná ou caído numa das tocaias preparadas por fazendeiros escravagistas.

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Uma das vistas parciais no engenho Ouro Preto
Foto: Jornalista Mauro Sélvio

    Muitos se foram por razões que não dependiam de suas vontades, outros por desejarem buscar noutros mundos formas de vida diferentes daquelas que não achavam condizentes com os novos tempos. Alguns dos antigos donos também se foram por razões idênticas as referidas acima.

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Ricardo com a irmã Claudia Nobre Lins
Foto: Clodoval de Barros Pereira

    Estamos em janeiro de 2014, ano que Ouro Preto completa cem anos de sua aquisição por Salustiano de Barros Lins. Cem anos que o major levou os ancestrais dos meus amigos de bagaceira para desbravar aquele mundo.

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Os quatro irmãos, atuais proprietários do engenho Ouro Preto
Foto: Clodoval de Barros Pereira

    Depois de decorrido um século ainda permanece por lá alguns descendentes dos que há cem anos pisaram aquelas terras. Zé Preto, sua irmã Marlene e demais familiares oriundos da prole de Firmino. Dos antigos proprietários lembramos Edson Gomes Lins e seus filhos Ricardo Nobre Lins e Claudia Nobre Lins, respectivamente neto e bisnetos do homem que soube apreciar a beleza selvagem das terras que ele tanto amou.

    Sua casa já não existe, mas eu a conservo em uma fotografia. Sempre que lhe dou uma olhada lembro-me dele sentado no terraço, dando suas famosas gargalhadas, enquanto conversava com sua mulher Cândida, com meu pai e demais pessoas sobre as dificuldades enfrentadas para erguer o engenho e as cento e vinte casas de alvenaria para agasalhar seus trabalhadores.

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Claudia Nobre Lins cultiva flores tropicais
Foto: Clodoval de Barros Pereira

    Parecia uma fortaleza a casa avarandada, de paredes dobradas, que ele construiu no centro do tesouro para viver grande parte de sua existência. Penso que ele gostaria que ela continuasse desafiando os séculos, mas isso não aconteceu.

    Se hoje muita coisa existe virtualmente, fico a pensar que ele continua existindo, tanto é que pareço vê-lo juntamente com meu pai às gargalhadas no terraço da casa, na foto que acabo de postar em minha página Eletrônica juntamente com essas linhas com o intuito de reverenciar sua memória, seu trabalho e sua inteligência.

Maceió, 02 de Janeiro de 2014.

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