Autor: Clodoval de Barros Pereira
I
As mulheres inteligentes, além de não conversarem mais da conta, são comedidas ao falar das coisas que lhes cercam, especialmente das que dizem respeito a sua vida íntima. Isso me faz lembrar uma mulher da minha estima que vou chamá-la de Clarice para não despertar a maledicência de quem a conhece.
Faço essa associação porque sempre que ela se refere ao lugar onde nasci observo que enquanto os seus olhos passam a brilhar com mais intensidade a sua voz vai se tornando meiga e adocicada. Será que ela acha que eu não presumo que essa reação é resultante do sentimento que nutrimos um pelo outro?
Tenho certeza que ela fala desse lugar com o carinho que gostaria de falar de mim, porém, por muito que se policie não consegue esconder a ternura do seu linguajar. Aliás, nem vejo motivo para tamanho resguardo, uma vez que nada detém a força de um amor. Chego a pensar em persuadi-la a não reprimir o carinho que gostaria de extravasar por mim nem temer a realização do sonho que tanto ela como eu sempre sonhamos. Mas, a verdade é que, apesar de nos querermos como ninguém jamais se quis, mergulhamos no silêncio que só tem retardado esse desejo.
Apesar da distância que nem sei por que ela estabelece entre nós, muitas vezes ficamos frente a frente sem que nenhum falasse o que o outro gostaria de escutar. Às vezes penso não ser somente meu o desejo de caminhar ao lado de Clarice, suponho que ela também gostaria de trilhar o caminho que palmilho.
Ouso fazer esse juízo porque percebo que ela não consegue esconder a euforia para ter em mãos os poemas que escrevo enaltecendo o amor que lhe devoto nem o prazer que sente quando em minha companhia.
Nunca me saiu da cabeça que essa bendita mulher sempre me quis, porém, não tanto quanto eu a ela. Acho até que o temor às intromissões alheias motivem seu discreto afastamento e retarde o hoje, o amanhã ou quem sabe lá? ─ o que eu não gostaria que acontecesse ─ o nunca.
Mesmo assim, por mais que o tempo corra, Clarisse não vai fugir às minhas visões porque em meu imaginário ela continua cavalgando campos repletos de vales floridos e cascatas murmurantes, aos sons de gorjeios, trinados e açoites de pássaros.
E ela sabe que jamais escondi o desejo de caminhar ao seu lado contemplando o seu sorriso e me deliciando com a sonoridade de sua voz.
Quem sabe se isso não sustaria a frustração de não termos vivido o que teríamos que viver e ainda não vivemos?
Para mim, isso bastava. Nada melhor que viver a eternidade de um amor recheado de poesia secundada por carinho e muito apreço. Eu não trocaria a eternidade desse amor por montanhas de ouro nem por caudalosos rios de leite ou de petróleo.
II
Texto encerrado, mas vou ter que retomar porque, coincidentemente, o telefone está tilintando e uma coisa me diz que é ela, mesmo que não seja, vou atender.
─ Alô, quem é?
─ É Clarice!
─ Oi, Clarice, feliz em ouvi-la. Previ que seria você.
─ Ótimo! Estou ligando apressadamente, somente para lhe avisar que vou aparecer aí para escutar alguns poemas.
Tum, tum, tum, tum… Caiu a ligação! Caiu ou Clarice desligou? Pelo sim, pelo não é melhor jogar a culpa nesse maldito telefone.
E se me perguntarem se vem mesmo, nem sei o que responder. Ela é muito imprevisível. Mas tudo pode acontecer, pode até já estar a caminho. Por que não? Pode, sim, porque meses já transcorreram entre essa ligação e a anterior.
Oh, gente, fazer o que?
Se ela sabe o caminho da tenda onde forjo esses escritos, não tenho porque me desesperar.
Um dia ela pisará o mato que já se faz nascer no caminho por falta de quem o trilhe e cruzará a soleira da porta para tomarmos o vinho que tanto lhe espera enquanto trocamos o abraço que rejuvenescerá nossas almas e nossas vidas.