Autor: Clodoval de Barros Pereira
“Tu também, minha inconstante,
Tens tido mais dum amante
E nunca amaste a um só!”
Casimiro de Abreu
Depois que aprendi a conhecer as letras, de vez em quando surge uma vontade danada de pegar um punhado delas, espalhar numa folha de papel e tentar juntá-las com o intuito de formar palavras que possa coordená-las de maneira que sirva para contar um causo ou narrar um fato que aconteceu ou esteja acontecendo na vida dos outros ou da minha mesmo.
Como deixei claro acima, ao memorizar as letras parti para formar palavras mas, de uns tempos pra cá, resolvi tentar escrever frases. Até que estou escrevendo, meio torta mas estou, agora o tal do período, necessário para poder contar uma história, é bicho trabalhoso, é coisa pra doutor. E olhe, olhe… Um caipira como eu que desconhece todas as regras gramaticais sofre muito para deixá-lo compreensivo.
Portanto, aconselho aos eruditos evitarem de ler os meus escritos, deixem para a cabroeira do meu nível cultural, com quem aprendi a escrever e falar, que ela entende o meu linguajar. Também é bom ressalvar que escrevo para mim ou para quem deseje avaliar a quantidade de analfabetos que frequenta os jornais e o que passamos a chamar de “Redes Sociais” que circulam na Internet, sem falar nas pessoas que ocupam altas funções nos escalões dos poderes que constituem a República Federativa do Brasil.
E nem vou mais fazer conversa comprida, pois, aqui estou instigado pela mente para falar dos dias que vivi ao lado de Marília, não a que foi de Dirceu, mas a que foi minha. Minha? E Marília foi minha? Jamais! Devo estar sonhando, nunca tive uma Marília! Aliais, sempre fui contra a escravidão e como iria eu, logo eu, ser dono de uma pessoa, especialmente de uma mulher, o ser mais perfeito e adorável que Deus criou neste Planeta?
Puro engano, nunca fui dono de ninguém. Já possui vaca, cavalo, cachorro… Gente nem pensar, especialmente mulher. As mulheres que conquistei ou as que me conquistaram, caminhamos lado a lado conduzidos pelo carinho, pelo afago e pela amizade que alguns chamam de amor.
E tanto é que ao sentir a existência de uma atração mútua cuido logo de tomar a iniciativa do embate para que a mulher se manifeste, renegando ou retribuindo a minha pretenção. Se sua manifestação for receptiva procuro aproximar-me para juntos construirmos o amor que dela possa resultar.
Precisamos temperar o amor com o racional porque se a animalidade imperar, depois da saciedade do instinto, a tendência é a mesma dos irracionais, o afastamento, a tomada de caminhos diferentes.
Também não podemos esquecer que se não houver unidade de pensamento, de idéias e tolerância não adianta insistir porque os desentendimentos destroem coisas que pareciam pétreas.
Até a Marília que diziam ser de Dirceu, nunca foi. Tanto assim que ficou sozinha nas Minas Gerais enquanto ele, não resistindo à solidão do exílio, cedeu a uma nova paixão, caiu nos braços doutra lá pras bandas da África, para onde fora desterrado por lutar pela causa do seu povo. E ela, por não ter a coragem de partir ao encontro do amado sofreu na carne por não permitir que outros lábios tocassem os seus.
Mas, a Marília de quem falo não é a que diziam ser de Dirceu, provavelmente é dessas plagas, contudo, poderia ser de qualquer outro lugar, desde que fosse mulher. Mas vamos deixar de rodeios para falar da jovem ágil, sagaz e independente, tal qual uma felina.
Aliás, não posso confirmar se o nome dessa que falo era mesmo Marília, às vezes, confundo-o com o nome de Afrodite e até mesmo com o de Cleópatra. Não! A Cleópatra era a fogosa rainha egípcia que fora mulher de Júlio César, depois de Marco Antônio. Não, Ceópatra, não!
Também não vou dizer que era Afrodite; Afrodite era uma deusa e deusa não trai. Vou continuar chamando-a de Marília apesar de não ser pura, ingênua nem fiel como fora a de Dirceu. Assim vou chamá-la Marília porque foi com esse nome que iniciei esse texto. E o nome pouco conta, o que importa mesmo é narrar o causo que poderá até ser real, quem sabe?
E se foi real, não vejo problema. Vamos admitir que tenha sido. Acho até que foi mesmo porque no dia que nos conhecemos, no abraço da despedida, quando o seu peito colou ao meu, nossos corações pulsaram juntos e dois corações pulsando ao mesmo tempo é difícil prever no que resultará.
Se aquele instante não tivesse acontecido Marília jamais teria notado que o meu coração pulsara mais forte que o dela.
Às vezes chego a pensar que ela não percebeu. Ilusão minha, se ela não tivesse percebido não teria ficado olhando em meus olhos enquanto alongava o abraço e esboçava o mais lindo sorriso que meus olhos já haviam fitado.
Conversa vai, conversa vem até que a hora chegou e ela teve que se despedir e eu fiquei pensando naqueles lábios se entreabrindo e naquele coração que parecia continuar batendo dentro do meu peito. E não é que dias depois, ela me telefonou? Propunha um encontro, pois queria que eu lhe ajudasse a esclarecer uma dúvida. E nesse encontro aconteceu outro abraço, outro sorriso e outro olhar cada qual mais sedutor que os anteriores.
Não devo fantasiar, a verdade deve ser dita. Nenhum interesse estranho havia entre nós, pois, além dela ser uma mulher de comportamento exemplar, nada se passava pela minha cabeça nem pela dela, todavia, de minha parte não posso negar que aqueles dois momentos foram diferentes doutros que eu já havia vivido.
E passamos a nos encontrar com mais freqüência e num desses encontros, ela me falou, como costumam falar as mulheres a respeito dos seus sentimentos amorosos. E se referiu ao marido como um companheiro por quem nutria uma verdadeira amizade, mas… Mas…
– Mas o que Marília? — perguntei —, e a mulher foi tão objetiva que me assustou.
– É que ele não é o homem que eu esperava que fosse. Sou uma mulher insaciada… Ele não atende aos meus anseios, aos meus instintos de fêmea. Não sei o que faça da minha vida, não posso continuar como estou. Penso em recomeçar com um homem que me atraia com simpatia e sensualidade. Um homem romântico, amoroso e que preencha essa lacuna. É disso que preciso para encher minha vida, aliviar esses anseios. Foi para isso que voltei aqui, ajude-me nessa tarefa…
– Olha Marília, (Marília, Afrodite ou Cleópatra?) — nem lembro mais como lhe chamei —, sinceramente, é muito difícil emitir uma opinião, especialmente por acabar de ouvir que seu marido é um bom companheiro e que você nutre por ele uma grande amizade.
– Ah, isso não é tudo, isso não é tudo… Nem as aves gostam de viver em gaiolas de ouro ao lado de companhias frias, silenciosas. Eu quero um homem amoroso, um poeta canoro feito um pássaro, um homem que declame para mim como você declamou naquele dia.
– Bem, ‘se isso não é tudo’, faço como o preto Inácio da Catingueira, que fora escravo em uma fazenda há mais de cem anos nos sertões da Paraíba.
– Oh, Fábio, e o que tem a ver esse escravo com o meu problema?
– Nada, Marília, nada, é que você falou em poeta e eu me lembrei de Inácio. É que eu gosto de poetas, converso com eles, escuto seus recitais, mesmo depois deles mortos. E Inácio era um escravo que adquiriu um pandeiro e com ele, cantando repentes, ganhou dinheiro para comprar sua alforria. Como eu, ele não sabia ler, mas era um grande poeta, o que eu não sou, claro! Talvez o fato de não ser grande, e nem pequeno, me faça gostar dos que são. E o Inácio era tão grande que certa vez cantou durante oito dias com Romano da Mãe D’água, no mercado da cidade de Patos. Cantou, cantou, mas, ao sentir que seu contendor não estava sendo honesto na maneira de compor seus improvisos, o negro desistiu da cantoria alegando que daquele jeito não dava, pois, sendo assim ele cantasse sozinho que ele se calava. E se calou.
Portanto, eu gostaria de fazer como o Inácio da Catingueira: “sendo assim, fale sozinha que eu me calo.” Ouça o que diz seu coração, somente ele poderá indicar o caminho que você deve seguir.
Marília se foi e uma semana depois estava de volta com mais abraços, mais sorrisos e olhares cada vez mais sensuais. Voltara para retomar a conversa. E conversa vai, conversa vem, a bela mulher terminou dizendo que havia procedido como eu lhe aconselhara. Escutara o seu coração e ele dissera que o homem que ela procurava estava bem pertinho dela.
– Oh, que bom, você encontrou…
– Encontrei sim, e sabe quem é ele? O meu coração disse que este homem é você! E acreditei porque andava sentindo saudades da sua voz, da sua conversa, da sua maneira de dizer as coisas.
Meu Deus, a mulher perdeu o juízo… Avermelhei o rosto mas não me abalei com as artimanhas da mulher que só se foi depois que admiti nos encontrar com mais freqüência. E a freqüência desses encontros não só despertou como agigantou a fêmea que existia dentro dela. E essa fêmea falava a todo o instante da felicidade que sentia por me ter encontrado. E tudo o que ela dizia ou fazia eu achava que era por amor quando, na verdade, era como se fosse o pago inconsciente de sua saciedade.
E quantas vezes ela falou do amor que sentia por mim… quantas vezes… Posso até reproduzir o que ela me disse naquele domingo que o vento açoitava a chuva enquanto o frio arrepiava nossos pelos:
– Ah Fábio, eu não sabia que a vida era tão boa, não sabia! Cada dia que passa aumenta o amor que sinto por você. Como eu gostaria de eternizar o prazer e os momentos felizes que tenho vivido ao seu lado.
Eu escutava, mas dava pouca crença por pressentir que ela era vulnerável à paixão. E além do mais, eu havia aprendido com um poeta que o amor era eterno, mas eterno enquanto durasse. Outros poetas também falaram que os amores volúveis duram pouco, morrem tão depressa quanto começam.
E a vida tem demonstrado que nada depende de nossa vontade, nem para acontecer nem para deixar de acontecer. Tanto é que, não existindo amor, saciada a animalidade, esfria o relacionamento ao ponto de nada mais existir.
Por isso não me causou surpresa quando um dia ela reapareceu vestindo uma blusa de cor azul, com um decote um pouco acentuado, que me possibilitou enxergar pequenas escoriações nas proximidades do seio. Logo percebi que eram marcas resultantes dos entreveros amorosos entre ela e o novo amante. Apontei-lhe as arranhaduras e ela, desconsertada, disse-me que havia mentido quando propusera encerrar o nosso caso por pretender voltar a ser fiel ao marido.
Claro que percebi que ela mentira, porém, não maldisse o seu comportamento e por andar desejoso de terminar o que existia entre nós, intimamente, aplaudi a sua insinuação.
Mas, retornando as arranhaduras gostaria de frisar que Marília não se alterou diante da minha observação, apenas correu a mão pelo leve arranhão, enalteceu minha visão pericial e, cinicamente, sem vacilar, apelou:
– Apesar da afeição que continuo sentindo por você, tive a coragem de lhe comunicar o desejo de retomar a vida conjugal com o meu marido, porém estou desencorajada para me desvencilhar dele, por isso gostaria que você me ajudasse nessa tarefa. E ele gosta tanto de mim! Sei que ele não vai aceitar a separação e eu preciso recomeçar minha vida com o Roberto já que você não valorizou o nosso relacionamento.
Quem sabe? — tudo pode acontecer. De amante em amante um dia ela alcançará o homem que almeja. E eu torso para que isso aconteça, somente não posso contribuir para separá-la de um homem que ela diz ser bom e compreensivo.
Depois dessa reflexão voltei à tona.
– Olha Marília, eu acho que você deve inventar para aquele que não lhe desperta mais amor o mesmo disfarce que soube inventar para mim. Ou ouça o seu novo amante, a ele cabe essa orientação. Mas não lhe peça no momento que estiverem exercendo a animalidade do instinto, como da vez que ele tentou lhe comer viva.
– Me comer viva?!
– Sim, lhe comer viva! Será que você nunca ouviu falar dos desequilibrados que comem vivas as mulheres que eles atraem? Comem, sim! Esses maníacos são carnívoros. Eles mordem, arrancam pedaços, mastigam e engolem cruas as partes dos seios e dos órgãos genitais de suas presas. Você sabe que isso não é novidade nem invencionice. A imprensa noticia sempre fatos dessa natureza.
reação foi pedir para me dar um abraço com a alegação de que gostava muito de mim. Olhei-a nos olhos para depois lhe dizer:
– Jamais permitirei que isso volte a acontecer. Esses lábios que me encantaram quando se entreabriram naquele primeiro sorriso, não são mais os mesmos. Sei lá onde ousaram tocar! Acho-os iguais aos de uma cadela vira-latas que avistei em estado de cio, com sua genitália presa a de um cão de rua. E esse corpo belo que exalava cheiro fêmeo, hoje, fede tanto quanto o dessa cadela.
Ela se levantou da cadeira, despediu-se e se foi para nunca mais voltar. A cidade era grande e seu tamanho contribuiu para nunca mais nos encontrar. Não sei o que foi feito dela nem do que ela fez daquilo que a vida lhe aprontou, porém, presumo que não deve ser maneiro o fardo que ela escolheu para carregar.
A mulher era ladina, mas eu, acostumado a entreveros amorosos logo pressenti que novamente se apaixonara, contudo, dessa vez, a paixão era tão forte como a que vivera comigo.
Mesmo constrangido, eu até sentia pena por ela acreditar que nunca fora vista entrando em um motel pouco recomendado.
Em virtude de suas posses, de sua escolaridade e do meio em que vivia, nunca pensei que Marília viesse a ter a coragem de frequentar um ambiente onde os viciados em drogas escolheram para suas orgias, inclusive as sexuais.
Talvez, por isso, quem a viu naquele antro de prostituição, para onde se deixara conduzir, lamentasse o fato dela ter trocado as confortáveis suítes dos hotéis que frequentava com o marido pelas fétidas camas de um execrável reduto de prostituição, onde se deitavam travestis e meretrizes.
Nada acrescentei quando Mércia me falou sobre os lugares que a amiga estava frequentando, até porque não costumo me intrometer na vida de quem não mais caminha ao meu lado. Lamentei a sua sorte, mas não seria eu que iria arrancar uma fêmea apaixonada dos braços de um frequentador de bordéis.
Devo confessar que essa narrativa só veio à tona porque ao ser impelido a contar um causo fui aos recônditos do cérebro e dei com esse quase apagado num recanto da memória, onde armazeno as coisas que a vida destroçou.
Juntei as letras, formei as palavras e tentei coordená-las para ver se dava para formar frases que dessem para serem entendidas.
E o fiz consciente de que ela jamais tomaria conhecimento desse emaranhado de palavras, uma vez que já deve ter-me expurgado de sua lembrança por não mais fazer parte da sua história. E as mulheres, mais que os homens, sabem passar a borracha nas coisas que ocorreram no desenrolar de suas vidas.
Por estarmos afastados há anos, nada sei do que lhe reservou o futuro, o que posso garantir é que consegui escapar sem chamusco da fogueira que ela ergueu para vivermos entre suas labaredas.
Como eu gostaria de saber se isso realmente se passou… Às vezes penso que foi uma história, outras que foi um causo. Não sei! O que posso afirmar é que as mulheres com as quais me relacionei, amaram-me como eu as amei, apaixonadamente e os apaixonados não traem. E tenho certeza que mulheres da têmpera das que amei, mesmo que fosse essa tal de Marília, jamais se tornaria ‘a mais cruel das traidoras’.
Pode ser que os constantes toques dos meus dedos no teclado à procura das letras necessárias à composição desse texto tenham embaralhado minha mente ao ponto de gerar essa incerteza quanto a existência dessa mulher ou da veracidade dessa narração.
Se imaginário, muito bem; se real, fazer o que? Não fosse a secretária, batendo com a mão espalmada sobre a mesa onde trabalho, não teria despertado do cochilo atribulado nem chegado a nenhuma conclusão.
– Parece até “coisa feita”, disse Angélica enquanto perguntava quem era Marília, a mulher com quem tanto eu conversava.
– Marília? Não, não sei quem é Marília!
– Não sabe? Pois, desde que entrei aqui que você se comporta como um sonâmbulo diante desse computador, mexendo nesse teclado e conversando com essa tal de Marília. Mas, Afrodite e Cleópatra você sabe quem é?!
– Pior ainda. Não conheço nenhuma das três, a não ser por intermédio da história.
– Imaginei que fosse um pesadelo, — disse a jovem.
Enquanto tomávamos um cafezinho, Angélica sorria e eu lhe agradecia por ter-me arrancado dos braços daquela que eu chamava pelo nome da amada de Dirceu.