O tempo avança

 

Autor:   Clodoval de Barros Pereira

 

Ao sair do banho caminhou até a cama onde, costumeiramente, deixava a roupa que usaria para dormir. Verificando que não procedera rotineiramente, tomou a direção do vestiário e deparou-se com o amplo espelho pendurado à parede refletindo seu corpo nu depois de tantos anos vividos.

Era tamanha a perplexidade que a mente nem dava por conta da visão fixa no rosto gretado, nas mamas flácidas, na barriga obesa… Não fosse o olho avariado não teria enxergado o púbis deformado num corpo, antes, tão bonito e cobiçado. Como o tempo é perverso… Não poupa nem a beleza.

Se não tivesse rebuscado o passado talvez nem admitisse que caminhasse para o nada. Nunca havia pensado que a vida passasse tão depressa… Deixara de viver momentos inesquecíveis por temor aos olhares maldosos e as críticas daqueles que nasceram para amargar o ócio e solidão.

Mas nada estava perdido, ainda tinha muito que fazer, iria lutar contra as adversidades, as frustrações. E teve a coragem de ir ao telefone para falar com alguém que escrevesse poesia, queria escutar um poema. E a poesia lhe rejuvenesceu o corpo, a alma e lhe restituiu a alegria e a vontade de viver.

Conheci pessoas que se deixaram sepultar ainda vivas, domadas por crendices, temores e preconceitos. Como se não soubessem que a vida é para ser vivida, que o tempo não espera. Ciente disso vivo cada instante sem deixar que o fascínio pelos bens materiais venha interferir no meu existir.

 

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