Vacina e apartação

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Para o mano Jurandir de Barros Pereira, vaqueiro dos melhores.

     O engenho Ouro Preto era como se fosse um País, tinha comércio, pecuária, agricultura e uma porção de coisas. Gado tinha para mais de mil cabeças; ovelhas, umas quinhentas e cavalos de cela e cangalha, uns quarenta. Seu proprietário que também era conhecido como o major Salu do engenho Ouro Preto não se descuidava da vacinação do seu rebanho. E essa vacinação, para nós que vivíamos longe dos folguedos da cidade, era uma diversão. Tanger o gado para o curral, laçar, pegar a mão e derrubar ágeis novilhos transformava-se numa festa que alegrava e excitava a todos, inclusive os moradores das fazendas vizinhas que vinham assistir o trabalho dos destemidos vaqueiros.

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Tempos penosos

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     As pessoas que nascem no campo e crescem sentindo o cheiro da terra, das plantas e dos animais dificilmente se acostumam levar a vida na solidão das cidades tumultuosas. Esse foi um dos problemas que meu pai teve que enfrentar ao deixar o campo e partir para morar em Palmares, cidade que ele simpatizava mas não se adaptou, teve que retornar aos seus velhos pastos, às terras do vale do Jacuípe, no Estado das Alagoas.

     Resoluto, juntou a filharada e, dessa vez, retornou ao engenho Ouro Preto de propriedade do seu tio Salustiano de Barros Lins. Aquele era o mundo que ele conhecia e gostava e que nós também conhecíamos e gostávamos, porém, precisávamos nos readaptar para, mais uma vez, enfrentá-lo. Nada estranho, apenas um exercício a mais em terreno acidentado, onde as encostas e os pequenos baixios nos retemperam para a luta ao contrário das planícies, que nós, oriundos das terras acidentadas, achamos enfadonhas e desanimadoras.

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A grande travessia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Aos que a mim foram ligados por laços de sangue, ideologia ou amizade e chegaram primeiro que eu ao outro lado do túnel, afirmo que me deixaram menor porque levaram consigo pedaços da minha vida e da minha alma, e aos que continuam caminhando ao meu lado, a exemplo do meu tio Mário de Barros Pereira, que há 95 anos caminha com a mesma destreza dos primeiros passos, o meu eterno companheirismo.

     Noutras ocasiões falei dos meus pés estropiados amassando relvas na tentativa de abrir uma vereda que me levasse a um lugar onde fosse possível permutar a minha força de trabalho por um salário que desse para comprar o alimento necessário ao desenvolvimento do meu corpo e que contribuísse para salvar o meu cérebro do processo de embotamento causado pelo processo que o Médico Josué de Castro, em seu livro Biografia da Fome, chamou de autofagia ou fome oculta.

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