Nas pegadas dos Barros Pereira

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Por intermédio de familiares tomei conhecimento que o meu avô paterno Umbelino Victoriano Pereira fora trazido de Portugal para o Brasil nos idos de 1870. Contava ele meses de idade quando deixara a cidade do Porto para cruzar o atlântico num vapor, junto a outros parentes, sob o comando dos seus pais, os portugueses Miguel Luiz Pereira e Ana Maria Pereira.

     Conta tio Mário de Barros que quando menino ouvia os tios comentarem sobre a viagem do seu avô e que um dos comentários se referia a uma sugestão que um passageiro fizera a Miguel Pereira no sentido de aplicar uma meizinha em um ferimento existente no nariz de um dos seus filhos.

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Vacina e apartação

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Para o mano Jurandir de Barros Pereira, vaqueiro dos melhores.

     O engenho Ouro Preto era como se fosse um País, tinha comércio, pecuária, agricultura e uma porção de coisas. Gado tinha para mais de mil cabeças; ovelhas, umas quinhentas e cavalos de cela e cangalha, uns quarenta. Seu proprietário que também era conhecido como o major Salu do engenho Ouro Preto não se descuidava da vacinação do seu rebanho. E essa vacinação, para nós que vivíamos longe dos folguedos da cidade, era uma diversão. Tanger o gado para o curral, laçar, pegar a mão e derrubar ágeis novilhos transformava-se numa festa que alegrava e excitava a todos, inclusive os moradores das fazendas vizinhas que vinham assistir o trabalho dos destemidos vaqueiros.

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A grande travessia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Aos que a mim foram ligados por laços de sangue, ideologia ou amizade e chegaram primeiro que eu ao outro lado do túnel, afirmo que me deixaram menor porque levaram consigo pedaços da minha vida e da minha alma, e aos que continuam caminhando ao meu lado, a exemplo do meu tio Mário de Barros Pereira, que há 95 anos caminha com a mesma destreza dos primeiros passos, o meu eterno companheirismo.

     Noutras ocasiões falei dos meus pés estropiados amassando relvas na tentativa de abrir uma vereda que me levasse a um lugar onde fosse possível permutar a minha força de trabalho por um salário que desse para comprar o alimento necessário ao desenvolvimento do meu corpo e que contribuísse para salvar o meu cérebro do processo de embotamento causado pelo processo que o Médico Josué de Castro, em seu livro Biografia da Fome, chamou de autofagia ou fome oculta.

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Era assim que eu vivia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

post03-01

     Ninguém ignora que no Serviço Público poucas vagas sobram para os filhos da gente espoliada, a não ser de Gari, para varrer ruas, recolher lixos ou outras funções menos atraentes. Os cargos ou empregos mais vantajosos são criados para a parentela desses mandões. O que sobra, ou melhor, o que eles rejeitam, são destinados à ‘cabroeira’ de quem emana, por ignorância ou subserviência, o poder que esses oportunistas exercem.

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Eles contaram, eu escrevi

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Primeiro ouvi de meu pai, depois de velhos moradores do engenho, que me tornei habitante deste Planeta às duas horas de uma madrugada fria que declinava para um domingo ensolarado. E não faz mal lembrar que naquele rincão as pessoas não se ligavam a datas ou horas de fatos acontecidos, porém, não sei por que alguém deu uma olhadela no calendário e constatou que ele marcava 14 de setembro na bucólica sede do engenho Pacheco, um velho bangüê de fogo morto.

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