Nas batalhas com você

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Em cada batalha vencida ressurge você. E você não está aqui. As subidas e descidas da ladeira de pedra, sol a pino ou em noites de trovoadas… O saco com búzios mal cheirosos. O trabalho com o verniz e a cola, químicas milagrosas que transformavam as conchas reluzentes em jóias de arte.

     Recordo as histórias do seu povo, dos seus heróis e mártires, da sua vida. Você me contava e eu as reproduzia para os vizinhos. Eles adoravam…

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A ovelha desgarrada

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     As mulheres bonitas parecem não ter paz, todo mundo quer ficar perto delas. E Vicentina jamais seria exceção. Corpo esbelto, rosto angelical e um olhar que ao misturar-se ao sorriso derramava tanta ternura que alumbrava qualquer vivente. Ainda não me esqueci do dia que, casualmente, nos conhecemos. E deve ter sido a mistura desse olhar com esse sorriso que me deixou inebriado, ao sentir sua mão firme apertando a minha enquanto sua voz melodiosa se fazia apresentar:

– Eu sou Vicentina.

– Oh, Vicentina, eu sou Chicau.

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Trilogia do risco

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Por ingenuidade ou despreparo para enfrentar os embates que a vida nos apresenta, costumamos atribuir nossos fracassos, ou acidentes que poderiam ser evitados, à fatalidade.

     Acho que devemos isentá-la da culpa de nossas imprudências, penalizando-nos pelo mau que causamos aos outros e pelos tombos que levamos em decorrência dos nossos descuidos.

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Vacina e apartação

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Para o mano Jurandir de Barros Pereira, vaqueiro dos melhores.

     O engenho Ouro Preto era como se fosse um País, tinha comércio, pecuária, agricultura e uma porção de coisas. Gado tinha para mais de mil cabeças; ovelhas, umas quinhentas e cavalos de cela e cangalha, uns quarenta. Seu proprietário que também era conhecido como o major Salu do engenho Ouro Preto não se descuidava da vacinação do seu rebanho. E essa vacinação, para nós que vivíamos longe dos folguedos da cidade, era uma diversão. Tanger o gado para o curral, laçar, pegar a mão e derrubar ágeis novilhos transformava-se numa festa que alegrava e excitava a todos, inclusive os moradores das fazendas vizinhas que vinham assistir o trabalho dos destemidos vaqueiros.

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Era assim que eu vivia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

post03-01

     Ninguém ignora que no Serviço Público poucas vagas sobram para os filhos da gente espoliada, a não ser de Gari, para varrer ruas, recolher lixos ou outras funções menos atraentes. Os cargos ou empregos mais vantajosos são criados para a parentela desses mandões. O que sobra, ou melhor, o que eles rejeitam, são destinados à ‘cabroeira’ de quem emana, por ignorância ou subserviência, o poder que esses oportunistas exercem.

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Eles contaram, eu escrevi

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Primeiro ouvi de meu pai, depois de velhos moradores do engenho, que me tornei habitante deste Planeta às duas horas de uma madrugada fria que declinava para um domingo ensolarado. E não faz mal lembrar que naquele rincão as pessoas não se ligavam a datas ou horas de fatos acontecidos, porém, não sei por que alguém deu uma olhadela no calendário e constatou que ele marcava 14 de setembro na bucólica sede do engenho Pacheco, um velho bangüê de fogo morto.

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