Carta do poeta Milton Alves a Clodoval

João Pessoa, PB, 15 se setembro de 2011.

     Estimado primo Clodoval de Barros Pereira

     Saúde e paz.

     Recebi seu e-mail de 11 do corrente, trazendo-me as boas novas que me confortaram o espírito, a alma e o meu sentimento de cristão convicto. Para mim foi comovente esse comentário que me fez você, despretensiosamente, focalizando minha pessoa, meu viver e as realizações que sedimentei no caleidoscópio da vida, como expressão do meu destino e do meu eu enquanto apenas um micro-fragmento do Universo em que nascemos.

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Coisa de Comunista

Autor: Clodoval de Barros Pereira

À estimada companheira, Professora Maria Alba Correia, estas linhas acompanhadas da minha profunda admiração por sua luta em favor dos oprimidos.

     Se o dia de ontem não me foi agradável, provavelmente, o de hoje não será tão favorável, por isso vou ficar recolhido à clausura da minha moradia onde posso repensar os acontecimentos. É nela que refaço as energias para os embates em favor da causa dos oprimidos.

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Noites infindas

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Assim que o dia começava a clarear, eu e meus irmãos pulávamos da cama e seguíamos meu pai em direção ao curral onde ele ia tirar o leite das vacas. Cada filho levava um copo com um pouco de mel de abelha para misturar ao leite cru que tomávamos morninho, tirado na hora do peito da vaca.

     Foi com ele que aprendemos apalpar, carinhosamente, as tetas das enormes fêmeas para que elas soltassem o precioso líquido que nos servia de alimento. Nessa época, beirando os 13 anos, eu era um garoto raquítico, de crescimento retardado, mesmo assim já sabia laçar uma rês, montar num cavalo e correr gado. Sabia até empunhar uma foice, uma enxada e até mesmo um revolver, uma espingarda ou um rifle 44, coisas corriqueiras àquela época naquelas brenhas.

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Nas batalhas com você

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Em cada batalha vencida ressurge você. E você não está aqui. As subidas e descidas da ladeira de pedra, sol a pino ou em noites de trovoadas… O saco com búzios mal cheirosos. O trabalho com o verniz e a cola, químicas milagrosas que transformavam as conchas reluzentes em jóias de arte.

     Recordo as histórias do seu povo, dos seus heróis e mártires, da sua vida. Você me contava e eu as reproduzia para os vizinhos. Eles adoravam…

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A ovelha desgarrada

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     As mulheres bonitas parecem não ter paz, todo mundo quer ficar perto delas. E Vicentina jamais seria exceção. Corpo esbelto, rosto angelical e um olhar que ao misturar-se ao sorriso derramava tanta ternura que alumbrava qualquer vivente. Ainda não me esqueci do dia que, casualmente, nos conhecemos. E deve ter sido a mistura desse olhar com esse sorriso que me deixou inebriado, ao sentir sua mão firme apertando a minha enquanto sua voz melodiosa se fazia apresentar:

– Eu sou Vicentina.

– Oh, Vicentina, eu sou Chicau.

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Trilogia do risco

Autor: Clodoval de Barros Pereira

     Por ingenuidade ou despreparo para enfrentar os embates que a vida nos apresenta, costumamos atribuir nossos fracassos, ou acidentes que poderiam ser evitados, à fatalidade.

     Acho que devemos isentá-la da culpa de nossas imprudências, penalizando-nos pelo mau que causamos aos outros e pelos tombos que levamos em decorrência dos nossos descuidos.

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Vacina e apartação

Autor: Clodoval de Barros Pereira

Para o mano Jurandir de Barros Pereira, vaqueiro dos melhores.

     O engenho Ouro Preto era como se fosse um País, tinha comércio, pecuária, agricultura e uma porção de coisas. Gado tinha para mais de mil cabeças; ovelhas, umas quinhentas e cavalos de cela e cangalha, uns quarenta. Seu proprietário que também era conhecido como o major Salu do engenho Ouro Preto não se descuidava da vacinação do seu rebanho. E essa vacinação, para nós que vivíamos longe dos folguedos da cidade, era uma diversão. Tanger o gado para o curral, laçar, pegar a mão e derrubar ágeis novilhos transformava-se numa festa que alegrava e excitava a todos, inclusive os moradores das fazendas vizinhas que vinham assistir o trabalho dos destemidos vaqueiros.

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