Autor: Clodoval de Barros Pereira
Sempre que conversava com o meu tio Alexandrino a respeito de homens afortunados ele apontava o seu tio Salustiano de Barros Lins, proprietário do engenho Ouro Preto, como um dos homens mais ricos que havia conhecido. Achando um despropósito, eu contestava:
– Ah, isso não! E Henry Ford? E Matarazzo?
– São uns mendigos comparados ao major Salu. Seus empregados vivem de bolsas penduradas nos braços comprando mangalhos para eles comerem. O meu tio só compra sal, o resto ele produz em sua propriedade e da melhor qualidade. É isso o que eu considero riqueza. Nunca vi crise que cruzasse as porteiras que dão acesso ao seu engenho.
Hoje, refletindo, vejo que dentro dos parâmetros regionais, claro, ele era um dos homens ricos do sei tempo, como seria dos tempos atuais, graças à sua organização empresarial e a sua maneira de conduzir as coisas.
O major não portava uma arma, não batia em ninguém, mas quando pigarreava havia sempre quem silenciasse para escutar suas verdades, que era, em geral, as verdades da vida.
Era um homem alegre, conversador e não infundia aquele medo que os senhores de engenho provocavam aos que habitavam os seus feudos. Contudo, no trato com as pessoas, inspirava respeito. Era reto nos negócios e cobrava de quem com ele transacionava a retribuição dessa qualidade. E, apesar de muito comunicativo, sabia se resguardar dos invasores da sua privacidade.
Muitos dos que dele se aproximavam tiravam o chapéu e se curvavam numa demonstração de respeito. Ele não insinuava esse ritual nem gostava de paparicos, porém, o povo, para retribuir a maneira cordata que lhe era dispensada recorria a esse cerimonial.</p.
Ainda me lembro quando seu Manoel Vaqueiro apeava do cavalo e tirava o chapéu de couro para cumprimentá-lo:
– Bom dia, major!
– Bom dia, seu Manoel, o que me trás de novo?
–Nada não major, somente para avisar a Vossa Senhoria que ontem as ovelhas tiveram cinco borregos e as vacas três bezerros.
O major chamava a sua mulher Candinha para fazer as anotações no livro que controlava o nascimento dos animais.
Mil e tantas cabeças de gado, algumas centenas de ovelhas e muitos cavalos de cela e cangalha contrastavam com o verde de suas pastagens.
Aos moradores ele interrogava sobre a vida de cada um. Perguntava como iam os seus cavalos, suas lavouras e suas criações. Queria-os de barriga cheia para não avançarem no que era seu.
Se o morador não podia comprar o cavalo para ir à feira ou transportar a mandioca para a casa de farinha, ele emprestava o dinheiro para a aquisição do animal. E não apressava o recebimento, podia passar um ou dois anos para pagar, mas teria que ser pago, ele não perdoava quem abusasse de sua boa fé.
Durante a moagem do engenho costumava sentar para ficar olhando as moendas esmagarem canas caiana, demerara e flor-da-flexa. Eram canas tenras, de caldo doce e saboroso que uma bica de madeira levava ao parol de cobre para ser distribuído às tachas efervescentes de cozimento de onde se desprendia um cheiro gostoso do mel doirado que o vento espalhava pelas cercanias, aromatizando o ar que inebriava o gado e as pessoas.
Pelas suas terras, incluindo a sede do engenho, onde edificou o casario colonial estavam espalhadas cento e vinte casas de alvenaria, cobertas de telhas e bem cuidadas. Nelas residiam seus trabalhadores, gente boa e pacata, escolhida a dedo, como dizia ele. Não ganhavam bem, porém não passavam fome. Todos tinham o roçado de onde colhiam o milho, o feijão, a macaxeira,a batata doce e os legumes. Criavam animais domésticos, pescavam nos riachos e tinham os campos repletos de fruteiras para robustecer a meninada. Frutas no engenho eram como coisa sem dono. Ninguém dava conta das jacas, das bananas, dos cajus e das goiabas existentes na propriedade. E ainda tinha o caldo de cana, o mel de engenho e o açúcar mascavo que podiam beber e comer até empanturrar.
Sempre que posso volto àquele mundo para rever os campos, as pessoas que por lá deixei e conversar com os descendentes de Chicau, de Firmino, de seu Miro e doutros que foram trabalhar com o major a partir de 1914 quando ele comprou o engenho. Uns ainda continuam com a mesma robustez dos seus ancestrais, outros, atraídos por promessas de politiqueiros, abandonaram suas roças e caíram com os costados nos fétidos barracos que circundam a periferia das cidades onde levam uma vida miserável, servindo de pasto às muriçocas.
Por lá, cuidando do engenho que o pai lhe deixou continua José Lins ao lado de Maria Gomes Lins, a mulher com quem casou há mais de setenta anos, cercado de filhos, netos e bisnetos sem jamais se afastar das normas de vida que o pai lhe deixou com o engenho: não dar nem pedir aval, não comprar nem vender fiado e só cruzar as portas de um banco para depositar, nunca para pedir emprestado.
E Zé Lins, tanto por índole como por devoção vem cumprindo fielmente essas regras sem nunca ter aberto um precedente que viesse desviá-lo dos ensinamentos daquele que ele jamais discordou ou contrariou. Foi com essa receita e trabalho que o velho Salu sempre tevê depositado em banco valor idêntico ao das terras e dos bens que sobre elas acumulou.
O major também costumava prevenir contra os politiqueiros. Dizia ele que deveríamos nos manter um pouco afastado deles por não merecerem confiança, pois, geralmente, são desonestos e oportunistas. Apesar dessa desconfiança nunca deixou de recebê-los, conduzi-los à mesa e oferecer-lhes iguarias.
Era um homem inteligente, viajado e de boa conversação. Assinava os principais jornais e ouvia os noticiários radiofônicos para se informar do que acontecia no País. Ninguém tentasse ludibriá-lo porque ele se mantinha informado dos mais recentes acontecimentos.
Acuados pela versatilidade do anfitrião, os visitantes retomavam a estrada a procura de incautos. O major, voltando ao convívio dos seus, aguçava a memória e soltava o que lhe vinha à mente a respeito das traições e das falcatruas daqueles que desejavam o seu voto.
– Está aqui ladrões, o voto para vocês! Isso ele dizia gesticulando o braço direito que batia por várias vezes na mão esquerda espalmada e voltada para baixo.
Sentava-se, acendia um cigarro e voltava ao ataque repetindo a gesticulação:
– Tome aqui ladrões! Banana para vocês!
Depois pedia que apontássemos um político honesto, cumpridor dos seus deveres e respeitador dos cofres públicos.
– Um pelo menos, só quero um.
Como o silêncio se fazia sepulcral, acrescentava:
– Olhe ai, ninguém conhece, eu também não conheço. Sei que são como porcos, brigam, brigam, mas no cocho se unem. Sabe qual é o cocho? São os cofres públicos que essa corja vive a saquear.
Meu pai aproveitava para atear fogo:
– Eu mesmo só conheço dois Partidos, o que está comendo e o que quer comer!
O major dava a maior das gargalhadas. Era exatamente isso o que ele estava querendo ouvir.
– Apoiado, apoiado, Zeca! Olhe ai quem sabe das coisas, isso sim é que é ciência.
Apesar da nossa diferença de idade e de saber, escorava-me nos ensinamentos de Lênin para contestá-lo:
– Não, isso não! Ainda tem políticos que não fazem parte dessa corja!
Ele gargalhadas com a minha discordância:
Ta aí Zeca, ta ai! Se a gente viver, um dia você vai me contar.
Em parte, o major tinha razão. Hoje eu tenho muito a contar, porém, apesar da sua vida ter sido longa não me foi possível aprender a tempo para lhe falar sobre tipos execráveis que a política me obrigou a tolerar.
Pois é, falei de um homem que amava a terra e sabia cultivá-la sem exauri-la nem depredá-la. Não contei de sua vida para atirar-lhe flores, porém, se algumas pétalas lhe atingiram a calva, provavelmente, desprenderam-se dos bicos dos tucanos e dos jacus que voavam pelas copas das imensas árvores que formavam as matas que ele tanto preservou.
Nunca derrubou uma árvore para vender e ficava irritado quando alguém lhe propunha esse tipo de negócio.
Era um ecologista nato e o seu exemplo começava pelo cuidado dedicado as suas matas, as suas terras e aos riachos que as banhavam.
Justiça seja feita.