Autor: Clodoval de Barros Pereira
Para o mano Jurandir de Barros Pereira, vaqueiro dos melhores.
O engenho Ouro Preto era como se fosse um País, tinha comércio, pecuária, agricultura e uma porção de coisas. Gado tinha para mais de mil cabeças; ovelhas, umas quinhentas e cavalos de cela e cangalha, uns quarenta. Seu proprietário que também era conhecido como o major Salu do engenho Ouro Preto não se descuidava da vacinação do seu rebanho. E essa vacinação, para nós que vivíamos longe dos folguedos da cidade, era uma diversão. Tanger o gado para o curral, laçar, pegar a mão e derrubar ágeis novilhos transformava-se numa festa que alegrava e excitava a todos, inclusive os moradores das fazendas vizinhas que vinham assistir o trabalho dos destemidos vaqueiros.
Essa curiosidade se dava porque não era fácil domar garrotes valentes e novilhas endiabradas que só recebiam corda em época de vacinação. Era uma festa e essa festa atraia a vaqueirama das fazendas vizinhas que vinha ajudar seu Manoel de Almeida e seu ajudante Nezinho Firmino um aprendiz do ofício de vaqueiro. Do engenho Amapá vinha José Inácio, vaqueiro de Paulo Gomes de Barros; da Usina Porto Rico, Ventania, vaqueiro de seu Zequinha e de outros engenhos, vaqueiros menos famosos, cujos nomes não recordo.
Montado num bom cavalo, Ventania era tão rápido que por essa razão deram-lhe essa alcunha. O boi que ousasse correr à sua frente, logo seria derrubado. Ventania parecia um furacão. O major Salu não se agradava dessa maneira de trabalhar. Achava que Ventania era muito violento; maltratava o cavalo e a rês. Sempre que ouvia elogios às loucuras dele, protestava:
– Miserável! Em cavalo meu ele não monta. Trabalhou aqui, botei pra fora! Não há cavalo que aquente com ele.
Apesar dos meus 15 anos, eu também montava e ganhava os cercados e os campos encapoeiradas ao lado dos vaqueiros. Partia orgulhoso à procura dos animais que seriam vacinados contra aftosa, carbúnculo que chamavam caruara e a raiva que os morcegos hematófagos espalhavam pelo rebanho.
O gado que vivia em pastagens encapoeiradas, longe do convívio humano, dava muito trabalho. Quando conseguíamos juntá-lo, dispersava-se. Eram rezes alvoroçadas, ruins de manejo. Somente com ajuda de treinados cachorros podíamos arrancá-las dos fechados capões de mato para tangê-las ao curral.
Era uma luta. Cavalos suados soprando pelo nariz, cachorros com as línguas de fora e homens enraivecidos que sangravam pelos arranhões causados por espinhos e gravetos.
Os vaqueiros se impacientavam quando o gado já a caminho do curral, estourava, corria para todos os lados e desaparecia mato adentro. Somente a vocação para esse tipo de trabalho poderia reanimar para começar tudo de novo.
Novilhos enfurecidos investiam contra nossos cavalos, tentando atingi-los com seus afiados chifres. Firmes, em nossas ágeis montarias, escapávamos aos ataques dos temidos animais.
Tínhamos que ser rápidos para não deixar que os bois matassem os nossos cavalos, pois, caso isso acontecesse, ficávamos desprotegidos e expostos à sua fúria.
Parece que estou vendo a vaca de cor branca que, depois de laçada pelas pontas e amarrada ao mourão no centro do curral, conseguiu tirar a corda dos chifres e investir contra Manoel Vaqueiro, este não podendo se defender do ataque deitou-se ao pé da cerca, mas a vaca não desistiu do ataque e por várias vezes, tentou alcançá-lo.
Impossibilitada de atingi-lo com os chifres por serem pequenos e voltados para trás, ela babou-lhe o corpo enquanto lhe fuçava soprando pelo nariz. E vendo que não conseguia o seu objetivo, ajoelhou-se e deitou-se sobre ele. Ao ver que a vida do vaqueiro corria perigo, meu pai foi em sua defesa e por fora da cerca fustigou-a com a ponta da faca não permitindo que ela concretizasse seu intento.
Somente com Zé Inácio, vaqueiro de Amapá, isso não ocorria. Se ele notava que a rês queria atacar, prontamente saltava do cavalo e se punha de pé em sua frente; se o ataque não se consumasse o vaqueiro, para provocá-la, atirava-lhe a cara o chapéu-de-couro. A fera ao receber a pancada, baixava a cabeça e investia para golpeá-lo. Era o que ele queria. Lançava-se entre os seus dois chifres e se abraçava ao pescoço da bicha. Enraivecida, ela pulava, sacudia o pescoço para cima e para baixo e ele lá, agarrado, a espera do momento de conseguir escapar daquele abraço. Ao realizar essa façanha, com a mão direita ele agarrava a venta, com a esquerda, o chifre ou a orelha esquerda para poder engalfinhar-se numa luta de vida ou morte.
Mas o Zé sempre vencia, derrubava-a. Para ajudá-lo a mantê-la no chão, passávamos o rabo da rês por entre as coxas, apertávamos e pressionávamos nosso joelho em sua ilharga, enquanto o vaqueiro a mantinha com a cabeça retorcida. Essa é a maneira mais fácil de dominar um boi no campo sem usar corda. O bom vaqueiro precisa apenas de um pouco de força, traquejo e coragem.
Ali mesmo André de Holanda Vasconcelos, Zé Lins ou meu pai aplicava-lhe a vacina. Solta, levantava-se com uma raiva dos seiscentos diabos. Nem cavalo podia ficar por perto, mas ela não investisse contra Zé Inácio porque ele lhe derrubava novamente. E José Inácio não usava pano vermelho para se defender, escudava-se no traquejo e na valentia.
Se a rês era do tipo que corria para não entrar no curral, era dessa que gostávamos, todos queriam ir ao seu encalço. Jogávamos os cavalos atrás e quem com ela primeiro emparelhasse, puxava-lhe pela cauda e a queda se fazia desastrosa. Desse jeito meu tio Salu não gostava, tínhamos que fazer escondido, mas quando ele tomava conhecimento, esbravejava:
– Desgraçado, desse jeito você mata o bicho!
– Major, ela não estava querendo entrar para o curral, estava descaminhando as outras, foi o jeito.
– O jeito o que desgraçado! Cambada de ladrões? Desse jeito vocês arrebentam o animal.
Nem sempre, mas em alguns casos o acidente era tão grave que, se não morresses, a rês ficava deitada para nunca mais se levantar. A queda era muito violenta e se acontecia nas abas das serras ou nas íngremes encostas, o bicho rolava ladeira abaixo como um fardo desgovernado. Eu adorava derrubar assim, hoje já penso diferente, acho que o animal é nosso irmão e tenho por ele o mesmo carinho que tenho pelas árvores, pelas pessoas e por toda a criação da natureza.
Agora se aparecesse um barbatão valente, tão valente que dele ninguém pudesse se aproximar era a vez de Fido. O cão pulava, cravava-lhe os dentes no focinho e segurava. O bicho tentava se desvencilhar, urrava, levantava a cabeça mas fido se mantinha pendurado, não largava.
– Segura, Fido! ― gritava seu Manoel.
Vencido, o bovino baixava a cabeça e não oferecia a mínima reação quando lhe passavam a corda pela ilharga para derrubá-la a fim de vacinar.
Quando a vacinação se aproximava do fim, os vaqueiros começavam a entristecer porque sabiam que a festa ia se acabar. Agora era esperar o próximo ano, mas a espera não se fazia enfadonha porque ficava uma crônica rica das bravuras dos vaqueiros, dos bois e dos cachorros. Cachorro como Fido que orgulhava seu Manoel de Almeida, o vaqueiro bom de laço e de gatilho.
Sim, agora era esperar; esperar o próximo setembro para podermos assistir as proezas de bravos como Ventania, Zé Inácio e Manoel Vaqueiro e ouvirmos aboios como o que vem abaixo, cujo compositor deixo de nominar por ignorar a autoria
“Quando a morte mata um,
dá as costas e vai embora,
fica dando gargalhadas
e assistindo de fora,
mas quando mata um vaqueiro,
garanto que ela chora.”
Vacinada a última rês, agora era esperar o próximo ano para voltarmos a escutar os aboios que ecoavam pelas quebradas de Pacheco, pelas encostas do Gôgo, Santa Bárbara, Ouro Preto e Canta-Galo. Aboios como o que encerro este texto, que, também, desconheço a autoria, mas vou colocá-lo, seja lá o que Deus quiser. É mais ou menos assim:
“Minha mãe quando eu morrer
coloque no meu caixão,
meus arreios, minhas esporas,
chapéu de couro e gibão
para eu correr lá no céu
nas festas de apartação.“