Pedro, o andarilho

Autor: Clodoval de Barros Pereira

O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever.
José Saramago, – Prêmio Nobel em Literatura.

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Pedro Veríssimo, velho amigo do meu pai, conviveu conosco durante muitos anos permitindo que bebêssemos na fonte de sua inteligência as mais sábias lições de vida. Por ser ele um homem inquieto, dinâmico e empreendedor estava sempre viajando e, em virtude disso, eu costumava chamá-lo de Andarilho.

Era homem da têmpera do meu pai,o Zeca Barros, afeito aos pesados trabalhos do campo e a dura faina dos canaviais. Um dia, em épocas diferentes, pensaram numa vida menos árdua e saíram para procurá-la na cidade, acharam-na, mas não se amoldaram à vivência urbana.

Cadê o relinchar do cavalo, o berro do boi, o canto do galo? Impossível viver sem escutar o balido das ovelhas, o mugido das vacas, o trinado dos pássaros… E os banhos de rios, as matas, os caminhos tortuosos por onde cavalgavam se deleitando com a folhagem orvalhada cintilando sob o clarão da lua? Ah, a falta dessas coisas mexiam com seus corações e afligia suas almas.

Ao meu pai, bastou um aceno do seu primo Edson Gomes Lins para que ele retornasse a Ouro Preto, trocasse as barrancas do Una pelas do vale do Jacuípe, onde corria o rio dos seus primeiros banhos.

Tem gente que não tem idéia do que é a convivência com um rio, separar-se dele é como separar-se de um grande amor, desses que encabrestam homens e mulheres. Lamento por quem não teve um rio para mergulhar, como eu sempre tive e continuo tendo, mesmo na memória.

E retomando a narrativa da volta, eu gostaria de lembrar que, para fazê-la, meu pai passou nos cobres o único bem restante, um caminhão que transportava mercadorias de Recife para Palmares. O resultante dessa venda, ele comprou umas vaquinhas prá dar leite à filharada e tentar refazer o pequeno patrimônio que estava se esvaindo. Pena que isso levava tempo, gado prospera amando e alguns dos nossos amigos não entendiam muito de amor. Habituados a sentarem em mesas fartas, impacientaram-se, sumiram.

Mas o cio tomou conta das vacas, das ovelhas e até os pavões e as galinhas entraram em alvoroço. Isso era sinal que os pequenos plantéis iriam crescer e, devagarzinho, foram crescendo. Eles passavam nas proximidades da casa pela estrada que margeava o Jacuípe, corriam os olhos nos rituais amorosos dos animais e sentiam que aquilo sinalizava prosperidade.

E por serem conhecedores da faina rural, logo pressentiram que brevemente teríamos leite, carne, ovos e agasalho. Isso fez com que dessem rédeas aos seus cavalos para retomarem o caminho de nossa casa onde apeariam para ocuparem seus lugares em nossa mesa e em nossos corações.

Meu pai era um homem tolerante, compreensivo e conhecedor das fraquezas humanas, sabia perdoar essas pobres criaturas. Dizia ele que era assim mesmo, não tinha como consertar o mundo, pois, as pessoas, em sua maioria, eram mesquinhas em suas atitudes.

Com o passar do tempo comecei a sentir que era verdade. Quando a colheita era boa, encostavam, aparecia com mais freqüência; quando os frutos começavam a escassear, tomavam outros rumos, iam sentar noutros alpendres, manusear outros talheres.

Ainda recordo o dia que cruzamos o Jacuípe e descarregamos os cacarecos que mobiliavam a casa. Olhamos em volta e só avistamos matos… O mundo parecia trancado. Parentes e amigos nem pensar, somente um pássaro conhecido como pitiguari não parava de açoitar num cajueiro ao lado da casa:

– Quem partiu, já vem! Quem partiu, já vem!

O pitiguari cansava o bico, se esgoelava de anunciar e, a não ser Pedro Veríssimo, não aparecia ninguém.

Na cidade de Palmares, no engenho Ouro Preto, nas fazendas Arizona ou Petrópolis, em qualquer lugar que estivéssemos nunca deixamos de escutar a voz atroante do Dom Quixote nordestino anunciando sua chegada. O seu grito era inconfundível, como inconfundível era a sua roupa cáqui, o seu surrado chapéu de feltro, os seus inseparáveis chinelos…

Sempre que ele chegava, eu me aproximava para ouvir as suas histórias. E ficava a escutar ele contando para o meu pai novidades que trazia das terras por onde passara. Sabia de tudo. Falava com eloqüência das mortes inesperadas, dos crimes e das honras enlameadas lavadas com sangue, assepsia que muitos dos nossos acreditavam, tanto quanto Pedro.

Pedro só não gostava de falar sobre a companheira que se fora, a lembrança lhe atiçava o penar. Realmente, depois da morte da mulher e da ida do filho Amaro Veríssimo para Recife, sua vida se desmoronou. Essas duas ausências atormentaram-lhe tanto a existência que ele abandonou a roça, as criações e a casa do sítio que o senhor Gustavo Borges Fittipaldi lhe concedera para viver.

O senhor Gustavo era o proprietário do engenho Itajubá, situado no município alagoano de Novo Lino e pai do Médico Aloísio Fittipaldi, a quem Pedro queria bem e recorria sempre que algum problema de saúde lhe ameaçava.

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Pois é, como ia dizendo, o homem pôs os pés na estrada, ganhou o mundo, sumiu… E de quando em vez aparecia para rever o sítio e a casa como quem volta para rever um sepulcro onde jazia tudo que construíra e amara.

Ainda bem que ele conhecia o caminho da nossa casa e nós que ele caminharia em sua direção, certo que festejaríamos sua chegada. Adorávamos vê-lo quebrar a monotonia reinante e alongar as noites até o cantar do galo.

Meu pai e ele se intercalavam contando suas histórias entrecortadas por grandes gargalhadas. E eu ficava estupefato escutando a sabedoria se transformando em imagens e se derramando pelas bocas dos dois homens, um com poucas letras, o outro sem nenhuma.

Pedro se entusiasmava, ficava de pé e eu olhava na parede a coreografia da sua sombra projetada pela mortiça luz amarela do candeeiro cujo pavio era alimentado por querosene, um conhecido derivado de petróleo.

Apesar de não ter frequentado à escola, era um mestre na arte de contar e de viver. E tinha mais, contando, só falava de vitórias, apesar de sua vida ser cheia de revezes, a palavra derrota não constava do vocabulário que ele dominava.

Lamentávamos quando Pedro anunciava partir, deixar a nossa companhia. Como demorar, se o homem era um andarilho? Passava algumas semanas conosco, tempo suficiente para recobrar as energias e voltar a pisar as veredas tortuosas do mundo, levando consigo a metade do seu otimismo, somente a metade, porque a outra ele deixava conosco.

A penúltima visita que ele me fez foi na época em que eu gerenciava a Usina Santa Terezinha, no Município de Água Preta, em Pernambuco. Era um dia de sábado e eu estava bastante atarefado no escritório da usina, recebendo os fornecedores de canas, quando a secretária anunciou que um senhor chamado Pedro Veríssimo desejava me ver.

Ordenei para trazê-lo à minha presença e assim que o velho começou a passar entre os dois birôs onde estavam os irmãos, os doutores Ricardo e José Adolfo Pessoa de Queiroz, proprietários da usina, eu já estava de pé para recebê-lo. Sentindo que eles estranharam a maneira cordata como eu abraçara aquele homem tão simples e tão alheio aos negócios da empresa, resolvi apresentá-lo:

– Este aqui é o meu amigo Pedro Veríssimo, um dos homens que gozava da simpatia e da amizade do coronel José Pessoa de Queiroz, avô dos senhores!

Depois que Pedro os cumprimentou e falou da amizade que manteve com o “coronel”, levei-o para sentar-se junto a mim. Afeito a todo tipo de luta, eu achava que nada poderia abater o ânimo daquele homem tão resistente às refregas da vida. Pensava eu que mesmo lhe arrancando um olho, um braço, uma perna, ele jamais se vergaria. Engano, Pedro estava abatido, o coração em frangalhos.

Nunca o vi triste, a não ser naquele instante. Também não era para estranhar, viera dividir comigo a dor que a morte repentinado filho Amaro lhe causara. Ao vê-lo entrar percebi que algo doloroso havia acontecido, faltava-lhe o sorriso que caracterizava a sua alegria. Entrou cabisbaixo, como uma criança amedrontada, procurando um lugar onde pudesse se esconder para escapar à punição por uma trela cometida.

Em resposta ao meu olhar interrogativo, sua voz embargada perguntou se eu sabia o que acontecera. Olhei-o gesticulando, como se lhe dissesse que não sabia de nada, que ele contasse, que eu estava ali para escutá-lo.

Com a voz mais embargada ainda, as palavras escorregaram pela garganta e espatifaram-se nos lábios transformados em cascatas pela torrente de lágrimas que lhe escorria pela face sofrida, afogando-lhe a frase balbuciada com o maior esforço possível.
– Cáu, Amaro morreu!

Escutei em silêncio, nada lhe perguntei Se ele sabia que eu comungava com a sua dor, não tinha porque magoar ainda mais o seu sofrido coração. Convicto de que não é com todo mundo que se divide um sentimento causado por uma grande perda, ergui-me da cadeira e dei-lhe outro abraço para fazer-lhe ver que comungava com a sua dor e calava para não magoá-la.

Não é fácil perder um ente amado, e o meu amigo perdera um que amava e admirava. Aliás, era mútuo o sentimento existente entre os dois. Se Amaro vibrava com as proezas que brotavam da mente sábia do pai, Pedro aplaudia o saber e a desenvoltura do filho com ares de profunda felicidade.

O pai era alto e forte enquanto o filho pequeno, com visível saliência torácica, resultante de um traumatismo na coluna vertebral, provavelmente um acidente durante o parto, porém, no otimismo e na sabedoria, os dois se nivelavam.

Quando Pedro deixou o sítio e passou a negociar com pequeninas mudas de fruteiras, pacientemente, contabilizava na memória o nome das pessoas e a quantidade das mangueiras, das laranjeiras, dos coqueiros e demais variedades. Por amar o trabalho e a agricultura, reivindicava, sem onerar o custo, o plantio de cada arvorezinha somente pelo prazer de cavar a terra para lhe introduzir a raiz da plantinha.

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Na ânsia de fazer do mundo um pomar, Pedro demorava voltar à casa de Amaro, afligindo-o com sua ausência. O filho implorava para que o pai descansasse o peso daqueles tão sofridos oitenta e três anos, mas ele retrucava na sua brabeza carinhosa:

– Você é besta safado, vá cuidar da sua vida!

Abraçavam-se e, às gargalhadas, o pai cedia ao apelo do filho amado.

– É, vou botar abaixo, estou precisando morder a casca do “pau-teú.”

O pau a que ele se referia é uma árvore existente nas matas que, segundo os caçadores, um tipo de lagarto conhecido como Tejo, sempre que mordido por cobra, corre à procura dele para morder a casca de sua raiz por servir de antídoto ao veneno das serpentes.

E passava uma, duas, três semanas, depois fugia, retomava a estrada, ia correr mundo. Fugia mesmo, porque a casa de Amaro era gradeada e ele quando saia pedia aos familiares que não dessem a chave do portão ao pai para ele não ir embora. Mas Pedro usava uma corda, amarrava no gradil e conseguia pular. Amaro sempre que chegava do trabalho procurava por ele e sofria quando não lhe encontrava, havia fugido e os netos não sabiam explicar como procedera nem o destino que tomara.

– Para que deram a chave ao meu pai?!

Ninguém havia dado chave alguma, Pedro fugira e ninguém sabia como, somente nós, porque ele, às gargalhadas, contava como procedia.

Seus amigos e admiradores se espalhavam por terras que se estendiam de Alagoas ao Rio Grande do Norte, mas Alagoas era a terra da sua nascença e do seu coração. Pelas terras dessas Alagoas, que ele tanto conhecia, seus chinelos palmilharam veredas, estradas carroçáveis e asfaltadas.

Ao que me parece, foi por volta de 1975 que o gigante transpôs a barreira das oito décadas e começou a sentir o peso dos anos vividos. Acho que sim, porque nessa época, numa de suas vindas da casa de Amaro, em Recife, ele nos presenteou com uma fotografia na qual se apresentava vestido de paletó e gravata, vestes que não nunca foram do seu agrado nem do feitio.

Meu pai entendeu a intenção de Pedro ao nos oferecer aquela foto e me falou do recado sutil que ela continha. O amigo achava que se aproximava o dia de sua partida para as plagas eternas, o que não aconteceu, o guerreiro ainda permaneceu conosco por quase uma década.

Mas ninguém se livra do que está determinado. Numa dessas andanças ele cruzou com outro Andarilho a quem os potentados escarneciam, chamando-o de Vagabundo da Galiléia. Não deu outra, o Homem estendeu a mão a Pedro e o levou para cuidar das fruteiras existentes no Paraíso. Ele deve ter adorado porque lá, segundo falam, os frutos são repartidos com todos, da forma como ele gostava que aqui fosse…

Saudoso de sua companhia, só me resta contemplar o seu retrato incluso na galeria onde homenageio os meus.

Os meus, os de sangue e de amizade, inclusive os companheiros e as companheiras de ideais que tiveram suas vidas imoladas na luta pela partilha dos frutos da Terra produzidos pelo esforço diuturno dos trabalhadores.

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