Dina, a guerrilheira

 

Autor:  Clodoval de Barros Pereira

 

1                                                                         Dina

A jovem encontrava-se doente, faminta e desidratada, mas seus pés estropiados insistiam a passos curtos sobre a folhagem úmida da floresta. A guerrilheira precisava encontrar os companheiros dispersos após enfrentamento com militares guiados por pistoleiros assalariados para matar.

Há dias, semanas talvez, Dina caminhava na solidão da mata, procurando um detalhe em cada folha, em cada graveto, em pedaço de chão. Ela queria descobrir algum rastro, sinal ou até mesmo vestígios, que ao menos indicasse o rumo tomado por seus irmãos de combate espalhados naquele mundão. Mas nada lhe chamava atenção, nada lhe alentava o ânimo.

E a mata começava a empardecer antes que a noite derramasse seu negrume pelas frestas de suas árvores. Não fossem os clarões vindos dos raios seguidos de ensurdecedores trovões, a combatente não teria como enxergar, ao menos, uma loca aonde viesse arriar o corpo exausto.

Apesar de quase familiarizada com o clima da região, fora surpreendida por esse temporal que podia aliviar sua sede, nunca o estômago desprovido de alimentos necessários à vida.

E o aguaceiro despencava acompanhado de ventos fortes sacolejando as altas copas das árvores. Na primeira poça que se formou, ela bebeu, encheu o cantil e retornou a procura de um local onde pudesse se resguardar do grosso gotejar para atenuar o frio que, além de lhe causar tremores, provocava o ininterrupto martelar de dentes.

Os pés descalços, a vestimenta molhada e esfarrapada, concorriam para lhe aumentar o frio e a febre acarretados pela malária contraída por picadas do mosquito transmissor do mal que lhe atormentava.

Nenhum medicamento, nenhuma companhia, nada que pudesse aliviar o sofrimento que passava naquele ermo tenebroso, inegavelmente assustador. Preocupava-lhe as armas. Se o mormaço úmido as enferrujava, a chuva iria contribuir para corroê-las ainda mais.

E ali estava Dinalva Conceição Oliveira, conhecida por ‘Dina’, filha de Viriato Augusto de Oliveira e Elza Conceição Bastos, nascida em 16 de maio de 1945 no sertão baiano, no município de Castro Alves. Naquela terra também nascera o poeta que, como ela, entregou-se à luta contra os escravagistas.

A adorável menina, apesar de pertencer a uma família humilde, formara-se em Geologia na Universidade Federal da Bahia no ano de 1968. Estudara tratados sobre clima, terra, rochas, formação do nosso Planeta e até conhecia o medicamento capaz de aliviar a febre e o frio que tanto lhe atormentava, mas não dispunha de meios para ir à sua procura.

Em 1969, no ano de sua formatura casara com o colega de turma Antônio Carlos Monteiro Teixeira (que também foi morto), e partiram para o Rio de Janeiro. Na cidade maravilhosa passou a trabalhar no Ministério das Minas e Energia e a participar dos trabalhos sociais nas favelas, mas ao descobrirem sua participação na luta política contra a ditadura, começaram às perseguições.

Não tendo como escapar, largou o trabalho para se embrenhar com o marido e alguns companheiros naquelas matas com o intuito de fugir dos que vinham prendendo, torturando e matando quem ousasse lhes contestar.

Era maio de 1970 quando o casal se juntou aos integrantes do PCdoB e partiram para a região do Araguaia onde iriam organizar uma guerrilha para iniciar a luta contra a ditadura militar. Na região onde se sediaram, passaram a conviver com a população local, desenvolvendo trabalhos sociais e políticos com o intuito de integrar camponeses ao grupo.

Assim que a ditadura descobriu o paradeiro dos jovens ligados ao Partido Comunista do Brasil, milhares de homens das Forças Armadas partiram munidos de carros de combate, lanchas, aviões e helicópteros para dominá-los.

Não imaginavam que a fúria insana da ditadura seria surpreendida pela reação armada dos jovens que estavam decididos a enfrentar qualquer ataque.

Essas Forças eram constituídas de milhares de combatentes destinados a emboscar, matar e decapitar menos que uma centena de jovens que se tornaram guerrilheiros para enfrentar os carrascos da ditadura que vinham escorraçando a Democracia, a Liberdade e a vida do povo brasileiro.

Esses jovens não foram bem sucedidos, os que não morreram em combates ou emboscadas, depois de rendidos e presos, a exemplo de Dina, que dias depois seria assassinada e decapitada, prática corriqueira adotada contra os que compunham as Forças Guerrilheiras do Araguaia.

Hoje, lembrando-me deles, resolvi escrever essas modestas linhas com o objetivo homenagear os homens e as mulheres que combateram na selva Araguaia, especialmente a guerrilheira Dina que fazia tremer de medo os seus perseguidores. Contam que alguns militares, especialmente os recrutas, quando escalados para entrar na mata, choravam de medo ao pensar num confronto com a jovem combatente.

Diversos escritores relatam sua bravura e os moradores da região ainda não esqueceram a lutadora solidária, cuja tenacidade paira no imaginário de quem a conheceu ou dela tomou conhecimento.

2                                                               Dina aos 15 anos.

Militares inimigos chegavam a afirmar que Dina era tão valente que atemorizava os soldados com sua audácia e teve um que chegou a confessar:

(…) “minha tropa foi cercada pelo grupo de Dina, se ela tivesse um poder de fogo igual ao meu, eu não estaria aqui para contar nada.”

Tanto é que seu nome continua ressoando nos rincões de São Geraldo, Xambioá, nas margens do Araguaia e nas palhoças espalhadas pelas matas.

Recentemente, assisti um documentário em que uma moradora da região contava que a última vez que a viu, ela estava sozinha e assava em um fogo improvisado no chão, uma cobra que matara para comer, único alimento disponível para saciar a fome que devorava seu estômago.

Lembrou à senhora que seus pertences constavam de um Rifle Winchester, 44; um Revolver 38 e a surrada mochila que conduzia às costas com suas munições. Encontrava-se quase nua, trajava uma tanga esfarrapada e uma blusa com um rasgão que lhe deixava um seio à mostra.

Fazia meses que não menstruava, a falta de líquido e de alimento lhe deixava desidratada, pálida e desnutrida. E há muito não comia açúcar nem sal e nem dispunha de sangue necessário para atender as necessidades fisiológicas do seu organismo.

As pessoas que andaram pelas povoações que ela viveu falaram que continua querida por sua colaboração com a população camponesa, atuando como professora e parteira. Ainda hoje é lembrada por quem viveu a época da guerrilha. Muitas vezes, ela se deslocava sozinha nas madrugadas, de barco pelo rio Araguaia, para ajudar pobres mulheres em trabalho de parto.

Seu nome era conhecido e temido entre os convocados para participar das operações de combate à guerrilha. Isso porque em seus enfrentamentos com tropas inimigas sempre conseguia escapar ilesa dos cercos. Foi essa habilidade que fez surgir a lendária crença espalhada entre o povo da mata e os recrutas que, mesmo ferida, não era alcançada porque se transformava em borboleta e fugia sem que ninguém percebesse.

A verdade é que Dina, além de sua convicção ideológica, tinha bom preparo físico, atirava bem e era uma mulher decidida, altiva e de forte personalidade. Deve ter sido a soma resultante dessas qualidades que motivou sua escolha pelo Partido para o sub-comando do Destacamento “C” comandado pelo valente, temido e também lendário Oswaldão.

Com a morte do comandante negro fora indicada para ficar a frente do Destacamento já desfalcado com a morte de alguns dos seus componentes.

 Estava com aos 29 anos quando foi rendida e levada para o profundo fosso cavado a céu aberto na base militar de Xambioá, em Tocantins, onde aprisionavam quem discordasse da ditadura instaurada. Saia somente quando retirada para as seções de interrogatório onde era impiedosamente torturada por não prestar qualquer informação, ao serviço de inteligência do exército, que viesse a comprometer a vida ou a liberdade dos seus companheiros.

Penso que ela não sabia avaliar o que seria mais cruel, se a prisão naquele fosso ou as macabras seções de torturas. Também pudera, viver naquele profundo buraco sobre os próprios dejetos, expostos à chuva, ao sol e ao sereno, onde eram atirados os alimentos exigidos pela sobrevivência, inclusive a água que descia em baldes presos a cordas.

Foi o então capitão de codinome Curió que ordenara fosse içada para ser conduzida a uma mata próxima, onde seria executada a tiros desferidos por um sargento do exército de codinome “Ivan”. Conforme documentos pesquisados, o sargento “Ivan” era um ex-seminarista que fora infiltrado na área da guerrilha, disfarçado de camponês, em julho de 1974.

Enquanto subia para cabine do helicóptero, a jovem prisioneira deve ter percebido que iriam reconduzi-la à mata para ser executada como muitos dos seus companheiros que lutavam contra tamanhas atrocidades.

Assim que a aeronave pousou numa clareira aberta na floresta, arrastaram-lhe para o chão e um dos sicários determinou que a jovem guerrilheira caminhasse alguns metros e permanecesse de costas. Certa de que teria chegado o instante de sua morte, a revolucionária perguntou:

‒ “Vou morrer agora?”

‒ “Vai, agora você vai ter que ir”, respondeu “Ivan.”

‒ “Quero morrer de frente”, pediu a jovem.

‒ “Então vira pra cá”, ordenou o carrasco.

“Ela disse que queria morrer de frente, mirando o meu olhar,” disse o frio e covarde assassino. Nessa mesma conversa o tirano também falou da expressão de ódio espelhada no semblante da mulher valente ao encará-lo no momento que iniciara os disparos dirigidos ao seu rosto e ao seu peito.

Após o massacre, foi degolada para que sua cabeça fosse levada a Xambioá como troféu de guerra, ficando seu corpo para servir de pasto aos abutres e demais animais existentes na selva.

O perverso subiu na aeronave esmurrando o peito respingado do sangue da moça que acabara de matar porque ela se destinara a defender uma vida menos sofrida para a gente espoliada e oprimida.

Esses títeres ainda não aprendem que não morrem aqueles que sacrificam suas vidas para minorar as necessidades da gente faminta e injustiçada de qualquer que seja o país.

Dina e seus companheiros jamais serão esquecidos, suas lutas e seus calvários foram esculpidos no Pedestal da História e nos corações dos que não nasceram para a servidão, a exemplo do meu.

Já os tiranos não terão esse reconhecimento, seus nomes serão vilipendiados e execrados pela posteridade de tal forma que ficarão na História como carrascos por suas atrocidades praticadas contra a humanidade.

E que suas almas, se é que os perversos as têm, sejam lançadas às profundezas do inferno para se perpetuarem sobre a lama fétida do esquecimento, lugar para onde são destinadas todas as podridões.

Maceió, 20 de março de 2016

O Rebelde da Galiléia

 

“Olhei em roda e não houve quem me acudisse; busquei, e não houve quem me ajudasse.”

Sem título

Falam que filho de pobre não nasce, aparece. E tudo indica que já fazia uns dez anos que eu havia aparecido neste mundo quando comecei a escutar comentários sobre as atrocidades praticadas contra Jesus Cristo.

Mesmo sabendo serem coisas remotas, indignava-me os requintes da perversidade humana. Cheguei a pensar que aquelas barbaridades não mais se repetiriam. Puro engano. Os carrascos de hoje desenvolveram formas de torturas muito mais cruéis que as praticadas por seus ancestrais.

E seus descendentes, herdeiros da usura e da maldade, continuam perseguindo, torturando e matando as pessoas que ousam protestar contra as mesmas injustiças que o jovem Andarilho vivia a combater pelas povoações da sua terra.

E olhem que dois séculos já transcorreram depois que empreenderam a busca que resultou na capturar do Galileu que, segundo seus captores, vivia subvertendo a ordem ao insuflar o povo contra as injustiças praticadas pelos poderosos contra a gente pobre e indefesa.

Os governantes de ontem, que pouco ou nada mudaram em relação aos de hoje, pediam ao povo que denunciasse às autoridades o paradeiro do malfeitor que era descrito como um jovem de 33 anos, com cabelos e barba em desalinho a emoldurar um rosto com expressão de tristeza e sofrimento que, inexplicavelmente, atraía simpatia enquanto levava a comoção aqueles a quem dirigia se olhar.

E, segundo os asseclas do Império, esse jovem vivia pelas povoações pregando em defesa da ralé suja, faminta e marginalizada, enquanto dava às costas à elite farta e bem vestida, semelhante à que continua insistindo em nos oprimir.

Já os seus seguidores diziam que Ele pedia que lutassem em favor de um mundo regido por Leis emanadas do Amor e advertia que nesse mundo, as coisas necessárias à vida teriam que ser comuns a todos os viventes.

Outros diziam que em suas pregações Ele afirmava que éramos filhos de um só Pai, formávamos uma só família e, assim sendo, deveríamos nos amar como Ele sempre nos amou.

Isso apavorava os que se mostravam contra os que se uniam em nome do amor e da solidariedade. E tremiam diante do subversivo que nos tempos atuais seria chamado de comunista.

E os governantes se apavoravam ao saber que o jovem rebelde era seguido pela ralé faminta, esfarrapada, composta por desempregados, crianças sem leite e mulheres desgarradas, muitas delas apontadas como meretrizes.

Mas, apesar do que propalavam sobre essa gente, ela não tomava nada de ninguém e cumpria, fielmente, as recomendações do Andarilho: “A César o que for de César e a Deus o que for de Deus”.

Como se vê, o Filho do Homem não recomendava apego às coisas materiais, tanto é que nem Ele mesmo as possuía, comia do que todos comiam e dormia onde todos dormiam.

Vivia pedindo que ajudassem os necessitados, amparassem os enfermos, amassem as crianças e se precavessem ao julgar porque um dia, também, seriam julgados.

Apesar da clareza de sua mensagem, os poderosos se faziam de desentendidos para justificar o ódio que nutriam por Ele. E esse ódio se extravasava, como da vez que foi preso e espancado porque andava ressuscitando mortos pelas aldeias desassistidas.

Enquanto uns diziam ser Ele um subversivo, um impostor, outros procuravam defendê-lo afirmando que era um Homem tão bom que chegava a multiplicar para dividir. Muitos chegaram a vê-lo transformar um pouco d’água em alguns barris de vinho e multiplicar cinco pães e dois peixes em milhares de pães e milhares de peixes para matar a fome e a sede dos que lhe seguiam.

Não só Ele, seus seguidores também não conduziam armas, dinheiro ou qualquer bem material. E por que tanto temor a um homem pobre, manso e bom?

O seu único bem consistia numa túnica amarrotada, feita de tecido ordinário. Nada mais possuía, nem um mesmo um chinelo que lhe protegesse os pés estropiados pelas areias escaldantes da sua Galiléia.

Por isso, os seus seguidores não encontravam razão para que a gente rica e poderosa tremesse ao escutar o nome de quem só recomendava o amor e a solidariedade, nunca a usura ou a violência.

Não costumava reclamar da vida sofrida, a não ser quando deixou escapar que até os bichos do mato possuíam uma toca para descansar, enquanto Ele, o Filho do Homem, não tinha nem onde pudesse reclinar a cabeça atribulada por tantas perseguições.

E como todos já esperavam, os poderosos venceram. Ele foi preso e condenado por rudes figuras pançudas que compunham um Tribunal que nada tinha a dever aos que continuam condenando os comunistas por defenderem idéias parecidas às que motivaram a sua morte.

Pôncio Pilatos, o preposto de Roma, ou seja, do Império Invasor, foi quem presidiu o julgamento e proclamou o veredicto determinando que o Homem acusado de sublevar as massas fosse condenado â morte por crucificação. Isso se passou há mais de dois mil anos, mas parece ter sido hoje, porque nada mudou, a prática perdura.

Percebendo que as acusações atribuídas ao réu não eram suficientes para condená-lo, Pilatos relutou e procurando dividir com o “povo judeu” a responsabilidade da sentença propalada. Para isso, pediu à multidão, que se prostrava diante do Tribunal, que opinasse sobre o macabro veredicto, pois Cesar, o Imperador, havia lhe conferido a decisão de perdoar um dos condenados e ele transferia ao povo a escolha do nome a ser perdoado.

Aquela “multidão” também não deixa de lembrar as que hoje trocam seu voto por migalhas oferecidas por politiqueiros desonestos. Foi essa “multidão” que nunca deixou de existir que, uníssona, bradou a sua escolha:

– Barrabás!  Barrabás!

Mesmo ouvindo o berro animalesco em favor de um ladrão, o nosso Irmão não protestou nem demonstrou o mínimo ressentimento, Ele sabia que aquela “multidão” não fazia parte das multidões que acreditavam em seus ensinamentos.

Por isso, calado estava, calado permaneceu até quando seus inquisidores lhe perguntaram por que seus seguidores havia lhe abandonado no instante mais cruciante da sua existência.

Como continuam fazendo por esse mundo, foi constituído um Tribunal formado por juízes e autoridades religiosas que discordavam dos seus ensinamentos. Então, como está claro, foi essa corja que levou à “multidão” a aprovar a Sentença de Execução do Filho de Maria que, após o veredicto, foi arrastado sob zombarias, chibatadas, pontapés e cusparadas na cara.

Nenhuma voz se levantou a seu favor. Quem ousaria protestar contra a turba furiosa e a poderosa elite que já havia ordenado a troca de sua túnica por uma tanga que melhor se adequasse à judiação que sofreria a caminho da morte? Ele mesmo falou pela voz de Isaias durante a trajetória rumo ao calvário.

“Olhei em roda e não houve quem me acudisse;  busquei, e não houve quem me ajudasse.”

 Obrigaram-lhe a carregar sobre o ombro um pesado madeiro, em forma de cruz, até o “Morro do Calvário” onde foi crucificado e morto entre dois ladrões. Mesmo recebendo bofetadas, chibatadas e cusparadas, pedia ao Pai que perdoasse os que lhe ofendiam.

Eram perversos “paus mandados”, desprovidos de saber e, como alguns dos tempos atuais, escolheram essa forma de trabalho para ganhar a subsistência da prole. É bom deixar claro que aqueles verdugos são os mesmos que atualmente espancam, torturam e matam os que lutam para que os bens produzidos pela sociedade passem a pertencer a todos que deles necessitem.

Ressalvo que nem todos os carrascos se prostituem alugando sua perversidade à burguesia endinheirada. Inclusive devem saber, por ter escutado,  que até a sétima geração, oriunda de sua descendência, pagará por suas atrocidades.

Os perversos de ontem não diferem das infelizes bestas humanas de hoje. Robustas no físico, mas tão pequeninas no saber que ganham a vida espancando, torturando e matando seus próprios defensores. Esses infames cães de guarda dos donos do poder são vistos como rudes e grotescas criaturas.

Seria bom destacar que durante o percurso do Tribunal até ao calvário, somente as mulheres deram provas de coragem, demonstraram valentia. Verônica chegou ao auge da sua solidariedade ao interceptar o cortejo para enxugar o rosto ensangüentado do condenado e Madalena, uma mulher dita como prostituta, ao lado de Maria, não se afastou Dele nem no percurso nem nos instantes mais cruciais.

Não fosse a coragem daquela que diziam ser meretriz, Maria, a frágil mulher que acabara de ver o Filho morrer cravado numa cruz, teria se angustiado ainda mais, pois, não havia quem lhe ajudasse a despregar da cruz o Filho que acabara de ser morto por defender a ralé desprotegida como fizeram Che Guevara, Carlos Marighella e outros que também morreram pelos deserdados.

Não faz muito que Gregório Bezerra foi espancado e arrastado pelas ruas de Recife por três cordas amarradas ao pescoço enquanto levava chutes, pontapés e coronhadas de fuzis por defender idéias parecidas às que levara Cristo à morte.

Os parentes e os amigos de Jesus não demonstraram a mínima solidariedade à mãe que chorou até o momento derradeiro. Não fosse a que era apontada como meretriz, com quem Maria contaria para desprender o filho da cruz? Ainda bem que apareceu José de Arimatéia oferecendo a sofrida mãe uma loca de pedras onde ela poderia colocar os despojos do Filho Amado.

Contam que, três dias após o sepultamento, Madalena chegou a vê-lo caminhando pelos arredores da tal loca onde fora sepultado. Ela o reconheceu pelas chagas sangrentas que trazia nas mãos e nos pés provocadas pelos grampos usados para lhe pregar ao madeiro.

Esse homem, a quem, também, chamavam de Jesus de Nazaré, continua sendo caçado naqueles que não se calam diante das injustiças que Ele tanto combateu. Bom seria que tivéssemos a coragem de proclamar suas idéias para que o mundo por Ele idealizado se tornasse uma realidade.

Um mundo onde todos se amassem e se ajudassem mutuamente para que as coisas necessárias à vida pudessem convergir

“de um para todos e de todos para um, conforme a necessidade de cada um.”

 

O tempo avança

 

Autor:   Clodoval de Barros Pereira

 

Ao sair do banho caminhou até a cama onde, costumeiramente, deixava a roupa que usaria para dormir. Verificando que não procedera rotineiramente, tomou a direção do vestiário e deparou-se com o amplo espelho pendurado à parede refletindo seu corpo nu depois de tantos anos vividos.

Era tamanha a perplexidade que a mente nem dava por conta da visão fixa no rosto gretado, nas mamas flácidas, na barriga obesa… Não fosse o olho avariado não teria enxergado o púbis deformado num corpo, antes, tão bonito e cobiçado. Como o tempo é perverso… Não poupa nem a beleza.

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Minha bisavó Olímpia

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Meu pai costumava se referir com especial carinho a sua avó Olímpia da Veiga Figueiredo Accioly de Barros Lins a quem ele e seus irmãos chamavam de Dindinha.

    Segundo ele e meus tios, Olímpia era uma mulher bonita, trabalhadora, corajosa e de muita fibra. Casara com Umbelino Accioly de Barros Lins, como ela, integrante de famílias vindas de Portugal. Essa gente se espalhava por Cabo de Santo Agostinho, Sirinhaém, Rio Formoso, Barreiros e Porto Calvo para onde já havia vindo Cristovam Linz. Essa gente começou a se misturar com os Pereira, os Vasconcelos, os Buarque de Holanda e Albuquerque e passando a desenvolver, como eles, as atividades peculiares à região, ou seja, o Comércio e a Agricultura.

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Eu venho das madrugadas

Autor: Clodoval de Barros Pereira

    Assim que os primeiros raios solares começavam a penetrar pelas frestas abertas entre as telhas que cobriam a nossa casa, eu e meus irmãos pulávamos da cama e acompanhávamos o nosso pai que se dirigia ao curral para tirar o leite das vacas. Cada filho levava um copo com um pouco de mel de abelha uruçu para misturar ao leite cru, que tomávamos morninho, tirado na hora, daquelas benditas, róseas e adoráveis tetas.

    Foi com ele que aprendemos a massagear, carinhosamente, os mamilos daquelas enormes fêmeas para que deles desprendessem o saboroso líquido que nos servia de alimento. Nessa época, eu beirava os 13 anos, era raquítico e tinha o crescimento retardado, mesmo assim já tirava leite, laçava uma rês e montava a cavalo para correr gado. Já sabia empunhar uma foice, uma enxada e começava a manusear com certa destreza o revolver, a espingarda e o rifle 44, coisas necessárias e corriqueiras nas brenhas onde me criei. Continue reading